Descrição de chapéu datafolha CPI da Covid

Bolsonaro anda a cavalo na Esplanada, chama Lula de canalha e volta a fazer ameaças

Presidente prestigiou evento com ruralistas, que protestam contra medidas restritivas e CPI da Covid

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Brasília

Andando a cavalo e sem usar máscara, Jair Bolsonaro compareceu a uma manifestação de ruralistas neste sábado (15) na Esplanada dos Ministérios.

O presidente chamou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de canalha, defendeu novamente mudança no sistema eleitoral e voltou a ameaçar tomar medidas contra eventual lockdown nos estados.

"Se tiraram da cadeia o maior canalha do Brasil e se a esse canalha foi dado direito de concorrer, o que me parece é que se não tivermos voto auditável, esse canalha, pela fraude, ganha as eleições do ano que vem", afirmou no andar de cima de um caminhão de som, em frente ao Congresso Nacional.

Bolsonaro se deslocou de helicóptero para a Esplanada e, montado a cavalo, se dirigiu ao caminhão. Estava acompanhado dos ministros Braga Netto (Defesa), Tereza Cristina (Agricultura), Tarcísio Freitas (Infraestrutura), Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Gilson Machado (Turismo).

Os manifestantes se concentraram no gramado em frente ao Congresso. Antes, o presidente sobrevoou a a região e acenou para o público.

Bolsonaro demorou a subir no caminhão de som, com medo de que pudesse cair por causa do excesso de pessoas. Sob grito dos apoiadores de "eu autorizo" (uma faixa estampava essa frase no trio elétrico), Bolsonaro voltou a fazer ameaças contra medidas restritivas adotadas por governadores.

"O momento está maduro. Não desafiamos ninguém, não queremos confronto com ninguém, mas não ousem confrontar ou roubar a liberdade do nosso povo", disse.

"Hoje os 22 ministros estão perfeitamente alinhados", afirmou.

Bolsonaro ainda cometeu um ato falho ao dizer que os governadores não poderiam mais jogar "dentro" das quatro linhas Constituição. "Não podemos assistir passivamente a tantos desmados, tantas arbitrariedade que vocês bem viram ao longo do último ano", disse.

Afirmou que lamenta as mortes da Covid-19 “bem como as demais mortes” e que “não é ficando debaixo da casa ou em casa que vamos solucionar esse problema”.

“Já se fala em terceira onda. Se vier a terceira onda, vem a quarta, quinta e sexta, infinitas ondas. Logicamente não queremos isso, mas devemos enfrentar", disse.

Mais cedo, Bolsonaro provocou aglomeração em um almoço com ruralistas. O presidente visitou o CTG, Centro de Tradições Gaúchas, onde um grupo o recepcionou com duas panelas de risoto de carneiro.

Transmissão feita em rede social pelo deputado Vitor Hugo (PSL-GO) mostra Bolsonaro abraçando e cumprimentando os apoiadores, descumprindo regras sanitárias de combate à Covid-19.

Jair Bolsonaro em aglomeração com apoiadores no CTG de Brasília, neste sábado (15)
Jair Bolsonaro em aglomeração com apoiadores no CTG de Brasília, neste sábado (15) - @majorvitorhugo no Instagram

A maioria dos ruralistas também estava sem máscara, item que ajuda a impedir a contaminação do vírus.

Desde o início da manhã, apoiadores de Bolsonaro se reuniram em frente ao Congresso em defesa do agronegócio e para outra manifestação, chamada Marcha da Família Cristã pela Liberdade. O governo do Distrito Federal não fez estimativa de público.

Vestidos de verde amarelo, os manifestantes carregaram bandeiras do Brasil e faixas a favor do voto impresso e contra o comunismo e o STF (Supremo Tribunal Federal). Em uma delas, os manifestantes defenderam que o presidente acione as Forças Armadas e pediram “prisão aos comunistas nos três Poderes e nos ministérios”.

