Alemanha reforça vigilância policial sobre ala extremista de partido de ultradireita

Governo poderá usar novos métodos de espionagem contra membros da AfD

Joseph Nasr
Berlim | Reuters

A Alemanha vai intensificar a vigilância sobre a ala radical do partido de ultradireita AfD (Alternativa para a Alemanha), depois da agência de inteligência do país classificar a legenda como entidade extremista que representa uma ameaça à democracia.

A decisão anunciada na quinta-feira (12) pela agência de inteligência BfV é um golpe duro contra o maior partido oposicionista da Alemanha, prejudicando seus esforços para se defender das acusações de abrigar posições racistas.

Bjoern Hoecke, líder do AfD, durante votação no Parlamento regional de Erfurt - Jens Schlueter/AFP

O AfD se fortaleceu graças a uma onda de repúdio contra a chanceler Angela Merkel, que em 2015 decidiu acolher quase 1 milhão de candidatos a asilo.

A BfV tomou a medida depois de ataques fatais contra judeus, muçulmanos e um político liberal na Alemanha.

“Hoje eu os informo que a Der Fluegel [a ala, em português] teve sua classificação elevada para a de entidade extremista”, disse Thomas Haldenwang, diretor da BfV, em entrevista coletiva. Ele descreveu os líderes da Der Fluegel como extremistas de direita.

Chefiada por Bjoern Hoecke, líder do AfD no estado oriental da Turíngia, a Der Fluegel já havia criticado a decisão da agência de inteligência de conduzir uma revisão dos últimos 14 meses de suas atividades.

Outro líder do partido, Andreas Kalbitz, descartou as conclusões da BfV na quinta-feira, descrevendo-as como motivadas por política.

“Vamos esgotar todos os recursos judiciais disponíveis para corrigir este erro", disse Kalbitz.

Hoecke condenou um ataque lançado no mês passado contra bares de narguilé na Alemanha ocidental por um atirador racista que matou nove pessoas, além de sua mãe e ele mesmo.

O líder da AfD também reprovou ataques lançados em outubro por atiradores antissemitas contra uma sinagoga e um restaurante de kebab na cidade de Halle, que deixaram dois mortos.

Na quarta-feira, aparentemente antevendo as conclusões às quais chegaria a BfV, Hoecke divulgou comunicado com outros líderes do partido esclarecendo declarações anteriores sobre estrangeiros e o Holocausto.

Os ataques letais jogaram por terra o senso de segurança dos alemães, reacenderam o medo da violência de extrema direita e levaram os partidos do mainstream a acusar políticos do AfD de contribuir para um ambiente de ódio.

Uma investigação contra o AfD como um todo ainda está em curso. Segundo Haldenwang, a BfV estima que 20% dos 35 mil filiados do partido façam parte da Der Fluegel.

A designação da ala da legenda como entidade extremista autoriza a agência de inteligência a utilizar métodos adicionais de espionagem para monitorar suas atividades.

Joachim Seeger, que chefia a divisão da BfV que investiga o extremismo de direita, criticou o que afirma ser a agenda de pureza racial de alguns dos líderes da Der Fluegel, que exclui a participação de não europeus, especialmente de muçulmanos.

A comunidade judaica saudou a decisão da agência de inteligência.

“Os órgãos do Estado precisam ao mesmo tempo investigar a extensão da influência exercida pela Der Fluegel dentro do AfD”, disse Charlotte Knobloch, membro da comunidade judaica de Munique.

“O partido todo precisa ser monitorado, visto que ele participa de eleições de modo unificado e representa uma ameaça à democracia.”

A decisão pode reacender um debate interno no partido sobre a influência crescente de Hoecke.

“Hoecke precisa assegurar que a Der Fluegel trace uma linha separatória clara entre ela e os extremistas”, disse o deputado Georg Pazderski, do AfD.

Tradução de Clara Allain

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