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Coronavírus

No sul global, cidades formam última linha de defesa contra Covid-19

Saúde primária é responsabilidade dos municípios em grande parte dos países em desenvolvimento

Robert Muggah Miguel Lago

Enquanto a primeira onda da pandemia do coronavírus recua na Europa Ocidental, no leste da Ásia e na América do Norte, ela começa a ganhar velocidade na América Latina, na África e no sul da Ásia.

Os países nessas regiões de média e baixa renda manifestam números crescentes de contágios, hospitalizações e óbitos, e é possível que, devido à baixa taxa de testes, esses números sejam ainda maiores.

O impacto da Covid-19 será uma consequência não somente do nível de preparação nacional, mas do preparo de estados e municípios para lidar com a crise. Os próximos passos tomados por cidades no Brasil, na Nigéria e na Índia definirão tanto a saúde de seus cidadãos quanto o futuro de suas economias.

Suspeito de ter sido infectado pelo coronavírus realiza exame na Universidade de Maiduguri, na Nigéria
Suspeito de ter sido infectado pelo coronavírus realiza exame na Universidade de Maiduguri, na Nigéria - Audu Marte - 10.mai.20/AFP

Pobres ou ricas, todas as cidades enfrentarão os desafios trazidos pela Covid-19 e sua tendência a dizimar bairros carentes.

Na maioria das cidades, faltam kits de testagem, material de proteção pessoal e equipamentos médicos adequados; hospitais, clínicas e UTIs, quando existem, são limitados e mal distribuídos.

As cidades do mundo em desenvolvimento enfrentam uma tripla ameaça: a falta de recursos de saúde, as gritantes desigualdades socioeconômicas e os elevados níveis de informalidade que dificultam, se não impossibilitam, políticas de distanciamento social, autoisolamento e quarentena.

Frente a taxas crescentes de mortalidade e a uma crise econômica monumental, governos estaduais e municipais de renda média e baixa devem urgentemente escolher o caminho correto para suas políticas de saúde.

Investimentos precisam ter precisão cirúrgica, ser implementados de maneira rigorosa e econômica, considerando que a maioria dos municípios enfrenta uma queda de arrecadação e um aumento dos gastos.

A saúde primária preenche todos esses requisitos e é certamente o meio mais eficiente e econômico de conter a propagação da pandemia de Covid-19.

As cidades oferecem como vantagem a possibilidade de executar intervenções em grande escala. A América Latina apresenta uma das maiores concentrações de populações urbanas no mundo, com mais de 80% da população vivendo em cidades.

As aglomerações urbanas latino-americanas estão entre as mais desiguais, com cerca de 25% da população urbana da região —mais de 160 milhões de pessoas— vivendo em comunidades densamente povoadas e de baixa renda.

Contudo, a saúde primária é responsabilidade dos municípios na maioria dos países da região e em grande parte dos países em desenvolvimento.

Isso significa que as cidades têm acesso a vastos recursos de saúde, principalmente agentes comunitários, que podem ajudar a suprir a falta de equipamentos, bem como a menor qualidade e disponibilidade dos centros de saúde.

Vejamos o exemplo dos agentes comunitários de saúde (ACS) atuando pela Estratégia Saúde da Família, no Brasil. Eles geralmente são mais bem recebidos, com mais confiança que outros agentes públicos nas comunidades onde operam.

A confiança é fundamental para a divulgação de campanhas de saúde e para convencer cidadãos a aderir a recomendações ou diretrizes de saúde pública.

Os ACS se encontram geralmente em melhor posição para realizar visitas a pacientes em áreas de difícil acesso, inclusive em comunidades informais onde outros servidores do Estado não podem entrar.

Os ACS, ainda, estão bem posicionados para lutar contra campanhas de desinformação ou fake news disseminadas rapidamente pelas mídias sociais ou por outras mídias —precisamente porque mantêm relações próximas e de confiança com os residentes atendidos, suas palavras podem ser mais convincentes do que mensagens enviadas por rádio ou pelo WhatsApp.

No Brasil, e em diversos outros países em desenvolvimento, agentes comunitários detêm conhecimentos especializados sobre os bairros onde prestam serviços. Isso significa que estão em uma posição ideal para levar a essas populações campanhas de saúde adaptadas para suas realidades locais.

Geralmente, esses agentes servem como “olhos e ouvidos” do sistema de saúde municipal, recolhendo informações acerca dos sintomas, realizam triagem para testes em moradores e organizam campanhas de identificação de contatos ("contact-tracing") quando necessário.

Isso ajuda não somente a aumentar a precisão de medidas de testagem e isolamento, como também a reduzir as pressões impostas a hospitais e outros serviços de saúde.

Os municípios podem, devem e geralmente fazem uso de seus vastos reservatórios de dados sobre a saúde, demografia e economia para orientar suas políticas de saúde; isso inclui mapear áreas particularmente vulneráveis, especialmente bairros e comunidades com alta densidade de pessoas idosas, imigrantes, sem-teto, usuários de drogas, e trabalhadores informais.

Muitas pessoas em situações de vulnerabilidade simplesmente não têm a opção de praticar o autoisolamento e consequentemente estão mais expostas à infecção e à evolução severa da doença.

É essencial que a alocação de recursos seja direcionada às áreas mais atingidas pelo vírus, com populações mais vulneráveis, e que ela seja intensificada, com vistas a reduzir o número de óbitos.

Assim, autoridades urbanas podem evitar custosas campanhas generalizadas de quarentena e isolamento que produzem descontentamento social e desgastam a confiança da população nas instituições públicas.

Em suma, as cidades representam a linha de frente —e o último bastião— na luta contra esta pandemia, mas também contra as que virão no futuro.

Em muitos casos, elas podem mobilizar dados e disponibilizar recursos físicos e humanos, agentes comunitários de saúde em primeiro lugar, que podem significar a diferença entre a vida e a morte.

É necessário que tomadores de decisões façam bom uso dos recursos municipais para otimizar suas políticas de luta contra o vírus. Assim, poderão reduzir as demandas sobre hospitais e UTIs, economizando recursos escassos, mas principalmente salvando vidas.

Robert Muggah é diretor de pesquisa do Instituto Igarapé Miguel Lago é diretor-executivo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde    

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