Folha publica, todo mundo replica, diz Bolsonaro em novo ataque à imprensa

Após participar de protestos contra o Congresso e o STF, Bolsonaro afirmou que está 'há 15 meses calado'

São Paulo

Em entrevista na manhã desta segunda-feira (16) à Rádio Bandeirantes, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez novos ataques à imprensa, citando diretamente a Folha.

"Imprensa mentirosa. Em especial Folha de S.Paulo, um lixo de imprensa, um lixo de imprensa. Tem dia que tem 20 matérias contra mim ali. Nenhuma falando a verdade. É o tempo todo em cima dessa desinformação. E daí o jornal Folha publica, todo mundo replica, todo mundo replica", afirmou.

Na entrevista à rádio, Bolsonaro foi questionado sobre prazo dado ao ministro Paulo Guedes (Economia) para aprovar as reformas econômicas que são o carro-chefe do governo. Ele afirmou que o ministro tem "100% de apoio do presidente".

"[É] mentira [sobre o prazo] de uma imprensa sem moral. Já desacreditada pela opinião pública fazendo essas fake news o tempo todo."

"Respeitar a imprensa é uma coisa, agora, querer achar que tudo o que eles escrevem é verdade e tem que ficar quieto, aí não dá. Aí não tem ataque da minha parte, tem resposta às mentiras que fazem quase que 24 horas por dia contra o presidente Jair Bolsonaro e contra a sua família também", afirmou.

Ainda na entrevista à rádio, presidente citou o caso da funcionária fantasma de seu gabinete revelado pela Folha.

Como deputado federal, ele usou dinheiro da Câmara dos Deputados para pagar o salário da assessora Walderice Santos da Conceição, que vendia açaí na praia e prestava serviços particulares a ele em Angra dos Reis (RJ), onde tem casa de veraneio.

Fachada da loja de açaí de Walderice Santos da Conceição, 49, em Mambucaba, Rio de Janeiro
Fachada da loja de açaí de Walderice Santos da Conceição, 49, em Mambucaba, Rio de Janeiro - Lucas Landau - 2.mai.2018/Folhapress

Nesta segunda, ele repetiu o argumento falso: "Lembra o caso da Wal do Açaí, lá em Angra dos Reis? No dia 10 de janeiro do ano passado [na verdade, foi em 2018], a Wal foi acusada de estar na lojinha dela, que não fatura um salário mínimo por mês. Só que no dia 10 de janeiro você vai no boletim administrativo da Câmara e vê que ela estava de férias. Vê se a Folha voltou atrás até hoje?"

Na época, a reportagem esteve na Vila Histórica de Mambucaba, onde funcionava a loja de Walderice, em duas oportunidades.

A primeira foi em 11 de janeiro, durante o recesso parlamentar, quando a reportagem ouviu de diversos moradores, em conversas gravadas, que Walderice não tinha ligação com a política, prestava serviços na casa do parlamentar e tinha como atividade principal a venda de açaí e cupuaçu, em uma loja que inclusive leva o seu nome, “Wal Açaí”.

Segundo pelo menos quatro depoimentos gravados com moradores da região, o marido dela, Edenilson, era caseiro do imóvel de veraneio do então deputado, que morava na Barra Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro.

As portas do estabelecimento "Wal Açaí", na mesma rua, foram fechadas às pressas assim que se espalhou a informação sobre a presença de repórteres na região.

Naquele dia, a Folha encontrou no local por acaso com Bolsonaro, que convidou o jornal a visitar a sua casa —quem estava com chaves era exatamente o marido de Walderice.

Na ocasião, Bolsonaro deu diversas explicações sobre a funcionária, mas em nenhum momento disse que ela estava de férias, argumentação que veio meses depois.

Na segunda oportunidade, em 13 agosto, a Folha retornou à vila e comprou das mãos de Walderice um açaí e um cupuaçu, em horário de expediente da Câmara. À reportagem, Walderice afirmou naquele dia trabalhar no local todas as tardes.

Dias depois, Walderice foi demitida por Bolsonaro, à época candidato a presidente. Ela figurava desde 2003 como um dos 14 funcionários do então gabinete parlamentar de Bolsonaro, em Brasília, recebendo salário bruto de R$ 1.416,33.

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