Rivais dos EUA dão demonstração de força militar na crise do coronavírus

Chineses despacham porta-aviões, russos fazem exercícios e norte-coreanos disparam mísseis

São Paulo

A pandemia do novo coronavírus está estimulando rivais dos Estados Unidos a flexionarem seus músculos militares em demonstrações de capacidade de combate apesar da gravidade da crise sanitária.

China, Rússia e Coreia do Norte chamaram a atenção com exercícios militares que parecem desenhados para realçar o momento difícil da maior potência bélica do mundo.

O porta-aviões chinês Liaoning durante exercícios no Pacífico em abril de 2018
O porta-aviões chinês Liaoning durante exercícios no Pacífico em abril de 2018 - Reuters - 18.abr.2018

O caso mais evidente envolve os chineses, que despacharam no fim de semana para o mar do Sul da China o porta-aviões Lianoning, duas fragatas, dois destróieres e um navio de apoio.

A região é clamada por Pequim como sua, o que é disputado por americanos e vizinhos como Filipinas e Vietnã, por ser uma das principais rotas mercantis do mundo.

Na semana passada, a Marinha da ditadura comunista fez exercícios de tiro no mar do Leste, e um navio de patrulha circundou uma ilhota disputada pelos filipinos.

Na quinta (10), aviões militares chineses sobrevoaram Taiwan, ilha que Pequim considera sua, perseguindo uma aeronave de espionagem eletrônica americana.

Isso tudo ocorreu no momento em que os EUA deslocam recursos para enfrentar o Sars-CoV-2 em seu território, um dos mais afetados do mundo, e no qual o patógeno limitou a força naval americana no Pacífico Ocidental, área que Pequim pretende transformar em seu quintal estratégico nos próximos anos.

Seus dois porta-aviões na região foram afetados pela Covid-19. O caso mais grave é o do USS Theodore Roosevelt, que tem mais de 900 contaminados e 1 morto entre 4.800 tripulantes e foi obrigado a atracar no território americano de Guam na semana retrasada.

O episódio levou seu capitão a ser dispensado por ter vazado a carta na qual reclamava a providência ao chefe da Marinha, Thomas Modly, que por sua vez o insultou em discurso à tripulação e acabou tendo de pedir demissão.

Já o USS Ronald Reagan, que operava perto do Japão, está na base americana de Yokosuka para uma quarentena de 14 dias por ter alguns casos da doença a bordo. Do outro lado do Pacífico, em Bremerton (EUA), outros dois porta-aviões, o USS Nimitz e o USS Carl Vinson, também têm doentes registrados.

A China nega o oportunismo. Segundo disse ao jornal estatal Global Times o porta-voz das Forças Armadas, Gao Xiuecheng, os exercícios já estavam no planejamento anual e não há correlação com a Covid-19.

Pode ser, mas o mero fato de que as manobras ocorrem é uma demonstração de preparo em meio à emergência sanitária.

Também na região, a ditadura de Kim Jong-un na Coreia do Norte voltou a emitir sinais para os vizinhos enquanto as negociações acerca de seu programa de armas nucleares seguem congeladas. Nesta terça (14), mísseis de cruzeiro foram disparados na região de Munchon, o primeiro teste do tipo desde 2017.

Em Seul, sul-coreano vê noticiário com imagem de míssil semelhante aos que foram lançados nesta terça (14) pela Coreia do Norte
Em Seul, noticiário mostra imagem de míssil semelhante aos que foram lançados nesta terça (14) - Jung Yeon-ie/AFP

Também houve um raro exercício de ataque a solo, a partir de antigos aviões soviéticos, com mísseis armados. Os exercícios ocorrem na véspera das eleições parlamentares na vizinha Coreia do Sul, considerada um dos exemplos em táticas de combate à Covid-19.

A ditadura comunista ao norte afirma que eliminou o vírus do país, uma declaração que nenhuma autoridade internacional de saúde se atreve a subscrever, e que vai bloquear o acesso a seu território por um ano.

Enquanto isso, a Rússia de Vladimir Putin mantém um ritmo acelerado de exercícios militares —e faz questão de dar bastante publicidade a eles.

De março para cá, foram reportadas pela agência estatal Tass nada menos que 41 ações, incluindo uma manobra com 20 barcos e aviões de combate na semana passada no mar Báltico e diversas simulações de interceptação na Crimeia anexada.

Na segunda (13), o Distrito Militar Central, o maior do país, anunciou que abril sediará dez exercícios de grande escala na Sibéria, Urais e Volga, além de operações com as tropas russas baseadas no Tadjiquistão e Quirguistão.

O país começou a ser atingido mais duramente pelo vírus nas últimas semanas e registrou nesta terça 21.102 casos, com 170 mortes. A única concessão dos militares até aqui foi a de evitar exercícios próximos a fronteiras de outros países.

Assim como Pequim, Moscou tem exercido também o "soft power", enviando médicos para auxiliar países vizinhos e mesmo a combalida Itália.

Toda essa movimentação tem caráter simbólico, até porque os EUA concentram 39% dos gastos militares do mundo, mas insinua os embates que não deixaram de acontecer devido à tragédia da pandemia.

Mesmo que pretendesse anexar Taiwan, que é protegida militarmente pelos EUA, a China não teria condições de fazê-lo neste momento. Apesar das dificuldades momentâneas americanas, o poderio naval de Washington ainda é insuperável.

Sem falar na capacidade nuclear, que só é rivalizada pela Rússia, os EUA têm 11 porta-aviões e a Marinha mais capaz do planeta. Além disso, mirando a região, o Comando do Pacífico tem 55,6 mil militares no Japão, 28,5 mil na Coreia do Sul e 8,1 mil em Guam, equipados com navios e aviões de ponta.

Washington também deu sinais a Pequim. Na semana passada, um destróier americano atravessou o estreito de Taiwan, que os chineses consideram águas territoriais suas.

E na sexta (11) foi anunciado um exercício conjunto entre um destróier japonês e um navio de assalto anfíbio dos EUA —a única embarcação do tipo dos chineses pegou fogo no porto durante o fim de semana.

Isso dito, os esforços navais chineses são claros, com um segundo porta-aviões entregue no ano passado e mais um em construção, além do planejado modelo de propulsão nuclear que já está em fase de projeto.

Aliados americanos também estão enfrentando dificuldades com a Covid-19 no campo militar. A França teve de tirar de operação seu porta-aviões de propulsão nuclear, o Charles de Gaulle, depois que 50 de seus 1.700 tripulantes apresentaram a doença.

O navio está em Toulon (França) e está passando por uma desinfecção, enquanto os marinheiros estão em quarentena.

Como seria de se esperar dado o treinamento para logística em emergências, forças militares estão sendo usadas em todo o mundo no combate à crise.

No Brasil, o Ministério da Defesa ativou dez centros regionais de comando interligado para dar racionalidade a ações como distribuição de remédios e equipamentos.

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