Ultrassonografia de alta frequência é nova arma contra câncer de próstata

Tratamento que elimina tumor sem causar lesões é indicado só para casos de baixo a médio risco

Ana Bottallo
Paris

Uma nova técnica de tratamento para câncer de próstata tem atraído a atenção de pacientes e médicos em todo o mundo.

Conhecida pelo nome Hifu (do inglês ultrassonografia focal de alta-intensidade), a tecnologia consiste em aquecer as células danificadas, destruindo-as e erradicando o tumor. Sem necessidade de cirurgia, o paciente pode receber alta no mesmo dia.

O aparelho emite ondas sonoras de alta intensidade ao mesmo tempo que gera uma imagem tridimensional da glândula prostática em um computador. O foco da doença é atingido com exatidão, sem lesionar os órgãos adjacentes, como a bexiga e a uretra.

 
Segundo Alexandre Iscaife, doutor em urologia e médico assistente do Hospital das Clínicas, o Hifu é um tratamento para casos particulares, de tumores localizados apenas na próstata, e especialmente para lesões que não estejam próximas à uretra.

Tradicionalmente, o câncer de próstata é tratado com radioterapia, uso de bloqueadores hormonais (supressor de testosterona) e cirurgia. Os três métodos apresentam efeitos colaterais e estão ligados a uma baixa nas condições de vida após o tratamento —a chamada morbidade.

Em estudos clínicos realizados com o Hifu, 95% dos pacientes observaram a eliminação do tumor e melhora na qualidade de vida no primeiro ano que seguiu o tratamento.

A técnica foi desenvolvida em 1991, na França, pela empresa Edap TMS com o Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica. Depois de aprovados os testes clínicos, o seu uso entrou no rol de tratamentos para tumores de próstata na Europa nos anos 2000.

Nos Estados Unidos, o órgão que regulamenta drogas e alimentos aprovou seu uso apenas em 2016. 

Já no Brasil, a tecnologia foi aprovada pela Anvisa em 2008, mas seu uso só começou a ser difundido nos últimos três anos. O aparelho está disponível na cidade de São Paulo nos hospitais Israelita Albert Einstein, 9 de Julho, A/C Camargo, Brigadeiro e Moriah.

De acordo com Rafael Coelho, chefe de urologia do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira), o tratamento passou a ser cogitado quando o exame de ressonância magnética melhorou no país. “Agora que temos um bom método de imagem, por que não tratar só o foco da doença?”

No entanto, diz Coelho, a eficácia deve ser considerada com ressalvas, por conta de a terapia não ter atingido ainda um tempo mínimo para acompanhamento clínico (dez anos após o primeiro uso).

“O conceito é bem interessante no sentido de diminuir morbidade. Porém, o câncer de próstata é multifoco, e nem sempre conseguimos ver todo o foco da doença. O problema é tratar apenas uma área da próstata, deixando uma parte que pode evoluir mais adiante”, diz Coelho.

Segundo José Roberto Colombo Jr., urologista e especialista em cirurgia robótica no Einstein, as pessoas para as quais o tratamento Hifu é recomendado também podem fazer só o acompanhamento de perto do tumor. Nesses casos, cabe ao médico discutir todas as opções com o paciente, uma vez que a técnica custa em torno de R$ 20 mil.

“Como os hospitais investiram dinheiro nessa tecnologia, a campanha de ‘uma nova terapia’ para câncer de próstata atraiu muitos pacientes que não se encaixam no espectro indicado”, diz Colombo. “O que mais acontece é o paciente com tumor agressivo querer o Hifu, mas ele não faz parte do grupo. Infelizmente, não é para todos.”

O custo do aparelho pode chegar a € 1 milhão (R$ 4,55 milhões). Por conta disso e do uso restrito a poucos candidatos, sua implementação no Sistema Único de Saúde (SUS) ainda não é viável.

Além do Hifu, outras terapias focais usadas para tratamento de câncer de próstata são a crioterapia (destruição das células por baixas temperaturas), a braquiterapia (por luz) e a fotodinâmica (indução luminosa) —essa última ainda não aprovada no Brasil.

Nos últimos anos, porém, o consenso entre os profissionais da saúde é que nem sempre o paciente precisa ser tratado. 

Para Alexandre de la Taille, chefe do departamento de Uro-oncologia no Hospital Universitário Henri Mondor, em Créteil (França), se após uma ressonância magnética for constatado que o risco de evolução do tumor é baixo, é possível seguir apenas com acompanhamento.

“Na França, o câncer de próstata é o mais comum entre os homens, mas apenas 2% dos pacientes morrem em decorrência da doença”, diz. “Se o tumor for de baixa agressividade, não é necessário submeter os pacientes a tratamentos desnecessários.”

Esse acompanhamento, também chamado de “vigilância ativa”, é indicado hoje pelos especialistas para pacientes que tenham um câncer de baixa agressividade.

Com os avanços nas técnicas de diagnóstico, é possível hoje determinar com precisão como será a evolução do tumor, se ele terá um caráter agressivo ou não.

No Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, métodos de diagnóstico modernos incluem o uso de marcadores moleculares para identificar a presença de câncer de próstata em pacientes cuja biópsia não deu resultados satisfatórios.

“Usamos esse método em pacientes com histórico familiar para apontar o risco de desenvolver câncer de próstata. Além de indicar isso, esse teste pode determinar se o tumor será mais agressivo ou indolente”, diz Denis Jardim, oncologista titular do Hospital Sírio-Libanês.

Jardim acrescenta que, com os resultados em mãos, a equipe médica pode discutir com o paciente qual será a ação a ser tomada —se irão escolher por tratar ou fazer o acompanhamento ativo. 

“Deve entrar no algoritmo da decisão o conhecimento específico da particularidade molecular de cada tumor. Isso é o que chamamos hoje de oncologia de precisão”, afirma o médico.

No Brasil, o câncer de próstata é o segundo mais frequente em homens, atrás somente de cânceres de pele do tipo não-melanoma. No ano passado, foram registrados 68.220 casos, de acordo com levantamento feito pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca). O número de mortes foi de 15.391 em 2017.

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