Descrição de chapéu Economia da Arte

Venda de escultura de Jeff Koons ajuda a entender misteriosas cifras da arte

Coelho de 90 cm se tornou a obra mais cara de um artista vivo

Mulher observa a escultura ‘Rabbit’ (1986), de Jeff Koons, vendida na última semana por R$ 367,8 milhões
Escultura ‘Rabbit’ (1986), de Jeff Koons, vendida na última semana por R$ 367,8 milhões - Timothy A. Clary/AFP
Eduardo Sombini Gabriela Longman
São Paulo

No último dia 15, um coelho de 91,4 cm de altura virou celebridade. Produzido pelo americano Jeff Koons, a escultura em aço inoxidável “Rabbit”, de 1986, foi a leilão na Christie’s de Nova York com estimativa de preço em torno dos US$ 50 milhões. 

Ao longo da noite, o coelho deu um salto e alcançou US$ 91 milhões (R$ 367,8 milhões), tornando-se a obra de arte mais cara produzida por um artista vivo —o último recorde era de “Retrato de um Artista” do britânico David Hockney.

Perto ou longe dos leilões milionários, definir o preço e o potencial de valorização de uma obra continua sendo equação cheia de variáveis. Para um mercado de bens simbólicos em que peso e tamanho importam pouco, outros parâmetros servem como diferencial para determinar se uma peça está na casa dos mil (artista em início de carreira), dez mil (artista com certo nome ou projeção), cem mil (artistas importantes, já exibidos em grandes museus e inseridos no mercado internacional), 1 milhão (artistas consagrados) ou 100 milhões (obras específicas de Koons, Andy Warhol e dos grandes mestres da história da arte).

Consultora de arte com 17 anos de experiência, Daniela Séve Duvivier diz que a valorização de obras de um artista depende da “qualidade das obras, sua oferta, a inserção do artista em boas galerias e a participação em bienais, feiras e exposições internacionais”, além da “existência de obras de sua autoria em coleções importantes, tanto privadas como institucionais, e de livros de registro de sua produção”.

A relação entre o mercado de arte e as instituições, como museus e acervos particulares, é ressaltada também por Regina Pinho de Almeida, colecionadora e fundadora da Casa do Parque e do Instituto de Cultura Contemporânea. 

“O artista expôs em uma Bienal, a obra valorizou. Fez individual na Pinacoteca, reforça ou mantém o preço. As trajetórias são importantes. Qual o preço da obra de arte? Além da qualidade em si, o preço no mercado é baseado na importância institucional do artista.”

Nada disso, no entanto, garante a valorização a médio e longo prazo. Passando os olhos sobre os participantes das bienais das décadas de 1970, 1980 ou 1990 sobram nomes de que nunca mais se ouviu falar, sem valor algum de mercado. Nomes esquecidos às vezes são redescobertos —caso, por exemplo, de Hudinilson Jr. e certa produção erótica dos anos 1980—, mas são exceção.

“Quando se faz uma aquisição de artista jovem, você faz uma aposta no escuro, principalmente em um país em que a construção da carreira é complicada”, explica Nei Vargas da Rosa, pesquisador em mercado de arte na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Como de cada 200 ou 300 artistas de uma geração, cinco ou dez entrarão para a história, diversificar as fichas sempre aumenta as chances, um pouco como na roleta do cassino. Dona da maior feira de arte do Brasil, Fernanda Feitosa costuma recomendar “comprar aquilo de que se gosta” —se valorizar, melhor.

Para evitar furadas maiores, os consultores de arte se multiplicaram nos últimos anos. São profissionais especializados em orientar aquisições que ajudam clientes nos meandros do mercado, acompanhando-os em feiras e avaliando o potencial de valorização de artistas de interesse, por exemplo.

“Muita gente me procura atrás de expertise. Atendo colecionadores iniciantes que querem comprar com orientação e outros que buscam opinião para adicionar novas obras à coleção”, diz Duvivier. Investidores são cerca de 20% de seus clientes.

Num contexto de crise econômica, outros serviços começam a surgir. Fundada em 2018 por Felipe Feitosa e Luiz Guilherme Queiroz de Moraes, a Finarte oferece empréstimos lastreados em obras de arte para colecionadores e galeristas que têm obras relevantes, com valor avaliado em R$ 600 mil, no mínimo. 

Um terço do valor da obra pode se converter em crédito. Se o cliente não pagar o empréstimo, a obra dada
como garantia —que fica sob a custódia da empresa— é vendida para quitar a dívida. A empresa realizou oito operações de crédito até agora, e a carteira de empréstimos soma R$ 8 milhões.

“A gente entende que, na próxima década, as pessoas não vão enxergar as obras simplesmente como objetos estéticos. Elas podem servir como patrimônio, como ativo e, mesmo que não precise ser tratado dessa forma, as pessoas saberão que essa possibilidade existe”, afirma Guilherme Maffei Valente, gerente da empresa.

A ideia tem ressonância entre alguns colecionadores. Regina Pinho de Almeida, “compradora compulsiva”, diz que vem tentando ter uma atitude mais pragmática em suas compras. “Hoje compro com mais racionalidade. Tem gente que compra só como ativo, estuda muito até comprar uma obra. Outras, como eu, compram por impulso, mas eu sempre sei quem é o artista. Hoje preciso me conter e focar mais o custo-benefício”, diz.

“Investimentos em obras de arte são mais resistentes à desvalorização em momentos de crise que outros tipos", afirma Antonio Almeida, sócio das galerias Almeida e Dale e da Leme/AD. Por outro lado, descobrir o próximo artista que vai estourar no mercado é extremamente difícil, já que existe aleatoriedade nos seus movimentos.

Vendidas a US$ 100 ou distribuídas de presente aos amigos da família por ocasião de sua morte, as monotipias da artista Mira Schendel passaram a valer mais de US$ 10 mil a partir do início dos anos 2000, sobretudo após a exposição da artista no MoMA em 2009.

Se o mote clássico do “comprar barato e vender caro” ainda é a melhor fórmula da riqueza, e as instituições desempenham papel fundamental no processo de valorização, não há dúvida que diretores, conselheiros e curadores dos museus importantes detêm um capital importante no sentido do acesso à informação privilegiada e ao poder de decisão que impacta diretamente os rumos do mercado.

Compreender esse mecanismo talvez seja um primeiro passo para acompanhar mais de perto os coelhos dessa floresta.

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