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Conchavo de elite

Funcionalismo do estado e da cidade de São Paulo conquistou novos e descabidos privilégios

Prédio da Assembleia Legislativa de São Paulo - Fabio Braga/Folhapress

Enquanto o país enfrentava os transtornos provocados pela paralisação dos caminhoneiros, as corporações do serviço público tratavam com diligência de seus interesses. No estado e na capital de São Paulo, o funcionalismo conquistou novos e descabidos privilégios.

A Assembleia Legislativa aprovou em segundo turno uma emenda constitucional que eleva o teto de vencimentos dos servidores paulistas de R$ 21 mil para R$ 30 mil. Em vez do salário do governador, equipara-se o vencimento máximo ao dos desembargadores estaduais.

Calcula-se que o impacto da medida vá ser crescente, atingindo quase R$ 1 bilhão anual a partir do quarto ano de vigência. Beneficia-se uma elite de 5.000 funcionários, de um total de 700 mil.

Dos 72 parlamentares presentes na votação, 67 foram favoráveis, numa mostra de amplo apoio partidário que abarcou também o PSDB --13 de seus 19 deputados votaram pelo aumento.

A votação da proposta estava travada desde o ano passado, por objeção do governo estadual. Desde que Marcio França (PSB) assumiu o Bandeirantes, contudo, as barreiras foram caindo. A votação em primeiro turno ocorreu em abril, mês da troca de guarda.

O outro caso nefasto foi a aprovação pela Câmara Municipal paulistana, por 32 votos a 8, de um generoso pacote de benefícios, ao custo de R$ 44 milhões ao ano.

São auxílios para alimentação (de R$ 573 mensais, em adição aos R$ 48 diários já pagos) e saúde (até R$ 1.079 mensais), além de bônus de até R$ 16 mil para os funcionários mais bem pagos.

O episódio se revestiu de aspectos ainda mais reprováveis quando vários parlamentares, alarmados pela repercussão negativa, declararam ter votado sem saber do que se tratava. Segundo o vereador Caio Miranda (PSB), crítico do projeto, essa prática faria parte da "cultura legislativa".

Sabe-se que a ação predatória do corporativismo tem mais chance de sucesso em anos de eleição, quando os políticos buscam distribuir benesses mais visíveis.

Mais espantoso, contudo, é considerar que favorecer os setores mais privilegiados do funcionalismo possa se confundir com uma agenda verdadeiramente popular.

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