Descrição de chapéu Coronavírus

Após pandemia, profetas da mentira estarão confinados à solidão, fantasia roteirista

A convite da Folha, dois escritores imaginam o futuro após a crise de coronavírus

Chico Mattoso
São Paulo

Afinal, o que raios vai acontecer quando tudo isso passar?

Primeiro, todos queremos saber quando isso vai acabar. Depois, quando acabar, todos queremos saber como o mundo será.

A convite da Folha, dois escritores imaginaram o futuro após a pandemia de coronavírus.

O roteirista paulistano Chico Mattoso traz uma visão otimista, que você lê abaixo, em que correntes de ódio dão lugar à valorização da educação.

Já a escritora carioca Simone Campos, que hoje vive na Califórnia, retrata uma sociedade vigiada e violenta, fruto da decisão de voltar à rotina normal para salvar a economia.

Vende-se brigadeiro. Quem olha para a placa afixada na porta de um pequeno sobrado na periferia de Vinhedo, no interior de São Paulo, não imagina que por trás daquela fachada vive o homem que, até pouco tempo, era um dos mais influentes ideólogos do país.

“Me responde você, caralho! Eu não consigo entender o que aconteceu! Já quebrei minha cabeça, é inconcebível!”

A perplexidade de Olavo de Carvalho tem razão de ser. Sua vida virou do avesso com a pandemia do coronavírus, que devastou o planeta entre os anos de 2020 e 2021. Começou com a hipoteca de sua casa na Virgínia, realizada para pagar as dívidas hospitalares depois da internação e do diagnóstico de Covid-19 (embora ele insista que o que o acometeu foi na verdade “um tipo mais severo de sapinho”).

Sem dinheiro, teve que voltar ao país natal, onde tentou reconectar-se com antigos seguidores e reeditar os cursos que o deixaram famoso.

Em um fundo azul, emoticons de coração, de sorriso e de cubo de gelo saem de dentro de casas; ao lado esquerdo, uma borboleta vermelha e amarela, pousada em cima de uma flor
Ilustração de Fido Nesti

Mas era tarde demais. A própria internet, o terreno fértil por onde o velho guru se acostumou a disseminar seu misto explosivo de radicalismo, paranoia e desinformação, havia passado por uma metamorfose. A força e a inexorabilidade de um vírus letal dinamitaram a lógica interna do conspiracionismo. A bolha da mistificação estourou. A realidade se apresentou, implacável, deixando os profetas da mentira falando sozinhos na chuva.

“Ninguém me atende mais! O Jair eu até dou um desconto, não é fácil conseguir ligação para a penitenciária lá em Haia, mas porra! O Dudu? O Filipe? Eu limpei as fraldas daqueles moleques, cacete!”

Olavo tem um acesso de tosse. As sequelas de sua “crise de sapinho” ficam mais visíveis nos momentos de descontrole. Embora se esforce para transmitir uma aura de calma e superioridade moral, a verdade é que tudo, hoje, parece irritá-lo de alguma maneira. Mesmo o computador e o celular, antes aliados na divulgação de sua mensagem, viraram motivo de tormento.

De fato, as mudanças no funcionamento das redes sociais foram radicais, ainda mais para quem se acostumou com o pega-pra-capar que marcou a vida online ao longo dos anos 10.

Saíram de cena as correntes de ódio, a polarização inconsequente, os cancelamentos obtusos, a disseminação de embustes. O ocaso de Facebook e Twitter se acentuou quando, em 2022, um grupo de investidores tirou Orkut Büyükkökten da aposentadoria e o ajudou a colocar de pé uma versão 3.0 de sua antiga rede social.

O sucesso foi instantâneo. Voltaram os scraps, os limites de fotos, a barrinha de corações. Comunidades como “Se eu morrer minha mãe me mata” ou “Pensei que era sorvete mas era feijão” caíram novamente no gosto da população. Confuso com a nova tecnologia, o velho guru martela os dedos na tela do celular.

“Essa coisa aqui, ó, eu não entendo como funciona. Um imbecil acabou de me mandar uma pedra de gelo. Você sabe o que isso quer dizer?”

Ilustração de Fido Nesti

Mas as transformações não se limitaram ao terreno virtual. Nem poderia ser diferente.

Ao longo de seis terríveis meses, acompanhamos pela janela um ser vivo desfilar pelo planeta esmigalhando uma a uma as nossas mais arraigadas convicções. Mercado? Conta outra. Big data? Conversa aqui com a minha mão. Surrada de forma humilhante por um organismo microscópico, a humanidade foi obrigada a abandonar suas ilusões de onipotência e repensar sua relação com o espaço, o tempo e a matéria.

“Ilusão de onipotência é o meu ovo! Te desafio a provar que UMA ÚNICA pessoa morreu desse resfriado! As certidões de óbito foram manipuladas! Impressas em gráficas chinesas! Tá mais do que comprovado!”

Olavo se interrompe de súbito. Num espasmo de lucidez, pede que o desabafo fique entre nós. É que uma das consequências da crise do coronavírus foi a criminalização definitiva das fake news. Quando há o agravante de se desafiar evidências científicas, o crime fica inafiançável, comparável ao terrorismo.

“Olha como é insidioso o sistema. O sujeito cria uma narrativa, transforma em verdade científica, e quando você resolve expor a farsa eles vêm e te calam. É de um maquiavelismo espantoso! Como é que o mundo foi cair nessa esparrela?”

O pior é que caiu mesmo. Começou com a ruína em cascata dos populistas, Donald Trump à frente. A fotografia do outrora homem mais poderoso do mundo saindo algemado da carceragem de cabeça raspada e sem a pancake alaranjada no rosto entrou no rol das imagens icônicas do século. Mas a coisa foi além de um mero terremoto político. Estamos falando de uma mudança global de paradigma.

A mensagem violenta que receberam da natureza fez com que os líderes mundiais finalmente acordassem para os desafios da mudança climática. Os meses de confinamento com crianças dentro de casa mostraram a importância do magistério, fazendo o investimento em educação quintuplicar nos anos posteriores à pandemia.

O comportamento eugenista de alguns empresários diante da crise reforçou o clamor por medidas de justiça social e permitiu que reformas tributárias realmente distributivas acontecessem ao redor do mundo. A alta mortalidade do vírus nas grandes cidades levou grandes massas a buscarem um estilo de vida mais simples, quase pastoril.

“É a vitória dos maconhistas! É o comunismo institucionalizado! Eu avisei que se a civilização judaico-cristã não se armasse a KGB ia fazer picadinho da gente. E não precisaram dar um tiro de canhão!”

Olavo tem outra crise de tosse, ainda mais severa que a primeira. Faz um gesto para esperar e cambaleia com dificuldade em direção à cozinha. Mas não nos enganemos com sua aparente fragilidade. O velho astrólogo pode estar ferido, mas não está morto. Se a guerra nas redes perdeu o sentido, ele já encontrou outro campo de batalha para seguir combatendo heroicamente o sistema. Quando retorna à sala, é trazendo um panelão fumegante. Ele me oferece uma colher.

“Prova e me fala: existe brigadeiro melhor? Existe? Essa história de que precisa usar chocolate do frade é mentira da grande mídia. Ouve o que eu tô dizendo! A gente precisa acordar antes que seja tarde demais!”

Autor do romance “Nunca Vai Embora” (Companhia das Letras) e co-criador da série de TV “Pico da Neblina” (HBO)

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