Descrição de chapéu The New York Times

Quatro meses após eleição presidencial, votos no Afeganistão serão auditados

Resultado final está em suspenso; checagem será realizada por comissão acusada de favorecer atual presidente

Mujib Mashal
Cabul | The New York Times

Mais de quatro meses depois de os afegãos terem ido às urnas para eleger um novo presidente, enquanto uma guerra corre solta no país, a crise em torno dos resultados da eleição se aprofundou na quarta-feira (5), quando autoridades ordenaram uma auditoria de uma parcela decisiva dos votos.

No final de 2019, não obstante as denúncias de irregularidades na eleição presidencial de setembro feitas por candidatos oposicionistas, a comissão eleitoral nacional declarou que o presidente Ashraf Ghani estava na liderança, com uma margem de menos de 1% sobre o mínimo de 50% dos votos necessários para uma vitória.

As chapas oposicionistas, que questionaram cerca de 15% do total dos votos contabilizados, apresentaram um recurso junto à Comissão Independente de Queixas Eleitorais, que julga as objeções feitas por candidatos antes do anúncio de um resultado final.

Depois de passar semanas avaliando mais de 20 mil denúncias, na quarta-feira a comissão ordenou uma auditoria parcial de quase 240 mil votos entre os 1,8 milhão depositados nas urnas. Com isso, o resultado final da eleição está essencialmente em suspenso, condicionado aos resultados da auditoria.

O presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, durante cerimônia de graduação de policiais em Cabul - Omar Sobhani - 13.jan.20/Reuters

Muitos analistas temem que a crise em torno da eleição possa se estender por semanas —porque a auditoria será realizada pela mesma comissão eleitoral que os candidatos oposicionistas acusaram de má administração do pleito e de favorecer Ghani.

Enquanto isso, os partidários do presidente acusam a oposição de obstrucionismo —de contestar a vitória de Ghani para conseguirem uma participação no governo.

A crise política continua em meio às delicadas negociações de paz para pôr fim à longa guerra no Afeganistão.

Líderes do Taleban e negociadores americanos vêm se reunindo há semanas para tentar finalizar um acordo de paz que foi torpedeado pelo presidente Donald Trump em setembro passado, justamente quando as duas partes estavam preparadas para firmá-lo.

Os EUA estão exigindo que o Taleban reduza seus ataques significativamente antes de os dois lados acertarem um pacto. Um acordo entre Washington e Taleban, que também envolveria uma retirada gradual das tropas americanas ainda presentes no país, abriria o caminho de negociações para uma partilha do poder entre os insurgentes e outros afegãos, incluindo o governo de Ashraf Ghani.

Trump não esconde seu desejo de reduzir fortemente a presença de tropas americanas no Afeganistão, com ou sem um acordo de paz. Em seu discurso do Estado da União, ele disse que as negociações de paz continuam e reiterou seu desejo de encerrar a guerra.

“A comissão eleitoral diz que os votos são legítimos, e os denunciantes dizem que não”, disse Sayed Qutbuddin Roydar, membro da comissão de queixas eleitorais.

“Temos dúvidas quanto às decisões da comissão eleitoral. Para podermos considerar esses votos como sendo válidos, impusemos estas condições e ordenamos a auditoria, visando convencer os denunciantes e nos certificarmos.”

Enquanto alguns analistas saudaram a disposição da comissão de exigir mais informações antes de tomar uma decisão sobre uma parcela de votos que pode decidir a eleição, outros opinam que o processo já se arrasta há tanto tempo que virou piada.

“Em nenhum lugar do mundo se vê uma demora tão grande para obter os resultados de uma eleição”, disse Mohammad Naeem Ayubzada, diretor da Fundação Afegã para Eleições Transparentes, uma entidade da sociedade civil.

“No Afeganistão, lamentavelmente, os aspectos técnicos da eleição também viraram instrumentos para fomentar agendas políticas, e isso significa que as pessoas deixam de sentir confiança no processo."

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