Crítica contumaz de Bolsonaro deve ser a enviada dos EUA à posse de Lula

Deb Haaland é secretária do Interior e liderou resoluções contra política ambiental do governo bolsonarista

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São Paulo

A Casa Branca deve enviar a secretária do Interior, Deb Haaland –uma crítica contumaz do governo Bolsonaro— para ser a representante do governo americano na posse do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 1º de janeiro.

Havia uma expectativa de que os EUA enviassem a vice-presidente Kamala Harris para a cerimônia, como um sinal de prestígio. Washington vem fazendo muitos gestos de aproximação com o novo governo, inclusive com a visita do assessor de segurança nacional, Jake Sullivan, a Lula no início do mês.

Mas, segundo fontes diplomáticas, a escalação de Haaland tem forte valor simbólico. Ela é a primeira indígena a ser secretária (equivalente a ministra) nos EUA e tem papel central na implementação da agenda ambiental e climática do presidente Joe Biden.

Deb Haaland, secretária do Interior dos EUA, durantee evento na Casa Branca, em 30 de novembro de 2022. - Roberto Schmidt - 30.nov.22/AFP

Como deputada da ala mais à esquerda do Partido Democrata, Haaland foi uma das maiores críticas do governo Bolsonaro e liderou diversas resoluções e cartas no Congresso americano pressionando a Casa Branca a não assinar acordos com o líder brasileiro.

Ela participou ou liderou resoluções pedindo que os EUA cancelassem a designação do Brasil como aliado preferencial extra-Otan, concedida durante o governo Trump, e suspendesse todo o apoio militar americano ao governo brasileiro, "a não ser que o Departamento de Estado se certifique formalmente de que medidas efetivas estejam sendo tomadas para evitar mortes injustificadas promovidas por agentes de segurança brasileiros, para investigar e judicializar mortes de ativistas e para cumprir com normas internacionais de direitos humanos".

Nas vésperas da visita de Bolsonaro a Trump na Casa Branca, em março de 2019, Haaland publicou no Washington Post um artigo de opinião com a então deputada Joenia Wapichana (Rede-RR) dizendo que Bolsonaro e Trump eram ameaças ao meio ambiente e às terras indígenas.

Em outubro de 2020, Haaland e outros três congressistas divulgaram uma carta contra o Acordo de Proteção de Tecnologia, assinado por Bolsonaro e Trump em 2019, que prevê o uso da base de Alcântara, no Maranhão, pelos EUA.

O texto pedia que o governo americano não participasse de projetos que colocassem comunidades quilombolas brasileiras sob risco de "ataques racistas e desapropriações".

E ela, ainda quando era deputada, conseguiu aprovar uma emenda ao orçamento de Defesa para obrigar o governo Trump a fazer um relatório sobre direitos humanos no Brasil —a medida foi sancionada pelo republicano.

"Queremos que os EUA aumentem o escrutínio em relação ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil, especialmente nas violações contra indígenas e afro-brasileiros", disse a deputada à Folha em maio de 2019.

Em 2020, Haaland também esteve entre os 22 deputados democratas que assinaram uma carta de solidariedade à deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), com críticas às políticas "antidemocráticas e xenófobas" de Bolsonaro.

O nome e escalão da escolhida por Biden para representar os EUA na posse de Lula serão examinados com lupa, em busca de sinalizações sobre a importância dada pelos americanos à relação com o Brasil.

Em 2015, o então presidente Barack Obama enviou o próprio Biden, à época seu vice, para representar o governo americano na posse de Dilma Rousseff. Na ocasião a Casa Branca avaliou que seria importante enviar o vice-presidente por ser um momento em que as relações entre Brasil e EUAs ainda passavam por sérias turbulências.

No fim de 2013, havia estourado o escândalo da NSA, com vazamentos revelando que a agência de segurança nacional americana havia espionado Dilma e a Petrobras. Isso levou a presidente brasileira a cancelar a visita de Estado que faria aos EUA em outubro de 2013.

Na posse de Bolsonaro, os EUA enviaram o secretário de Estado Mike Pompeo –e já haviam mandado o então assessor de Segurança Nacional, John Bolton, para se reunir com o brasileiro antes da posse.

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