Contra China, EUA querem trazer produção de chips de Taiwan para seu território

Americanos negociam com gigante de Taiwan abertura de fábrica do produto no país, diz jornal

São Paulo

Em mais um capítulo da Guerra Fria 2.0 que travam com a emergente China, temperada pelo impacto da Covid-19, os Estados Unidos querem concentrar a produção de chips avançados em seu território.

Diferentemente de grandes cadeias produtivas globais, que têm na China um elo sob forte estresse devido à restrição de movimentos causada pela pandemia, o problema aqui é Taiwan.

Chips produzidos pela TSMC, maior fabricante mundial de semicondutores
Chips produzidos pela TSMC, maior fabricante mundial de semicondutores - Richard Chung - 9.jan.2007/Reuters

País que Pequim considera território rebelde seu, a ilha sedia a TSMC (Companhia de Manufatura de Semicondutores de Taiwan), a maior fornecedora de chips do mundo.

Ela é uma “fundição”, como se diz no mercado, fabricando chips desenhados por outras empresas, e faturou US$ 35,7 bilhões (R$ 210 bilhões hoje).

Com a americana Intel, fornece 90% dos modelos avançados do mercado.

São considerados assim chips que tenham arquitetura inferior a 10 nanômetros entre seus terminais de transistores. Para se ter uma ideia da escala, um fio de cabelo tem 100 mil nanômetros –a unidade significa um bilionésimo de metro.

Com uma distância entre os terminais tão ínfima, é permitido incluir milhões a mais de conexões na peça, aumentando sua velocidade de processamento.

Há dezenas de fabricantes no mercado, mas apenas a TSCM, a Intel e a sul-coreana Samsung fazem chips tão potentes, alguns com apenas 5 nanômetros.

Os americanos produzem tanto em casa quanto fora, e a TSCM é fornecedora de quase todas as grandes americanas e da gigante chinesa Huawei.

A empresa, líder em tecnologia de internet 5G, está no centro de uma batalha econômica: o governo Donald Trump vem pressionando aliados, inclusive o Brasil, a não adotar equipamentos chineses em suas futuras redes da nova geração de tecnologia digital.

Além de prosaicas geladeiras inteligentes, o 5G está no centro da revolução de aplicações militares, da fusão de dados em tempo real aos caças e tanques sem pilotos.

Segundo reportagem publicada na terça (11) pelo americano The Wall Street Journal, o Pentágono está em conversa com a TSCM para abrir uma fundição no país e com a Intel para expandir sua produção.

Em 2019, o Pentágono divulgou documento afirmando que a segurança digital dos EUA dependia excessivamente do mercado asiático.

“Taiwan, em particular, é o principal ponto frágil para as maiores e mais importantes empresas de tecnologia dos EUA”, diz o relatório.

Isso antes da disrupção da Covid-19. A questão é que Taiwan está muito próximo da China, que tem em sua política externa a reunificação com a ilha como prioridade.

Em sua guerra com a Huawei, a administração Trump já tentou reduzir o fornecimento de chips da TSMC para os chineses, sem sucesso.

Se forçar a mão, com sanções à venda no mercado americano, por exemplo, o tiro pode ser no pé: quebrar os taiwaneses só reforçaria o desenvolvimento autóctone chinês de chips.

Na mão contrária, Taiwan precisa reforçar seus laços com os EUA, dado que o “éthos” nacional é de confronto com a China.

Não sem motivo: desde a irrupção da pandemia, o nacionalismo está em alta em Pequim, com “falcões” ligados às Forças Armadas escrevendo artigos sobre a hoje bastante improvável anexação à força de Taiwan.

Todos esses matizes diferenciam esse mercado de outros, como o de farmacêuticos, que também têm suas cadeias produtivas atuais questionadas: 90% dos antibióticos consumidos nos EUA têm princípios ativos chineses.

Ao WSJ, a TSMC não negou as conversas relatadas em trocas de e-mails, mas dissimulou suas intenções. Já um dos vice-presidentes da Intel, Greg Slater, disse que a empresa pensa seriamente no assunto.

Segundo relatório da consultoria americana McKinsey, o impacto do coronavírus na produção mundial de semicondutores será de 5% a 15%, o que também deverá estimular rearranjos.

O texto prevê impactos diferentes, sendo que um dos maiores tombos pode ser visto numa área que já sofre com a interrupção das cadeias produtivas na crise, a automotiva.

Segundo o órgão que reúne as estatísticas do setor, o WSTS (Estatísticas Mundiais do Comércio de Semicondutores, na sigla inglesa), em 2019 o faturamento com chips, processadores, unidades de memória e afins chegou a US$ 409 bilhões (R$ 2,4 trilhões).

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