Descrição de chapéu Economia da Arte

Novos colecionadores se desdobram entre papéis de mecenas e donos de museus

Jovens compradores procuram apoiar artistas de sua própria geração

São Paulo

Vinda em grande parte do mercado financeiro e de tecnologia, uma nova safra de colecionadores aterrissa nas galerias e feiras do país. Diferentemente da geração dos pais, vinculada afetivamente ao neoconcretismo e à pop art, compradores de entre 20 e 40 anos querem apoiar a produção de sua própria faixa etária, com obras que conversam mais diretamente com o contexto atual.

“Sinto que existe uma turma mais jovem que quer adquirir obras de artistas da mesma faixa etária. Começam pensando em decorar uma parede e acabam se apaixonando pelos artistas, sem necessariamente se tornarem grandes colecionadores”, diz a advogada especializada em direito da arte Juliana Neufeld Lowenthal.

“Noventa por cento dos nossos clientes compram arte porque acreditam e gostam, mas quando você vai para uma fatia mais jovem, eles olham como negócio. Sabem da valorização que vai acontecer se o país for bem e compram como investimento”, conta Antonio Almeida, sócio da galeria Almeida e Dale.

A colecionadora de arte Jessica Cinel em sua casa, em São Paulo - Karime Xavier/Folhapress

Aos 27 anos, Jessica Cinel não se considera investidora do mercado de arte. Prefere se definir como mecenas e se diz preocupada em incentivar jovens artistas, muitas vezes não representados por galerias. Formada em negócios internacionais pela Regent’s University de Londres, fez mestrado no Instituto de Arte Sotheby’s e estágio na galeria Pace. De volta ao Brasil, fez crescer sistematicamente a coleção dos pais, que antes compravam de forma aleatória. 

“Preciso saber da história e do conceito por trás. Minha coleção fala de barreiras geográficas, políticas, pessoais. Sou latina e tive a oportunidade de estudar fora. Quero tratar desses problemas e quebrar as minhas barreiras”, afirma Cinel.

Na primeira compra, levou para casa fotos de duas séries de Marcelo Moscheta (“A Line in the Arctic” e “Quase Monumento: Fronteiras Líquidas”) e outras duas da série “Desretratos”, de Lucas Simões. Hoje, ela e a família têm cerca de 50 obras

A colecionadora não nega sua preocupação com o potencial econômico do artista, embora afirme que a valorização está em um segundo plano, subordinado ao conceito da coleção. 

A escala do colecionismo, no entanto, varia muito. Herdeiro de Rolim Amaro, antigo dono da TAM, o colecionador Marcos Amaro, também ex-dono das Óticas Carol, foi o primeiro da família a mexer com arte. Artista ele próprio —faz esculturas com peças recuperadas de aviões antigos— virou dono de uma coleção de mais de 1.500 obras avaliada em R$ 70 milhões.

Em 2012, estabeleceu a Fundação Marcos Amaro e no ano passado abriu ao público uma sede ocupando uma antiga fábrica de tecidos em Itu, no interior paulista. Criou ainda um prêmio que leva seu nome na feira SP-Arte.

“Hoje, muito do meu patrimônio está em arte. É um bom investimento, se você compra e espera a obra carregar posição ao longo do tempo. Criei a fundação por paixão, mas toda financiada com recursos próprios. Fazer com o dinheiro dos outros é relativamente fácil”, conta Amaro.

Sócio também da galeria Kogan Amaro, em São Paulo, Amaro é o exemplo perfeito de que instâncias 
antes separadas —a do colecionador, a do galerista e a do meio institucional— passam a se misturar num cenário de complexidade crescente. Em um mercado cada vez vez mais globalizado, sua galeria acaba de abrir uma filial em Zurique, seguindo os passos das galerias Nara Roesler, em Nova York, e a Mendes Wood DM, na mesma cidade americana e em Bruxelas.

“Comecei a sentir necessidade de extrapolar fronteiras e ter outras fontes de receita que não dependam do Brasil. A verdade é que a economia ainda não se recuperou e o mercado hoje funciona assim: os clientes compram uma obra no [site] Artsy que está numa feira na China, de uma galeria do México que vai te entregar em Nova York.”

Num mundo de cifras e dimensões cada vez maiores, não deixa de ser irônico que a cidade de Itu,  conhecida informalmente pelo gigantismo, tenha entrado nesse circuito.

A expansão dos museus privados no Brasil

2002
Instituto Ricardo Brennand, Recife Abriga coleção particular do industrial pernambucano, com um acervo heterogêneo  que vai de Frans Post a uma coleção de armaduras medievais
 
2006
Instituto Inhotim, Brumadinho (MG) O museu a céu aberto criado por Bernardo Paz tem 2 milhões de m² e se tornou referência pela combinação de arte contemporânea e paisagismo. Em 2017, no entanto, Paz foi condenado por lavagem de dinheiro e evasão fiscal 
 
2007
Fundação Ema Klabin, São Paulo A antiga casa se transformou em museu, com um acervo que mistura arte e antiguidades e programação de palestras e concertos musicais
 
2011
Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto (SP) Dedica-se à arte brasileira contemporânea, com exposições, cursos e palestras

2017
Museu da Fotografia, Fortaleza A coleção do empresário Silvio Frota se transformou em um museu dedicado à produção fotográfica brasileira e internacional, com programação de exposições e atividades educativas
 
2018
Instituto Casa Roberto Marinho, Rio de Janeiro  A antiga residência de Roberto Marinho no Cosme Velho abriga a coleção de arte de mais de 1.400 peças, com destaque para arte moderna brasileira
 
Fundação Marcos Amaro, Itu (SP) Ocupando uma antiga fábrica têxtil, abriga um programa de exposições realizado por meio de edital e apoia iniciativas externas, como o Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, no Rio

A pioneira

Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, São Paulo  Criada em 1974, ocupa a antiga residência do casal, projetada por Oswaldo Arthur Bratke em 1950. É possível visitar um acervo constituído por pinturas desde o século 17, mobiliário, prataria, porcelana, tapeçaria e arte sacra do século 8, além de um jardim

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