Descrição de chapéu 2º Seminário Economia da Arte

Musicais vivem fim de uma era, dizem diretores e produtores

Última temporada de espetáculos em SP gerou 2.500 empregos; em 20 anos, mercado cresceu e se profissionalizou

Nelson de Sá
São Paulo

Sete produtores de teatro musical ouvidos pela Folha já confirmam retração no setor, com a decisão do governo federal de concentrar no gênero os esforços contra a chamada Lei Rouanet.

Agora tratada apenas como Lei Federal de Incentivo à Cultura, ela foi objeto de uma instrução normativa do Ministério da Cidadania em 23 de abril, fixando em R$ 1 milhão o teto de arrecadação junto a empresas interessadas em usar seus incentivos fiscais.

Conta o produtor e diretor Ulysses Cruz: “Eu tinha duas reuniões agendadas e elas foram suspensas. Nenhuma possibilidade está sendo ouvida pelos patrocinadores. Eles dizem que a lei mudou tudo”.

Os projetos afetados diretamente são os que entrariam em cartaz a partir de meados de 2020, mas o ambiente contrário, em declarações do presidente Jair Bolsonaro e do ministro Osmar Terra, já teria atingido o investimento em espetáculos correntes. Daí a retirada de cartaz de montagens com casa cheia, caso de “Billy Elliot”, segundo parte dos entrevistados.

O maior impacto é em São Paulo, onde os musicais estabeleceram um mercado que abrange teatros de grande porte nos shoppings, sete escolas para formação de atores para o gênero e outras também para técnicos. Segundo levantamento do Prêmio Bibi Ferreira, a temporada 2018-19 na cidade, encerrada em julho, somou 23 musicais e 2.500 empregos.

O novo quadro levou a T4F, tida como pioneira da atual fase dos musicais paulistanos, a se pronunciar publicamente, questionando o governo federal por limitar os espetáculos teatrais a R$ 1 milhão e prever valor seis vezes maior aos eventos voltados a “datas comemorativas nacionais”.

Os governos estadual e municipal também iniciaram gestões junto ao federal para rever a mudança, mas o efeito foi acirrar o confronto. Nesta última semana, o Ministério da Cidadania anunciou estudos para que, além do teto, o dinheiro arrecadado via isenção de impostos tenha que ser devolvido pelas produções ao governo, usando a bilheteria.

“É uma loucura”, diz Miguel Falabella, ator, diretor e produtor. “Mas isso foi muito bem armado. Como a maioria da classe artística se posicionou contra esse energúmeno [Bolsonaro], ele espertamente jogou a população contra nós.”

O ano de 2001 é o marco da retomada dos musicais no Brasil, com a estreia de “Les Misérables”, da T4F, mas outros já vinham dando forma ao gênero. Falabella lembra o seu primeiro, “O Beijo da Mulher Aranha”, em 2000: “Tivemos de importar a equipe técnica da Argentina, porque não tínhamos know how. Vinte anos depois, vamos desmantelar tudo o que se formou, centenas de profissionais.”

Os outros relatos vão pela mesma linha. “Estamos fazendo musical desde 1991, já realizamos 48 nos adaptando às leis de incentivo”, diz o diretor e produtor Charles Moeller. “O musical deu ao país a possibilidade de salário não só de atores, mas maestros, músicos, arranjadores, cenógrafos, cenotécnicos, costureiras. Uma profissão que não existia era visagismo. Não tinha diretor de palco, diretor acompanhador. O que vai acontecer? Musical de duas pessoas?”.

A produtora Rachel Ripani, que começou como atriz e trabalhou nos últimos dez anos na T4F também em cargos de versionista e direção, acrescenta: “Não é só o teto. Tem uma sensação ao redor da lei, de patrocinadores que percebem uma desconfiança tanto do governo quanto da população, e se afastam”.

Marllos Silva, que dirige o Prêmio Bibi e também é produtor, sublinha que o Brasil se tornou exportador de profissionais, tanto atores como técnicos, e até de espetáculos, citando “A Escrava Isaura”. E que o gênero se espraiou pelo país, com produções em cidades como Belo Horizonte e Fortaleza. “O governo, ao impor o teto, decretou o fim de uma era no teatro brasileiro”, diz ele.

Não que o apoio à Lei Rouanet fosse unânime, sobretudo com o salto nos valores liberados para captação —que em junho do ano passado, em plena campanha presidencial, bateram nos R$ 28,6 milhões aprovados pelo governo Michel Temer para “O Fantasma da Ópera”, da T4F.

Um crítico histórico da forma como o incentivo fiscal à cultura se estabeleceu no Brasil é Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc São Paulo, que sempre questionou a transferência do poder de decisão sobre o que será produzido para o marketing.

A preferência por franquias ou “réplicas” da Broadway era creditada a essa distorção, mas também isso vinha mudando. Nas últimas quatro temporadas em São Paulo, os musicais com tema nacional já eram maioria. Uma das responsáveis pela mudança foi a produtora carioca Andrea Dantas, de “Elza” e outros sucessos musicais recentes —e que, também ela, trabalha com a Lei Rouanet há mais de duas décadas.

“A lei foi um marco para o mercado”, afirma Dantas. “Ele era basicamente informal, eu vi ele se profissionalizar. Em 20 anos, cresceu muito rápido, gerou postos de trabalho, passou a girar a economia do país. Virou um setor importante, que deveria ser tratado como tal, estrategicamente.”

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