Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Militares do Planalto atuam para amenizar ruídos entre Mourão e Bolsonaro

Apesar de investida, Carlos continua a atacar vice, e presidente diz que sempre estará ao lado do filho

Brasília e São Paulo

Militares que trabalham no Palácio do Planalto coordenam uma estratégia para tentar amenizar a pauta negativa gerada pelo desconforto da família do presidente Jair Bolsonaro com o vice, Hamilton Mourão.

Os generais Augusto Heleno, do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), e Otávio Rêgo Barros, porta-voz da Presidência, mantêm postura de discrição para não melindrar Bolsonaro, ao mesmo tempo em que, nos bastidores, atuam, eles próprios e suas equipes, para evitar ruídos.

Mourão e Bolsonaro participam de hasteamento da bandeira, em Brasília
Mourão e Bolsonaro participam de hasteamento da bandeira, em Brasília - Sergio Lima - 23.abr.2019/AFP

Na avaliação interna das pastas, os constantes contrapontos de Mourão a Bolsonaro nos mais diversos assuntos e a reação do presidente de não frear especulações sobre os interesses do vice azedaram o clima.

O estafe militar do Planalto trabalha para integrar as estruturas de comunicação da Vice e da Presidência, hoje apartadas, em uma tentativa de evitar o que consideram mal-entendidos.

Avalia-se que Mourão, desde a transição, cometeu alguns excessos, não exatamente por emitir sua opinião, que é um traço de sua personalidade, mas por insistir na visibilidade em momentos que requeriam o contrário.

A postura fez interlocutores frequentes de Mourão, como o general Heleno, recomendarem mais discrição ao vice. Outros como o general Santos Cruz, ministro da Secretaria de Governo, aconselharam Bolsonaro a não dar espaço para pautas negativas.

As novas e mais incisivas críticas a Mourão vindas de Carlos Bolsonaro, filho do presidente e vereador pelo PSC-RJ, reabriram a crise que o núcleo militar do governo via como ultrapassada na noite de segunda-feira (22).

O problema, apontam generais que atuam como bombeiros no episódio, é que Jair Bolsonaro se recusou a incluir o filho na leve reprimenda que fez ao escritor Olavo de Carvalho —o guru da ala que se diz ideológica do bolsonarismo— pelo vídeo em que Mourão e os militares são criticados.

"De uma vez por todas o presidente gostaria de deixar claro o seguinte: quanto a seus filhos, em particular o Carlos, o presidente enfatiza que ele sempre estará a seu lado. O filho foi um dos grandes responsáveis pela vitória nas urnas, contra tudo e contra todos", afirmou Rêgo Barros nesta terça-feira (23).

Ao falar sobre Carlos, segundo o porta-voz, Bolsonaro disse que ele "é sangue do meu sangue".

O presidente fez um afago a Mourão dizendo que ele é o subcomandante do governo e que topou o desafio das eleições, acrescentando que o vice tem dele "consideração e apreço".

O vídeo que deflagrou o novo episódio da crise foi postado no canal do YouTube de Bolsonaro durante o fim de semana, só sendo retirado no fim do domingo. Carlos também o repostou. Os militares, especialmente os da ativa, enxergaram nos fatos um recado à movimentação política fluida de Mourão, que a família de Bolsonaro vê como interessado em derrubar o presidente.

Segundo integrantes do governo ouvidos pela Folha, o presidente também manteve inalterado o acesso de Carlos às suas redes sociais.

Militares do Planalto comemoraram o que julgam uma mudança de tom de Bolsonaro no Twitter, sem criar polêmicas na rede nos últimos dias.

Mas o Facebook e o YouTube ainda são canais em que o filho reina quase sozinho.

Nesta terça-feira, em suas contas pessoais, Carlos voltou à carga contra Mourão, somando-se aos esforços de Olavo de Carvalho e Filipe Martins, assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, de descredibilizar o vice.

"Esse jogo está muito claro", escreveu Carlos ao publicar o teor do convite elogioso aceito pelo vice para palestrar no Wilson Center, nos Estados Unidos, duas semanas atrás.

"Se não visse [o convite], não acreditaria que [Mourão] aceitou com tais termos", disse o vereador.

O convite, de 9 de abril, apontava o vice como "uma voz de razão e moderação, capaz de orientar a direção em assuntos nacionais e internacionais".

Em uma terceira postagem no dia sobre o vice, Carlos afirmou que, após o pai ser esfaqueado em plena campanha eleitoral em Minas, "o tal de Mourão disse que aquilo tudo era vitimização".

O vice evitou rebater as críticas. "Todo mundo emite a sua opinião, tal e coisa. A minha mãe sempre dizia uma coisa: 'Quando um não quer, dois não brigam'. Está certo? Então, essa é a minha linha de ação. Vamos manter a calma", disse.

O general da reserva afirmou que Bolsonaro tem a sua "forma de pensar" sobre o assunto. "O presidente é o presidente, né? Aguarda, né? Filho é filho", concluiu.

Para oficiais generais que buscam apaziguar a explosiva crise interna, a saída ideal seria o presidente declarar que o filho tem direito à sua opinião, mas que ela não reflete o que pensa o pai.

Mas a nota lida na segunda pelo porta-voz, Otávio do Rêgo Barros, apenas tratou de dizer que Olavo, elogiado como patriota, talvez atrapalhasse o governo com suas declarações.

Bolsonaro foi intransigente, lembrando o que já disse em público: que considera Carlos um dos principais responsáveis por sua eleição, ao comandar sua estratégia digital, e que o filho mereceria uma cadeira no ministério.

Mourão tem agido com cautela no episódio. Tratou de criticar Olavo, mas não Carlos, publicamente. No fim de semana, falou ao telefone sobre amenidades com o presidente e, na manhã desta terça, participou ao lado dele de reunião ministerial no Palácio do Planalto.

No encontro, ninguém tocou no episódio. Bolsonaro apenas pediu genericamente alinhamento de discurso entre as várias instâncias do governo, agindo mais como animador de torcida em um dia crucial para a área econômica, com a votação da admissibilidade da reforma da Previdência na Câmara.

Thais Bilenky , Igor Gielow , Talita Fernandes e Gustavo Uribe
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