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Presidente de Portugal se reelege; populista fica em 3º

Em pleito com alta abstenção, Marcelo Rebelo de Sousa confirma favoritismo

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Lisboa

Em um pleito marcado pelo alto nível de abstenção, Marcelo Rebelo de Sousa, 72, foi reeleito presidente de Portugal neste domingo (24), com cerca de 61% dos votos válidos. O resultado garantiu ao atual chefe de Estado, já em primeiro turno, mais cinco anos no Palácio de Belém.

Portugal é um regime parlamentarista, onde o governo está nas mãos do primeiro-ministro. O presidente tem uma função mais institucional, sendo o chefe de Estado. Embora não governe, o presidente tem alguns poderes estratégicos, como a possibilidade de vetar leis e de dissolver o Parlamento.

Com níveis de popularidade superiores a 70% durante a maior parte do mandato, a recondução de Rebelo de Sousa já era dada como certa, sendo a acirrada disputa pelo segundo lugar a verdadeira incógnita do pleito.

Presidente reeleito de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa fala para a imprensa após o anúncio do resultado das eleições, em Lisboa - Pedro Nunes -24.jan.2021/Reuters

Ex-diplomata e militante histórica do Partido Socialista (PS), a candidata Ana Gomes, 66, levou a melhor sobre o deputado André Ventura, 38, líder do partido de direita radical Chega.

Em uma vitória apertada, que começou com Ventura na liderança no começo da apuração, a ex-deputada europeia teve cerca de 12,8% dos votos, enquanto o parlamentar garantiu o apoio de 11,9%.

A vice-liderança nas eleições presidenciais havia sido estabelecida como prioridade para André Ventura, que chegou a prometer, durante a campanha, que se demitiria da liderança do partido caso terminasse a corrida eleitoral atrás da socialista.

Após conhecer o resultado final do pleito, ele afirmou que “devolveria a decisão” sobre o assunto aos militantes do partido, que tem uma plataforma de propostas polêmicas, como a castração química de pedófilos e a adoção da prisão perpétua.

Embora aquém das expectativas de seu líder, a terceira colocação atingida pelo Chega —formalizado há menos de dois anos, mas que em 2019 já havia garantido, justamente com Ventura, um lugar no Parlamento— já dá sinais do crescimento do alcance da direita radical no país.

E foi justamente em clima de vitória —com direito a trilha sonora dramática ao fundo— que ele discursou para seus apoiadores.

“Esta é uma noite histórica, em que a direita em Portugal se reconfigurou completamente. Pela primeira vez um partido declaradamente antissistema rompeu o espectro da direita tradicional”, afirmou.

Ventura, que atraiu apoio de “estrelas” da extrema-direita europeia, como Marine Le Pen e Matteo Salvini, aproveitou para criticar Ana Gomes, que afirmou representar “o pior de Portugal, a esquerda mais medíocre e mais colada àqueles que têm destruído” o país. O candidato terminou em tom profético: “Não haverá governo em Portugal sem nós, sem o Chega”.

Em várias regiões de Portugal, incluindo tradicionais redutos do Partido Comunista, como o Alentejo, André Ventura ficou na vice-liderança. O candidato também acabou a noite em segundo lugar entre os portugueses no Brasil, com 10,4% dos votos.

Embora Ana Gomes seja militante histórica do Partido Socialista, o mesmo do primeiro-ministro, António Costa, a candidata, que acumulou críticas ao atual governo, concorreu como independente.

O premiê, mesmo sem ter apoiado formalmente a reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa, deu várias declarações em que deixava explícita sua preferência pelo atual presidente.

Apesar de ser abertamente de centro-direita e de já ter ocupado a liderança do maior partido da oposição, o PSD (Partido Social-Democrata), o jurista abocanhou uma parte consistente dos votos da esquerda.

Os socialistas foram rápidos em felicitar a vitória de Rebelo de Sousa, alfinetando o resultado final do Chega.

“É uma boa notícia para a confirmação do regime democrático, uma boa notícia para a derrota do extremismo de direita, uma boa notícia de valorização da estabilidade política”, afirmou o presidente do PS, Carlos César.

Com candidaturas fragmentadas em três candidatos, e com Rebelo de Sousa atraindo parte deste eleitorado, a esquerda teve um de seus piores resultados.

A candidata do Bloco de Esquerda, Marisa Matias, que no pleito de 2016 havia conquistado 10% dos votos e ficado em terceiro lugar, teve agora apenas 3,9% dos eleitores, terminando na quinta colocação.

Ela ficou atrás do candidato do PCP (Partido Comunista Português), o eurodeputado João Ferreira, que conquistou cerca de 4,2% dos votos.

“Acho que à esquerda, com três excelentes candidatos, todos foram derrotados”, avaliou Francisco Louçã, ex-líder do Bloco de Esquerda.

“Houve quatro candidatos da esquerda nas últimas eleições presidenciais, que tiveram cerca de 40% juntos. Há três desta vez, menos dispersão, que têm cerca de 25% juntos, porque Marcelo Rebelo de Sousa entrou em todos estes eleitorados, com intensidades diferentes, naturalmente muito mais no PS, mas também nos outros, e polarizou essa votação”, completou.

Grande vencedor da noite, Marcelo Rebelo de Sousa adotou um tom conciliador em seu discurso, lembrou as vítimas da Covid-19 e defendeu a “construção de pontes” no país. “Quem recebe o mandato tem de continuar a ser um presidente de todos e de cada um dos portugueses.”

Realizado no pior momento da pandemia, com o país em pleno “lockdown” e com um novo máximo diário de mortes neste domingo (275 pessoas), o pleito teve cerca de 60% de abstenção.

O resultado, porém, ficou abaixo dos cenários mais pessimistas, que viam a possibilidade de até 70% dos eleitores não comparecerem.

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