Novos gadgets ficam discretos para virarem rotina do público

Fabricantes querem ampliar uso de voz e seguir usuário ao longo de todo o dia

Nova York

Faltou um item no evento anual de lançamento de produtos do Google, em outubro, em Nova York. Havia celular, tablet, notebook, alto-falante inteligente. Mas nenhum relógio foi mostrado. 

A resposta para essa ausência veio duas semanas depois: a empresa anunciou, no início de novembro. A compra da Fitbit —que começou fabricando pulseiras para monitorar exercícios e depois passou a fazer também relógios inteligentes— por US$ 2,1 bilhões. 

O movimento é mais um sinal de como os grandes fabricantes de tecnologia trabalham para tornar a tecnologia ainda mais onipresente e, ao mesmo tempo, discreta. Apostam nos itens vestíveis e em aparelhos domésticos de voz. 

Apresentação do Pixel Buds, fone de ouvido sem fios do Google, durante evento em Nova York - Drew Angerer - 15.out.19/Getty Images/AFP

“Os smartwatches são caros e não são tão bons, mas não dou cinco anos para que haja uma explosão deles”, projeta Luciano Soares, coordenador do laboratório de Realidade Virtual do Insper. “Ainda há pouca concorrência, mas quando os chineses entrarem para valer, o mercado mudará”.

Há novidades em fones sem fio, como o do Apple, que  promete sensação de ter nada na orelha e bateria para até 4 horas e meia de uso contínuo. O Google deve lançar em 2020 o Pixel Buds, capaz de funcionar com o celular à distância, como em outro cômodo da casa ou no armário da academia.

Os dois vêm com tecnologia para assistentes de voz, que permitem buscas na internet, mudar a música e fazer chamadas sem tocar em botões. 

Alto-falantes inteligentes para uso doméstico começam a chegar ao Brasil. A Amazon trouxe seus aparelhos Echo, vendidos a partir de R$ 349. O Nest, do Google, foi lançado no país nesta segunda (11), também por R$ 349, 

Eles podem ser conectados a tomadas e lâmpadas, para ligar e desligar aparelhos via comandos de voz.

Têm design discreto e cores sóbrias, como se quisessem fazer de conta que não estão ali. Seguem o caminho das TVs, que trazem bordas e profundidade cada vez menores. 

“Ainda há uma questão de status nos aparelhos que as pessoas carregam fora de casa, mas nos lugares onde permanecemos, não há tanto essa preocupação”, avalia Pollyana Notargiacomo, especialista em tecnologia do Mackenzie.

A expectativa é que os sistemas passem a conhecer de forma minuciosa a rotina dos usuários e, com inteligência artificial, detectar padrões, como notar que toda terça, perto das 20h, seu dono costuma sentar na poltrona para ler. Por que, então, não acender o abajur pouco antes disso?

“O aparelho é capaz de ‘entender’ as tarefas mais comuns pedidas e de processá-las sem depender da internet, o que acelera as respostas”, diz Matt Vokoun, diretor de gerenciamento de produtos no Google. 

Ele diz que os dados jamais serão usados para publicidade.

A Apple também aposta no machine learning: seu chip mais moderno para iPhones, o A13, tem um núcleo dedicado a isso, usado para melhorar o processamento de linguagem, para deixá-la mais natural, no reconhecimento de imagens e vídeos e na animação de personagens e de elementos de realidade virtual. 

Alto-falantes, fones e relógios são esforços para convencer o público a desejar coisas novas, já que as vendas de celulares estão caindo. As vendas de iPhone caíram 9% no terceiro trimestre, por exemplo. 

Para ampliar seus ganhos, grandes fabricantes de hardware criam novos canais de conteúdo. O pacote Amazon Prime junta música, livros, filmes e séries. A Apple lançou uma plataforma de programas (+TV) e outra de jogos (Arcade), e o Google lança um pacote de games (Stadia), todos pagos via assinatura.

Os games abrem espaço para a próxima onda da tecnologia: a realidade virtual. Milhões de jogadores já passam horas circulando por mundos digitais completos e interagindo entre si, só que por meio de telas e botões. O desafio será entrar neles com óculos especiais, fones de ouvido e sensores de movimento. 

Mark Zuckerberg anunciou, em setembro, que a nova versão do óculos de realidade virtual do Facebook virá com um sensor de movimentos. "Isso significa algo sem controles, sem alças, sem sensores externos. Apenas total alcance de controle com suas mãos", disse ele. 

O produto chegará ao mercado em 2020, junto com o Horizon, um ambiente virtual no qual os usuários poderão criar avatares para interagir. A expectativa de Zuckerberg é que as pessoas possam marcar encontros virtuais para conversas cotidianas, em vez de fazer uma chamada de vídeo, por exemplo. 

Embora os equipamentos estejam ficando mais baratos, ainda é desconfortável usar óculos de RV por longos períodos. “Quando olhamos para algo que está ‘longe’ ou ‘perto’, há uma alta resolução da mesma maneira, o que sobrecarrega nosso sistema cognitivo”, aponta Notargiacomo, do Mackenzie. 

“O uso de realidade virtual e realidade ampliada [que projeta elementos em cenas reais] já ocorre em treinamentos de empresas e na formação militar nos Estados Unidos”, aponta Soares, do Insper. “É mais barato do que levar equipes até um lugar distante, como uma plataforma de petróleo," exemplifica. 

O jornalista viajou a convite do Google

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