Descrição de chapéu Coronavírus

Na contramão, presidente mexicano pediu beijos, abraços e nada de quarentena

Andrés Manuel López Obrador foi criticado por minimizar gravidade da crise do coronavírus

Buenos Aires

Líder de um país com quase 130 milhões de habitantes, onde o coronavírus registra 367 casos e 4 mortes, o mexicano Andrés Manuel López Obrador se mostrou um negacionista da mesma escala do problema.

Aos 66, portanto dentro do grupo de risco, o presidente já declarou que "abraçar é bom" e que, mesmo que digam para não se abraçar devido aos riscos de contágio da Covid-19, "não vai acontecer nada".

Numa viagem recente a Guerrero, um dos estados mais pobres do México, o presidente colocou suas declarações em prática, abraçando apoiadores e beijando bebês durante um grande evento.

O comportamento de AMLO, como López Obrador é conhecido, remete a sua campanha eleitoral, cujo slogan pedia para trocar "balazos" [tiros, em português] por "abrazos".

O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, durante entrevista coletiva no Palacio Nacional, na Cidade do México
O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, durante entrevista coletiva no Palácio Nacional, na Cidade do México - Xinhua

Questionado sobre os perigos de seus gestos para a saúde pública em tempos de pandemia, o mexicano disse que sua fé o protegia. Em seguida, mostrou imagens de santos católicos para a imprensa.

No dia 15, divulgou um vídeo ainda mais temeroso. Nele, aparece diante de uma mesa farta, com comidas mexicanas típicas. "Vamos em frente, e não deixem de sair", dizia. "Quando for o momento de ficar em casa, eu os avisarei."

O presidente ainda pedia aos mexicanos, "uma etnia forte, que consegue vencer vários tipos de peste", para que continuassem levando suas famílias a restaurantes, fortalecendo assim a economia popular, uma vez que "não fará bem ao país paralisar a economia de maneira exagerada".

Diante de pedidos de membros do governo para suspender voos entre o México e os EUA, AMLO negou a possibilidade categoricamente. "Precisamos deles."

Num país em que 69 milhões de pessoas não têm acesso a nenhum tipo de plano de saúde, e o sistema público não daria conta de um grande número de internações, as declarações são alarmantes.

Uma pesquisa do instituto Mitofsky divulgada no início de março mostrou que 63% dos mexicanos afirmam ter medo de serem infectados ou de que a doença afete alguém da família. Por outro lado, 28% disseram ter dúvidas sobre a necessidade de ficar em casa.

No interior do país, é comum que famílias inteiras dividam casas pequenas, o que facilitaria a propagação do vírus, e esse aspecto é apontado como outro temor pelos entrevistados.

"Apesar de o presidente dizer essas coisas, há outras forças no país tomando iniciativas", diz a escritora e analista política Cecília González. "Há campanhas que surgem da sociedade, há políticos tomando decisões locais, e o México tem tradição de ter uma sociedade civil muito ativa, que não vai simplesmente aceitar essas bobagens que AMLO está dizendo."

Um dos exemplos é a prefeita da Cidade do México, Claudia Sheinbaum, que mandou fechar cinemas, teatros, museus, academias e bares.

Já a secretaria de Saúde lançou uma campanha baseada num personagem batizado de Susana Distância, um jogo de palavras com "sana distancia" (distância saudável, em português), que abre os braços para mostrar o quão longe tem de estar dos amigos.

Os críticos de AMLO afirmam que ele não quer alarmar a população porque sabe que não terá como atender a uma demanda alta de pacientes.

O país, a segunda maior economia da América Latina, tem apenas 4.372 leitos equipados com respiradores, equipamento utilizado em casos mais graves.

Nas redes sociais, a fúria contra o presidente cresce, como no dia em que ele recomendou aos que estão preocupados com o coronavírus ler o livro "O Amor nos Tempos do Cólera", do colombiano Gabriel García Márquez, "porque a literatura pode ser um bálsamo para a alma inquieta".

AMLO, no entanto, parece não perceber que, apesar do aparente final feliz, trata-se de uma obra sobre uma tragédia, humana e espiritual.

Por outro lado, uma outra autoridade parece manter mais os pés no chão do que o presidente.

Hugo López-Gatell, subsecretário de Saúde e responsável pela administração da crise do novo coronavírus no México, é quem tem divulgado os números da pandemia e dado recomendações à população.

Nesta terça (24), anunciou novas decisões para tentar conter o avanço da Covid-19 no país. Além do fechamento de escolas por um mês, medida que começou na segunda-feira (23), o governo suspendeu a realização de grandes eventos.

"Decidimos suspender temporariamente eventos com cem ou mais pessoas", disse López-Gatell. "Todas as reuniões —públicas, privadas, governamentais, sociais— devem ser evitadas ao longo do mês."

O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, anuncia novas medidas de distanciamento social contra o coronavírus enquanto seus ministros ficam próximos um do outro no palco
O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, anuncia medidas de distanciamento social enquanto seus ministros ficam próximos uns aos outros no palco - Presidência do México/Reuters

O anúncio, porém, teve uma cena inusitada. Enquanto o presidente recomendava que a população mantivesse o distanciamento social, seus ministros se espremiam no palco, um bastante próximo ao outro.

Apesar disso, AMLO, que pouco tempo atrás pegou uma garotinha nos braços em meio à multidão e deu oito beijos em suas bochechas, quatro de cada lado, parece ter começado a entender a gravidade da crise.

No último sábado (21), publicou um vídeo no qual uma criança, escreve ele, queria lhe dar beijos. "Mas não posso devido à distância saudável."

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