Não sei por que a família Bolsonaro se preocupa tanto comigo, diz presidente argentino

Alberto Fernández respondeu a críticas feitas por Eduardo Bolsonaro contra seu governo

Buenos Aires

O presidente argentino, Alberto Fernández, afirmou em uma entrevista a uma emissora local na noite desta quarta-feira (2) que não sabe por que "a família Bolsonaro está tão preocupada" com ele.

A declaração foi uma resposta a tuítes recentes do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Horas mais cedo, o filho do presidente brasileiro afirmara, por meio das redes sociais, que o que estava acontecendo na Argentina devido à longa quarentena era uma "calamidade" e que o país tinha sido "destruído por seu governo socialista em poucos meses".

O presidente argentino, Alberto Fernández, responde a perguntas durante entrevista coletiva - Juan Mabromata - 12.ago.2020/AFP

Não é a primeira vez que Eduardo faz críticas ao governo Fernández. No último dia 22, quando a Argentina declarou que a telefonia celular e os serviços de internet eram de interesse nacional e, por conta disso, não poderiam ter suas tarifas aumentadas até 31 de dezembro, Eduardo fez diversas postagens para afirmar que a Argentina estava se transformando numa "nova Venezuela".

​"A Argentina de Fernández e Kirchner está tomando medidas semelhantes às da Venezuela de Chávez e de Maduro."

Devido ao caso, o deputado deverá se reunir em Brasília com o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Scioli, na próxima semana para debater a questão.

"Percebi que seria melhor conversar pessoalmente sobre isso com ele", disse Scioli à Folha ao confirmar o encontro.

Na entrevista realizada na residência de Olivos, Fernández afirmou que a relação do Brasil com a Argentina "é indissolúvel", mas que não conhece os Bolsonaros e só estava falando do presidente brasileiro porque "vocês [os jornalistas] estão me perguntando".

"A família Bolsonaro está muito preocupada comigo e com a Argentina, não sei, creio que vocês teriam de perguntar a razão à família Bolsonaro", disse o mandatário.

No final da tarde desta quinta (3), Eduardo Bolsonaro voltou a comentar a situação na Argentina nas redes sociais. Reproduzindo a frase de Fernández, o deputado afirmou: "Nossos vizinhos fazem parte da nossa vida e torcemos pelo seu melhor. Simpatia com ditaduras e como conduzem a economia causam preocupação. A Venezuela com políticas socialistas levou a uma narcoditadura e consequente maior crise migratória da história da América Latina".

Ele enviou ainda uma mensagem ao "povo argentino": "Somos irmãos e saibam que o Brasil está do seu lado, lutando contra tiranos e agindo sempre pela liberdade".

Em quase nove meses de governo, Alberto Fernández não manteve nenhum diálogo com Jair Bolsonaro —o presidente brasileiro não esteve em sua posse e não telefonou para cumprimentá-lo.

Durante a campanha eleitoral argentina, Bolsonaro apoiou a reeleição do então presidente Mauricio Macri abertamente e afirmou que "se a turma da Cristina Kirchner, que é a mesma do Maduro, ganhar na Argentina, vamos ter no Rio Grande do Sul uma nova Roraima, com irmãos argentinos imigrando para cá".

Fernández —que tem a ex-presidente Cristina Kirchner, como vice— venceu o pleito no primeiro turno.

Antes de ser eleito, o argentino chegou a responder ao brasileiro de modo duro. Ele afirmou que os ataques de "um misógino e um violento", como classificou Bolsonaro, deveriam ser celebrados. Em mais de uma ocasião, ainda, defendeu a liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e chegou a visitá-lo na prisão.

Depois de eleito, Fernández deixou de fazer críticas abertas a Bolsonaro, mas não se interessou por cultivar a relação.

Demorou mais de seis meses, por exemplo, para que Scioli finalmente viajasse para se instalar em Brasília e realizasse uma reunião com o presidente brasileiro —o encontro aconteceu há poucos dias.

Indagado recentemente pela Folha sobre a razão da falta de diálogo entre os dois países, o chanceler argentino, Felipe Solá, disse que não havia "clima político para um encontro entre os dois", devido ao modo completamente diferente como Brasil e Argentina estavam lidando com a pandemia.

"Aqui estamos priorizando a vida, a saúde", disse Solá.

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