Os integrantes do protesto também carregaram cartazes nos quais dizem “autorizar” o presidente a fazer “o que for preciso”. Nos carros de sons, os manifestantes protestaram contra as medidas de isolamento, pediram o fim das restrições no comércio , criticaram o STF e a CPI da Covid.

As manifestações ocorrem em meio a pressão política que Bolsonaro vem sofrendo com os trabalhos da CPI da Covid e sua perda de aprovação popular e espaço eleitoral para o ex-presidente Lula.

A reprovação do trabalho do presidente segue alta, embora tenha oscilado negativamente, dentro da margem de erro da pesquisa Datafolha divulgada nesta semana.

A pesquisa mostra grande rejeição ao desempenho de Bolsonaro na condução da pandemia, mas com pequenos sinais de melhora em sua imagem. Avaliam seu desempenho como sendo ruim ou péssimo neste tema 51% dos entrevistados, uma oscilação negativa de três pontos. Ainda assim, é uma rejeição 18 pontos percentuais maior do que a verificada no início da pandemia, em março do ano passado.

A parcela da população que apoia o impeachment do presidente o aparece pela primeira vez numericamente à frente dos contrários ao afastamento, de acordo com pesquisa.

São favoráveis ao processo 49% dos entrevistados ouvidos pelo instituto, ante 46% que se dizem contrários à saída dele do cargo dessa forma.

Os índices representam um empate técnico dentro da margem de erro e praticamente se inverteram em relação a março deste ano, quando 50% afirmavam se opor ao impeachment, ante 46% que se declararam a favor.

A pesquisa aponta Lula liderando a corrida eleitoral do próximo ano. Segundo o Datafolha, Lula tem 41% das intenções de voto no primeiro turno, contra 23% de Bolsonaro. No segundo turno, Lula venceria Bolsonaro por 55% a 32%, desempenho puxado sobretudo pelas intenções de voto no Nordeste. A pesquisa ainda apontou queda de popularidade do presidente.

Na sexta (14), Bolsonaro já havia colocado o sistema eleitoral brasileiro em xeque, defendido a aprovação do voto impresso e afirmado que Lula só ganhará as eleições de 2022 na fraude.

“Um bandido foi posto em liberdade, foi tornado elegível, no meu entender para ser presidente. Na fraude. Ele só ganha na fraude no ano que vem”, disse Bolsonaro em Terenos (MS), onde participou de um ato para a entrega de títulos de posse de terra.

Um dia antes, Bolsonaro repetiu o seu filho e senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e chamou o relator da CPI da Covid, Renan Calheiros (MDB-AL), de vagabundo.

“Sempre tem algum picareta, vagabundo, querendo atrapalhar. Se Jesus teve um traidor, temos um vagabundo inquirindo pessoas de bem no nosso país. É um crime o que vem acontecendo com essa CPI”, disse o presidente em discurso no estado que é base eleitoral do senador Renan Calheiros.

Conforme mostrou a Folha, técnicos e integrantes do grupo majoritário da CPI da Covid, formado por senadores independentes e oposicionistas, acreditam que já há elementos que levam à incriminação de Bolsonaro por crime sanitário, ou seja, contra a saúde pública.

Em seu relatório final, a comissão pode pedir a órgãos de investigação o indiciamento do mandatário por ilícitos que entendem que ele cometeu na gestão da pandemia.

A existência de crime sanitário é uma das vertentes de investigação desse grupo majoritário da CPI. O principal objetivo dos depoimentos e da coleta de evidências daqui para frente será atestar que Bolsonaro também cometeu crime contra a vida.

Os senadores acreditam que os depoimentos prestados até o momento no âmbito da comissão confirmaram que Bolsonaro e seus comandados tinham real consciência do impacto da pandemia e que deveriam ter agido para minimizar os efeitos à população, incluindo uma mudança na conduta do próprio presidente.​

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.