Descrição de chapéu

Trump escolhe símbolo da aproximação com a China para atacar Pequim

Houston foi palco da fotografia mais famosa da visita de Deng Xiaoping aos EUA, em 1979

São Paulo

Do ponto de vista simbólico, o governo de Donald Trump não poderia ter sido mais incisivo em sua decisão de fechar o consulado chinês em Houston.

Um capítulo importante da história da aproximação entre China e EUA passou pela maior cidade do Texas, em janeiro de 1979.

O líder chinês Deng Xiaoping coloca chapéu de caubói em visita a Houston, em 1979
O líder chinês Deng Xiaoping coloca chapéu de caubói em visita a Houston, em 1979 - Brent Frerck - 2.fev.1979/Reuters

Em dezembro de 1978, após anos de conversas iniciadas em 1972 pelo presidente Richard Nixon (1913-1994) e o fundador da China comunista, Mao Tsé-Tung (1893-1976), os dois países enfim acertaram os termos de reconhecimento diplomático mútuo.

Ele começou a valer em 1979, e em 29 de janeiro uma comitiva chinesa liderada por Deng Xiaoping desembarcou pela primeira vez de forma oficial nos EUA desde a revolução comunista de 1949.

Deng (1904-1997) foi o líder que executou a transição que transformou o atrasado país maoísta na segunda economia do mundo, baseada na combinação de capitalismo de Estado e ditadura comunista, regendo sobre abundante mão de obra barata.

A visita naturalmente começou por Washington e, por sete dias, correu outras quatro cidades, mas o seu símbolo máximo ocorreu em Houston, quando Deng e auxiliares vestiram chapéus stetson, típicos dos caubóis americanos, após visitar um rodeio em Simonton, na área metropolitana.

A imagem viralizou, embora obviamente naquela época o termo só se referia a patógenos. Jornais e TVs americanas se encantaram com a empatia do gesto.

Num daqueles "e se" da história, a visita seria lembrada por outro motivo. Durante um evento em Houston, um membro texano do grupo supremacista branco Ku Klux Klan tentou matar Deng, mas foi contido por agentes do serviço secreto antes de tentar esfaqueá-lo.

Houston sediou o primeiro consulado chinês no país, e agora parece destinada a marcar uma inflexão na história diplomática das potências, altamente atribulada desde que Trump assumiu o governo em 2017 e Xi Jinping entronizou-se como um líder personalista, em 2018.

Embaixadas e consulados de países relevantes são centros de coleta de informação, quando não espionagem pura e simples, no mundo todo. Usualmente, oficiais políticos, culturais e de defesa são responsáveis pelo serviço —se não são apenas agentes disfarçados.

É assim que agem a China, os EUA, a Rússia e qualquer país com pretensões estratégicas. A regra tácita internacional vigente é de que não se expulsa um diplomata, exceto em caso grave de comprovação de espionagem ou outros crimes.

As acusações em Houston até aqui parecem bastante genéricas, enquadrando a ação em outra categoria, a de retaliação política. As periódicas expulsões de diplomatas russos e ocidentais de seus respectivos países anfitriões, uma prática que data da Guerra Fria, muitas vezes passam só por isso.

Foi o que aconteceu com o canadense Mark Opgenorth no fim de 2009. Ele trabalhava na representação da Otan (aliança militar ocidental) em Moscou e um dia foi avisado pelo chefe de que deveria ir embora.

Sua culpa? Após a guerra entre Rússia e Geórgia em 2008, as suspeitas de infiltração fizeram a Otan expulsar dois diplomatas russos de Bruxelas. Alguns meses depois, a conta veio. "Eu e uma colega tivemos de sair. Mas nunca fomos acusados formalmente de nada", contou o diplomata.

O próprio Trump já havia fechado um consulado russo, em San Francisco, há três anos. Ali havia a proporcionalidade também, já que o Kremlin havia mandado cortar à metade o número de funcionários da embaixada americana em Moscou. Jogo jogado.

Já o episódio de 2018 entre Moscou e Londres, quando o Reino Unido acusou o governo de Vladimir Putin de envenenar um ex-espião russo e sua filha na Inglaterra, reverbera até hoje nas relações entre os países.

O episódio atual se insere na disputa entre Pequim e Washington, que está ficando mais acirrada o quão pior Trump está na corrida para tentar se reeleger em novembro, mas que também espelha uma dinâmica geopolítica e econômica que muitos veem fadada ao embate.

Ele compreende uma linha do tempo que vai da aproximação simbolizada por Deng e seu chapéu de caubói e agora encarna a insólita cena dos bombeiros querendo apagar um suposto incêndio de documentos secretos chineses em Houston.

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