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O populismo converte o político em pai da pátria

Enquanto Equador e EUA se esvaem com a epidemia e a crise econômica, Correas e Trumps propiciam circo, mas não pão

Carlos de la Torre

Professor e diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade da Flórida, Gainesville, é especializado em populismo, democratização e autoritarismo. Seus últimos livros são "O Routledge Reader of Global Populism" (2019) e "Populisms a Quick Immersion" (2019).

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O populismo converte o político em pai da pátria. Basta lembrar que Getúlio Vargas disse ser o pai dos pobres, e o mexicano Lázaro Cardenas era conhecido como “Tata” (papai).

Os populistas também afirmam encarnar a verdadeira masculinidade popular. Alguns, como Donald Trump e Abdalá Bucaram, falam do tamanho de sua genitália e de suas proezas eróticas. Outros não são tão vulgares, mas para demonstrar sua hombridade desafiam os rivais a enfrentá-los com os punhos.

Durante seus dez anos no poder, Rafael Correa, que tem um doutorado e às vezes fala em tom professoral, desafiou jornalistas, políticos e cidadãos comuns a trocar socos com ele. Ao mesmo tempo em que constroem o líder como macho alfa, os populistas feminizam os inimigos do povo, representando a oligarquia como pouco masculina.

Ainda assim, a imagem que mais lhes agrada projetar é a de patriarcas do povo e da nação. Quando são ex-militares, como Juan Perón, Hugo Chávez ou Jair Bolsonaro, isso lhes facilita fingir ser a encarnação da nação, pois as Forças Armadas se autoproclamam há muitos anos como verdadeiras protetoras da nação contra inimigos internos e externos.

Às vezes os populismos criam dinastias. A família Bucaram por muitos anos foi dona da Prefeitura de Guayaquil (Assad, Abdalá e Elsa), e o Partido Republicano agora está sob o controle da família Trump. A convenção do partido consistiu de um desfile de modelitos e discursos pelos filhos do presidente, Don Jr., Ivanka, Eric e Tiffany, reconvertidos de empresários em políticos de ultradireita.

Seus discursos tiveram por centro a figura e os sucessos de seu pai, e eles competiram para se provar os mais radicais em suas propostas de lei e ordem e em sua oposição aos imigrantes.

Melania e as mulheres de Don Jr. e Eric também discursaram, e o encerramento da convenção combinou fogos de artifício à palavra Trump escrita no céu, enquanto em terra as câmeras focalizavam a dinastia que pretende dominar a política americana por ainda muitos anos.

Como na série “Sucession”, da HBO, em que irmãos lutam para herdar a fortuna familiar, os filhos de Trump estavam em disputa pela posição de próximo portador da marca Trump.

O presidente dos EUA, Donald Trump, na convenção nacional do Partido Republicano, em Arlington (Virginia); ele tentará a reeleição neste ano
O presidente dos EUA, Donald Trump, na convenção nacional do Partido Republicano, em Arlington (Virginia); ele tentará a reeleição neste ano - Liu Jie - 29.ago.2020/Xinhua

A família Correa Delgado é a nova estirpe política do Equador. Embora Rafael Correa esteja foragido da Justiça na Bélgica, e por isso não tenha podido inscrever sua candidatura a vice-presidente, a família está bem representada por seus irmãos Pierina e Fabricio.

A primeira encabeça a lista de candidatos de Rafael à Assembleia Nacional, e Fabricio é candidato à Presidência como empreendedor católico e anticomunista. Ainda que compartilhe da formação católica do irmão, é mais veemente em sua oposição ao feminismo, aos direitos LGBTQ e à erosão da moral católica, que ele decerto crê ser a única verdadeira, imagino.

Diferentemente do irmão mais novo, que vivia de dar aulas e prestar consultoria antes de chegar ao poder, o irmão mais velho é empresário. Promete que, diferentemente do irmão, que se deixou corromper e enganar por um círculo rosa (ou seja, de homossexuais), ele, Fabricio, tem a masculinidade de um verdadeiro homem, que não se deixa manipular por pervertidos.

Ele não só é beneficiado pela marca dos Correas, que domina a política equatoriana desde 2006, quando Rafael deixou a academia pela política, como sabe satisfazer a voracidade da mídia, que vende mais quando há escândalos e brigas familiares.

Quando seu irmão era presidente, Fabricio fez negócios com o Estado equatoriano em valor de US$ 700 milhões. Irrompeu na esfera pública atacando o irmão por estar rodeado de corruptos e comunistas.

Fabricio, o outsider de direita, pretende aproveitar o ódio de diversos setores da população à esquerda e ao que ele define como legado “comunista” de Rafael. Além disso, buscará o apoio dos setores reacionários que são contra a descriminalização do aborto, o matrimônio igualitário e aquilo que veem como perda da moral católica.

Ao que parece, a estrela-guia do irmão mais novo era o socialismo do século 21 de Hugo Chávez, enquanto o mais velho prefere Jair Bolsonaro e Donald Trump.

O ex-presidente do Equador, Rafael Correa, gesticula durante entrevista em Bruxelas (Bélgica)
O ex-presidente do Equador, Rafael Correa, concede entrevista em Bruxelas (Bélgica) - Francois Lenoir - 8.out.2019/Reuters

Fabricio é irreverente, usa a linguagem cotidiana, e imagino que, como Rafael, não leia romances. Apresenta-se como o patriarca que redimirá sua pátria. Tem a energia que falta ao candidato da direita estabelecida, Guillermo Lasso.

É cedo demais para prever se os equatorianos confiariam o país a um Correa de direita, mas a mídia com certeza devorou alegremente a controvérsia gerada pela família Correa.

Caso Fabricio queira vencer, precisa atacar o legado de seu irmão. Mas ainda assim há cínicos que acreditam que isso tudo seja puro teatro e que, caso Fabricio chegue ao poder, a primeira coisa que faria seria conceder um indulto ao seu irmão menor.

Parece que, na era de Trump, qualquer ricaço pode aspirar à Presidência se dispuser dos recursos e da audácia necessários para criar uma boa presença na mídia.

Enquanto o Equador e os Estados Unidos se esvaem com a epidemia e a crise econômica, os Correas e os Trumps propiciam circo, mas não pão.

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Tradução de Paulo Migliacci

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