Novo olhar sobre o câncer transforma paciente em protagonista

Tratamento leva em conta genética, história e estilo de vida para atacar diretamente o tumor

Amarilis Lage
São Paulo

A busca por um olhar cada vez mais personalizado na medicina abre novas frentes de batalha contra o câncer. A luta conta hoje com ferramentas que permitem não só conhecer melhor o tumor, mas o próprio paciente. Hoje se sabe que suas características genéticas, condições emocionais e até flora bacteriana influenciam o desenvolvimento da doença. ​

No Hospital Sírio-Libanês, a física Tatiana Aves faz demonstração do novo equipamento de radioterapia que amplia o nível de precisão e reduz o número de sessões para o paciente
No Hospital Sírio-Libanês, a física Tatiana Aves faz demonstração do novo equipamento de radioterapia que amplia o nível de precisão e reduz o número de sessões para o paciente - Eduardo Knapp/Folhapress

Pesquisadores do A.C. Camargo divulgaram na "Nature Medicine" estudo feito com USP e Universidade de Trento (Itália) mostrando que certos microorganismos só aparecem na microbiota de pacientes com câncer colorretal. Disso podem surgir estratégias diagnósticas e terapêuticas. 

"Estamos testando probióticos para ver como isso pode ajudar no tratamento", comenta Victor Andrade, diretor médico do hospital. "As bactérias do intestino podem potencializar o sistema imune."

Até o fim do ano, o Albert Einstein, em São Paulo, pretende oferecer testes de farmacogenômica, área que estuda como a genética afeta a absorção de medicamentos. É possível, por exemplo, um paciente produzir enzimas que facilitam a metabolização de um remédio, enquanto outro vai precisar de mais remédio para obter o mesmo efeito.

Com base nesses testes, o hospital poderá indicar no prontuário eletrônico não a dose padrão de um medicamento, mas a dose ideal para aquela pessoa. 

Enquanto isso, no Icesp (Instituto do Câncer de São Paulo Octavio Frias de Oliveira), enfermeiros entrevistam os doentes que vão passar por cirurgias de grande porte para identificar os que estão mais inseguros em relação aos procedimentos.

Estes são encaminhados a um programa em que uma equipe multidisciplinar entra em ação para ouvir quais são as preocupações desses pacientes. 

"Temos nesse grupo muitos profissionais de reabilitação, para mostrar, por exemplo, como trabalhar a fala após uma cirurgia na laringe", diz Maria Del Pilar Estevez Diz, coordenadora de oncologia clínica do Icesp.

Tirar a dúvida antes da cirurgia, segundo ela, evita estresse e reduz complicações no pós-operatório.

Atentos ao impacto que o estresse e o medo têm na vida das pessoas que tratam um câncer, alguns centros recorrem à medicina integrativa, em que a pessoa é vista de forma completa.

A abordagem desse tipo pode incluir técnicas de relaxamento após a quimioterapia, ou acupuntura para reduzir a dor. 

O Graacc (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer), formata um plano para oferecer ioga aos pacientes e famílias.

O Einstein tem um programa que acolhe o paciente na fase em que o tratamento acabou, mas a supervisão regular do oncologista ainda é necessária. A meta é ajudar esse sobrevivente a adotar um estilo de vida que diminua os riscos de reincidência de câncer. 

Nem sempre a adoção de hábitos mais saudáveis é simples, porque, ao retomar a rotina, a pessoa se depara com marcas que a doença deixou: em seu corpo, em sua subjetividade, nas relações pessoais.

O coach de saúde Fábio Romano, que integra o programa, dá o exemplo de uma mulher que precisava emagrecer e não conseguia. No trabalho, veio à tona o porquê: após dois anos afastada da empresa familiar devido ao câncer de mama, ela estava insegura profissionalmente. Foi preciso resolver essa questão da volta ao trabalho para que ela pudesse pensar em fazer exercícios e mudar a alimentação.

"A nossa meta é entender a demanda do paciente, não apenas a demanda da equipe médica", afirma Romano.  

Já o Hospital Sírio-Libanês implantou um Centro de Medicina Sexual para ajudar pacientes oncológicos, em especial os que tiveram tumores de próstata, útero, ovários e mamas.

A meta é informá-los sobre possíveis efeitos da terapia na vida sexual, para que identifiquem problemas e busquem ajuda antes, em vez de calar por vergonha. São coisas para as quais há tratamento, se identificadas precocemente, diz o urologista Bruno Nascimento. 

"A medicina conta hoje com recursos que elevam dramaticamente a sobrevida global do paciente de câncer. E, enfim, percebeu que não dá para só 'sobreviver'. É cada vez mais relevante perguntar como essa pessoa viverá. Ela quer viver com plenitude."

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