Após 2 noites de protestos no Líbano, premiê defende formação urgente de novo governo

Manifestações que começaram em outubro terminam em confrontos cada vez mais violentos

Beirute | Reuters

O primeiro-ministro interino do Líbano, Saad al-Hariri, afirmou nesta segunda-feira (20) que o país precisa formar rapidamente um novo governo para estancar as crises social e econômica, após um fim de semana de fortes confrontos durante protestos.

Somando o sábado e o domingo, ao menos 546 pessoas ficaram feridas, entre manifestantes e membros das forças de segurança, segundo a Cruz Vermelha libanesa e a defesa civil.

Foi o maior nível de violência registrado nessas manifestações desde que elas começaram, em outubro, por uma cobrança de chamadas de voz por aplicativos como o WhatsApp. Depois, passaram a englobar pautas mais amplas, como a alta taxa de desemprego. 

Em Beirute, a polícia usou canhões de água, gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar a multidão que jogava pedras e gritava "revolução" no distrito comercial da capital.

Em reação, o presidente Michel Aoun anunciou no Twitter que se reuniria na segunda com os ministros da Defesa e do Interior e com autoridades da polícia e do Exército. De acordo com a agência oficial de notícias ANI, o objetivo era "discutir melhorias no plano de segurança e medidas para preservar a estabilidade e a calma no país".

A ministra do Interior, Raya al-Hassan, disse que as pessoas têm o direito de protestar, mas é inaceitável "atacar descaradamente" as forças de segurança, enquanto a organização Human Rights Watch pediu o fim de uma "cultura de impunidade por abuso" por parte da polícia.

Os manifestantes também voltaram sua raiva para os bancos —que restringiram o acesso à poupança—, com alguns destruindo a fachada da associação bancária no sábado à noite.

Os políticos não concordaram com um governo ou um plano de resgate econômico desde que os protestos levaram Saad al-Hariri a deixar o cargo de primeiro-ministro em outubro.

"Nós deixamos de ser um país que costumávamos chamar a Suíça do leste para um país que está abaixo de tudo", disse a dona de casa Rezzan Barraj, 47, em ato no domingo à noite.

No mês passado, o pouco conhecido ex-ministro Hassan Diab foi designado premiê com o apoio da milícia Hizbullah e seus aliados, mas um acordo sobre um gabinete ainda não foi anunciado.

Histórico dos atos

Desde 17 de outubro, os libaneses vêm fazendo manifestações massivas no país, que passa por sua pior crise econômica desde a guerra civil (1975-1990). Bancos, escolas e universidades estão fechados, e barreiras bloqueiam os principais acessos à capital. 

O levante está sendo chamado de "revolução do WhatsApp" porque começou após o anúncio de um plano para cobrar uma taxa sobre chamadas de voz em aplicativos como esse. A cobrança seria de 20 centavos de libra libanesa (R$ 0,83) por dia para ligações feitas por meio de programas que usam a tecnologia Voip, que permite chamadas pela internet. 

O governo recuou horas mais tarde, mas as manifestações continuaram, evidenciando o descontentamento da população frente a políticos que levaram o Líbano à crise econômica.

Abalado por uma guerra civil entre 1975 e 1990, o Líbano é um dos países mais endividados do mundo: o crescimento econômico foi dificultado por conflitos e instabilidade regionais. O desemprego entre pessoas com menos de 35 anos chega a 37%.

Os libaneses sofrem com a escassez crônica de água e eletricidade, e mais de um quarto da população vive abaixo da linha de pobreza. 

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