Investimento do Estado é crucial para o Brasil inovar em escala

Para especialistas, financiamentos público e privado caminham juntos na promoção de novas tecnologias

Eduardo Sombini
São Paulo

No cenário atual de baixo crescimento econômico, os recursos públicos destinados à ciência, tecnologia e inovação vêm encolhendo no Brasil. Glauco Arbix, professor titular de sociologia da USP, considera que o cobertor curto do orçamento público não justifica o que chamou de “queimada da ciência e tecnologia” —expressão em referência à destruição causada pelo aumento de incêndios na Amazônia.

“Governar é fazer escolhas. Cortar educação ou ciência, tecnologia e inovação é dar um tiro no pé, um desastre para o Brasil. A gente vai sentir daqui a dois ou três anos”, afirmou em debate do 3º seminário Inovação no Brasil, realizado pela Folha na quarta-feira (28) em São Paulo.

Pierre Lucena, professor de finanças da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e presidente do Porto Digital, parque tecnológico no centro histórico de Recife, frisou que cortes em linhas de fomento à pesquisa, como bolsas de pós-graduação, não serão repostos pelo mercado. “Os instrumentos que existiam estão paralisados. Não temos mais recursos da Finep [Financiadora de Estudos e Projetos] para empreendedorismo, por exemplo. Precisamos da participação do Estado entrando imediatamente.”

Ricardo Kahn (esq.), professor da Fundação Vanzolini, Glauco Arbix, professor titular de sociologia da USP, e Érica Fraga, repórter especial da Folha, em debate da terceira edição do seminário Inovação no Brasil - Keiny Andrade/Folhapress

Para Arbix, que presidiu a agência de 2011 a 2015, no governo Dilma Rousseff (PT), faltam lideranças políticas para defender o setor de educação/ciência e estabilidade no financiamento público.

O Brasil estruturou um sistema nacional de inovação com instituições avançadas, articulando agências de fomento, universidades e empresas, mas “falha na hora de implementar”, disse. “Não adianta ter uma agência superavançada e moderna se há corte de recursos. Estamos vivendo uma espécie de apagão.”

O professor da USP defendeu a importância de investimento público em inovação —o desenvolvimento de novas tecnologias, marcado por riscos elevados e incertezas sobre o retorno de investimentos, em geral afugenta as empresas privadas.

“Erra quem acredita que o Estado pode ficar de fora do desenvolvimento de tecnologia e inovação. Não é assim no mundo inteiro.”

Ele considera que não há desenvolvimento de tecnologias de ponta sem dinheiro público. “Fazer sem governo é conversa fiada.”

Arbix deu exemplos. “Não faz no MIT [Massachusetts Institute of Technology, nos EUA]. Mais de 20% da verba do MIT vêm de dinheiro público, do governo federal”, disse.

Ricardo Kahn, professor de inovação corporativa e engajamento de startups da Fundação Vanzolini, foi menos enfático sobre a importância do financiamento público a atividades inovadoras. Ele considera que há outras formas de promover inovação, como fundos privados que financiam startups, e disse que corporações brasileiras estão assumindo o papel de financiadoras do empreendedorismo.

Por outro lado, concordou que, para incentivar atividades inovadoras com escala e em empresas de todos os portes, o financiamento público é importante.

“Além de dinheiro, é fundamental ter estratégia muito bem direcionada para promover inovação não só nas grandes corporações e na meia dúzia de startups talentosas que conseguem crescer”, afirmou.

Pierre Lucena, do Porto Digital, manifestou preocupação semelhante ao tratar de ambientes de inovação liderados por grandes corporações como Bradesco e Itaú. “Todo o mundo quer uma startup que fatura R$ 1 milhão, mas ninguém quer pegar o osso daquela startup que está começando agora.”

Carlos Gadelha, coordenador das ações de prospecção da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), defendeu que há uma correlação de 98% entre as variações de investimentos públicos e privados no país nos últimos 15 anos (veja gráfico ao lado).

“As coisas caminham juntas. É um processo complementar dentro de uma lógica de sistema de inovação.”

Para ele, é preciso “sair dessas falsas dicotomias” e promover uma relação virtuosa entre as duas pontas.

O discurso encontrou eco na exposição de Rodrigo Brito, gerente de acesso à água do Instituto Coca-Cola Brasil, que citou o livro “O Estado Empreendedor”, de Mariana Mazzucato.

 

“Ela quebra um pouco essa visão que o Estado atrapalha, que só as empresas geram desenvolvimento. Noventa e oito por cento das patentes de um iPhone e 79% do investimento de pesquisa de Stanford [Universidade Stanford, na Califórnia] vêm de investimento público”, disse.

Para Ricardo Kahn, o ambiente de negócios no Brasil cria entraves a todo tipo de iniciativa, incluindo startups, mas ele vê potencial para a inovação no país. “O Brasil tem uma capacidade empreendedora muito grande, a gente vê o talento surgindo de todos os lados.”

Empresas malsucedidas são parte do processo, e falhas tem que ser vistas com naturalidade, afirma.

O seminário teve apoio do Governo do Estado do Ceará, da Secretaria de Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo e do Instituto Coca-Cola Brasil.

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