Descrição de chapéu The Washington Post Balanços

Clientes perdem acesso a US$ 190 mi após morte de dono de bolsa de criptomoeda

Fundador, que morreu inesperadamente, era o único que tinha senha para acessar os ativos

Taylor Telford

Depois que o fundador da maior bolsa canadense de criptomoedas, a QuadrigaCX, morreu inesperadamente, cerca de 115 mil clientes da instituição perderam o acesso a US$ 190 milhões em fundos —porque o proprietário era a única pessoa que tinha a senha para acesso aos ativos, a companhia informou.

Gerald Cotten, 30, morreu de complicações associadas à Doença de Crohn enquanto estava fazendo trabalhos filantrópicos na Índia, no começo de dezembro, de acordo com um post na página de Facebook da QuadrigaCX. A empresa só anunciou a morte de seu fundador mais de um mês depois que ela aconteceu e, quando os clientes entraram em pânico e tentaram sacar seus fundos, o site da QuadrigaCX caiu e a empresa desapareceu da rede.

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Funcionária trabalha com venda de ações com criptomoedas - Reuters

Quando a QuadrigaCX rompeu o silêncio, uma semana depois, a companhia revelou ter pedido concordata na suprema corte da província canadense da Nova Escócia, de acordo com uma reportagem no site Coindesk.  

Cotten era a única pessoa autorizada a transferir fundos da QuadrigaCX entre a "carteira fria" da empresa —um sistema seguro de armazenagem offline—  e sua "carteira quente", ou servidor online, de acordo com documentos judiciais. Por motivos de segurança, o montante de criptomoedas disponível na "carteira quente" era baixo. O laptop de Cotten era cifrado e sua viúva, Jennifer Robertson, e o especialista que ela contratou não conseguiram acesso a qualquer parte do conteúdo. A empresa não tinha contas em bancos e usava serviços terceirizados para administrar pagamentos e saques.

"Nas últimas semanas, trabalhamos arduamente para tratar de nossas questões de liquidez, o que inclui tentar localizar e proteger as reservas de criptomoedas muito significativas detidas nossas em carteiras frias, e que são requeridas para satisfazer o saldo de criptomoedas depositado nas contas dos clientes; também tentamos encontrar uma instituição financeira que aceite os valores que nos serão transferidos", afirmou o conselho da QuadrigaCX em carta aos clientes da bolsa em 31 de janeiro. "Infelizmente, esses esforços não deram resultado".

O fiasco destaca os problemas da falta de regulamentação das criptomoedas. Porque elas não são emitidas por um governo ou controladas por uma instituição financeira centralizada, isso confere a bolsas como a QuadrigaCX controle quase completo sobre os ativos dos investidores, tornando-os vulneráveis a hackers e a incidentes.

As circunstâncias misteriosas da morte de Cotten deram origem a muitas teorias de conspiração, especialmente no site Reddit, onde usuários insinuaram que ele falsificou sua morte como parte de uma trapaça. Alguns investigadores do Reddit e pesquisadores sobre criptomoedas estudaram as contas da QuadrigaCX e encontraram atividades posteriores à data da morte de Cotten em contas a que só ele tinha acesso. Mas Robertson entregou à Justiça um certificado de óbito, de acordo com o tribunal, e a viúva de Cotten disse que ela e o presidente-executivo interino da QuadrigaCX foram alvo de "comentários caluniosos" e ameaças de clientes zangados.

A QuadrigaCX enfrentou diversos problemas legais nos últimos 12 meses. No começo de 2018, o Canadian Imperial Bank of Commerce congelou mais de US$ 25 milhões em ativos da empresa depois de perceber "irregularidades" nos procedimentos de pagamento da bolsa. O tribunal superior de justiça da província canadense de Ontário assumiu o controle dos fundos, de acordo com o Coindesk, e eles foram devolvidos à companhia dias antes da morte de Cotten.

Agora a empresa está estudando a possibilidade de vender sua plataforma operacional a fim de se manter à tona. Robertson solicitou ao tribunal que suspenda qualquer ação judicial contra a empresa, o que compraria tempo para que tente acessar as criptomoedas detidas em suas carteiras frias. Ela também pediu que o tribunal aponte o grupo internacional de auditoria Ernst & Young para fiscalizar as operações enquanto a QuadrigaCX tenta recuperar seus ativos perdidos.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

The Washington Post
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