Novos livros discutem o sonho da República que acabou em 'rascunho'

Principal lançamento nos 130 anos do regime é 'Dicionário da República', com 51 textos críticos

São Paulo

“Entramos no século 21 como um rascunho de República. No seu traço mais simples, que é a gestão do bem comum, a República no Brasil ainda é um esboço”, afirma Heloisa Murgel Starling, historiadora e professora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Em parceria com a antropóloga e também historiadora Lilia Moritz Schwarcz, Starling organizou “Dicionário da República”, o principal título entre os bons lançamentos editoriais em torno dos 130 anos da República. 

O livro lança reflexões sobre a questão republicana a partir de diversos ângulos, expostos em 51 textos críticos. 

Como explica Starling, “Dicionário” contempla três frentes principais: 1) a compreensão do que é a república e por que se trata de uma ferramenta tão importante para uma sociedade; 2) a análise das principais experiências republicanas, desde as origens na Grécia Antiga; 3) as reflexões sobre as vertentes republicanas contemporâneas.

“Proclamação da República”, tela de Benedito Calixto, que mostra o Campo de Santana, no Rio, em 15.nov.1889
“Proclamação da República”, tela de Benedito Calixto, que mostra o Campo de Santana, no Rio, em 15.nov.1889 - Reprodução

Os ensaios são assinados por nomes consagrados, como Evaldo Cabral de Mello, que escreve sobre a Revolução Pernambucana de 1817, e José Murilo de Carvalho, cujo tema é o pensamento republicano no Segundo Reinado (1840-1889).

Despontam no livro, por outro lado, historiadores mais jovens e menos conhecidos, como Petrônio Domingues, professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS). 

Domingues trata de um assunto muito pouco explorados pela historiografia, as associações de homens negros livres que aderiram às doutrinas republicanas nas últimas décadas do século 19.

É provável que a principal dessas associações tenha sido o Club Republicano dos Homens de Cor, no Rio. A entidade organizava conferências e promovia atividades de propaganda do novo regime. 

Lilia Schwarcz se concentra nesse mesmo período e também vai ao início do século 20 para comentar a iconografia da República, muito influenciada pelos símbolos da cultura francesa. 

“Dicionário” desembarca no século 21 em ensaios de autores como o colunista da Folha Ronaldo Lemos, que aborda a seara digital. 

Sobre os dias de hoje, aliás, Starling enumera fragilidades institucionais. Uma das limitações, afirma a historiadora, é que “para haver República no Brasil, precisamos de repúblicos. E eles estão em falta. São aqueles dispostos a deixar de lado os interesses egoístas em nome do bem comum”. 

Também prevalece esse tom de desencanto em “130 Anos: Em Busca da República”, outro lançamento. Logo na apresentação da obra, surge a “constatação de que nossa República ainda continua não correspondendo ao sonho de seus fundadores”.

Os dois livros também se assemelham numa virtude incomum no mercado editorial brasileiro, a capacidade de dialogar com a academia e com os leigos que se interessam pelo tema.

No entanto, quando comparado ao “Dicionário”, este “130 Anos” adota um caminho mais previsível, tanto na estrutura quanto na abordagem dos temas. Uma linha cronológica é construída ao longo de 41 textos.  

Essa opção mais convencional não compromete, porém, a capacidade analítica e o rigor de pesquisa dos textos.

Entre as análises dos historiadores, merecem destaque as observações de Boris Fausto sobre os ruidosos anos 1920 e as de Carlos Fico sobre a repressão e o “milagre econômico” da década de 1970.

Outro trunfo são os textos dos economistas. André Lara Resende reavalia o receituário ortodoxo dos primeiros anos da ditadura militar, e Edmar Bacha se dedica às turbulências da década de 1990. 

“Sempre conviveremos com o peso do passado e a promessa do futuro —e ambos têm traços de teimosa permanência”, anota Pedro Malan, também economista e ex-ministro da Fazenda do governo FHC, na introdução de “130 Anos”. 

O “peso do passado” sustenta “O 15 de Novembro e a Queda da Monarquia”. É uma obra de notável interesse histórico, embora menos ambiciosa que as duas acima citadas.

Reúne os relatos da princesa Isabel e de seus amigos Manuel e Maria José Vieira Tosta, barão e baronesa de Muritiba, sobre a queda da Monarquia, a Proclamação da República e o exílio da família imperial. 

Neste livro organizado pelas historiadoras Keila Grinberg e Mariana Muaze, alternam-se lamentos exacerbados, descrições minuciosas da corte que ruiu, exaltações ao Brasil, e críticas aos militares que tomaram o poder, quando não desdém por eles.

“Assim terminou o triste dia 15 de novembro, início de uma tão grande catástrofe para o Brasil”, registra a baronesa. 

“Deixai-me, filhinhos, que lhes conte como se deu a maior infelicidade de nossa vida!”, escreve a princesa Isabel. Mais adiante: “A ideia de deixar as amigas, o país, tanta coisa que amo e que me lembra mil felicidades de que gozei, fez-me romper em soluços!!”.

Os relatos da baronesa e do barão de Muritiba são publicados pela primeira vez.

Também se insere na onda de lançamentos em torno da efeméride a Coleção Folha - A República Brasileira, que reúne 28 volumes, de Deodoro da Fonseca a Jair Bolsonaro.

Outra novidade é “Os Presidentes”, do jornalista da Folha Rodrigo Vizeu, com perfis de 32 presidentes. O livro se baseia no premiado podcast Presidente da Semana.

Novas obras sobre o período republicano

“Dicionário da República”
Ed. Cia. das Letras, 504 págs. R$ 100
Com organização das historiadoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, a obra reúne 51 textos críticos. Entre os autores, estão sociólogos, como Angela Alonso e Sérgio Abranches; filósofos, como Marilena Chaui e Newton Bignotto; e historiadores, como Angela de Castro Gomes, José Murilo de Carvalho e Evaldo Cabral de Mello

“130 Anos: Em Busca da República”
Ed. Intrínseca. 256 págs. R$ 60 
O livro conta com 41 análises sobre o período. Economistas como Armínio Fraga, Marcos Lisboa e Mario Mesquita estão entre os autores. Historiadores como Boris Fausto e Carlos Fico também assinam textos. 

“O 15 de Novembro e a Queda da Monarquia”
Ed. Chão. 200 págs. R$ 41 
Três relatos de personagens históricos diretamente afetados pela Proclamação da República, a princesa Isabel e a baronesa e o barão de Muritiba. O livro é organizado pelas historiadoras Keila Grinberg e Mariana Muaze. 

Coleção Folha - A República Brasileira
R$ 21,90 cada volume (SP, RJ, MG e PR). Consulte o site para os demais estados.
Compõem a série 28 livros, que cobrem da queda da Monarquia aos primeiros meses do governo de Bolsonaro. Além dos textos, há fotos, charges, gravuras, mapas, registros pessoais e documentos históricos

“Os Presidentes”
Ed. Harper Collins. 336 págs. R$ 50
Rodrigo Vizeu, jornalista da Folha, idealizou o podcast Presidente da Semana. O projeto inspirou o livro, que apresenta perfis de 32 dos mandatários 

Outros livros

“História do Brasil República”
Ed. Contexto. 176 págs. R$ 25
O historiador Marcos Napolitano narra o período que vai da queda da Monarquia ao fim do Estado Novo

“O Pecado Original da República”
Ed. Bazar do Tempo. 294 págs. R$ 45
Escrito por um dos maiores historiadores do país,  José Murilo de Carvalho, a obra reúne ensaios sobre eventos e personagens do período republicano. 

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