Às vésperas de primárias, candidatos democratas recorrem a futebol e pizza para atrair eleitores

Caucus em Iowa é 1º grande evento da corrida para definir nome que enfrentará Trump

Des Moines (Iowa)

Luis Gomez não poderá participar do caucus de Iowa na noite desta segunda-feira (3)

O treinador de futebol de uma escola pública em Des Moines, capital do estado, mora há 19 anos nos Estados Unidos, mas ainda não conseguiu a cidadania americana exigida para votar. 

Aos 31 anos, o mexicano resolveu assim mesmo se envolver na disputa pela Casa Branca e, no mês passado, contatou a campanha de Bernie Sanders.

Fez uma proposta inusitada: promover um torneio de futsal para ensinar aos eleitores como funciona o complicado sistema de votação em Iowa.

Gomez diz que os próximos capítulos nos EUA vão influenciar a vida de seus filhos, de seis e um ano de idade, e acredita que o senador por Vermont é a melhor opção dos democratas para latinos e imigrantes no país.

No ginásio da East High School, onde treina dezenas de crianças, reuniu cerca de 200 pessoas, de 15 a 50 anos, dispostas a correr por mais de duas horas e aprender sobre o caucus —uma espécie de assembleia de eleitores criada em 1972 em que o voto não é secreto e funciona por aglomeração.

A progressista Elizabeth Warren (de vermelho), durante comício em campus universitário na cidade de Indianola, em Iowa - Chip Somodevilla/Getty Images/AFP

Antes dos seis times entrarem em quadra, voluntários da campanha de Sanders, que lidera a média das pesquisas em Iowa, explicavam a latinos, mas também a descendentes de países como Bósnia, Nepal e Butão, que nesta segunda-feira eles precisariam se reunir em escolas, cafeterias e restaurantes para debater as propostas dos candidatos e escolher seu favorito.

Os esclarecimentos se deram em cinco idiomas —principalmente inglês e espanhol— e o time vencedor ganhou um convite para conhecer Sanders pessoalmente.

A ideia de Gomez —encampada pela campanha na tentativa de conquistar o eleitorado latino— é exemplo dos eventos criativos que democratas têm promovido para ensinar e convencer indecisos.

De acordo com pesquisa da Universidade de Monmouth, 45% dos eleitores de Iowa disseram que ainda podem mudar de voto nesta segunda-feira.

Neta de mexicanos, a sindicalista Paula Martinez, 65, nasceu e cresceu em uma área rural do estado, diz que gosta de frequentar eventos às vésperas do caucus, mas deve chegar à votação sem um candidato definido.

"Acho que é muito importante ir para o caucus com a cabeça aberta para ser capaz de conversar com as pessoas de várias campanhas. E, com sorte, alguém vai te conquistar e te ajudar a decidir."

No sábado (1º), Martinez acordou cedo para participar de um café da manhã em Des Moines com representantes das principais campanhas democratas, onde 184 pedaços de pizza foram servidos para cerca de 30 pessoas antes mesmo das 10h da manhã.

De uma das mesas, ela pediu a palavra para perguntar a Jill Biden, mulher do centrista Joe Biden, o que ele faria pelos imigrantes caso fosse eleito.

Quem respondeu foi o ex-governador de Iowa Tom Vilsack, que estava ao lado de Jill representando o ex-vice-presidente americano, que divide com Sanders a liderança das pesquisas. 

"Separar famílias não deveria ser tolerado por ninguém", começou Vilsack, em crítica à controversa política de Trump. "Queremos arrumar as leis e tirar o imigrantes das sombras."

Enviar representantes aos eventos que antecedem o caucus é outra estratégia dos democratas para tentar dar capilaridade às suas campanhas nos estados.

Os candidatos participam de dezenas de compromissos no fim de semana que antecede a votação, muitos deles com grupos pequenos, de vinte a 50 pessoas.

Como o voto não é obrigatório nos EUA, dos 3,1 milhões de habitantes de Iowa são esperados cerca de 240 mil eleitores nos caucuses deste ano —em 2016, foram 170 mil.

A senadora progressista Elizabeth Warren, terceiro lugar nas pesquisas, precisou lançar mão da alternativa na sexta (31), quando o julgamento do impeachment de Trump no Senado atrasou sua chegada a Iowa.

Seu marido, Bruce Mann, foi quem conduziu o comício marcado para aquela noite e convidou os eleitores para uma cerveja com a mulher logo na sequência.

Perto das 23h, uma Warren bem-humorada, de tênis e moletom, apareceu em uma cervejaria de Des Moines para a já tradicional fila de selfies que notabilizou sua campanha.

No café da manhã com pizza, além do bilionário Tom Steyer, não estava prevista a presença de nenhum candidato. Foi quando o ônibus de Sanders parou na porta do restaurante e o senador desceu apressado.

À porta do salão, um dos organizadores sussurrou: "Isso é o típico evento de caucus. Você nunca sabe quem vai aparecer."

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