Descrição de chapéu Financial Times

Índia convoca Facebook a depor após empresa recusar remoção de conteúdos extremistas

Mercado indiano é o maior da rede social, com mais de 300 milhões de usuários; investigação acontece após reportagem publicada pelo The Wall Street Journal

Londres | Financial Times

O Facebook terá de se defender diante de um comitê legislativo indiano em setembro, depois que do início de uma controvérsia sobre como a empresa regulamenta conteúdo político extremista por membros do partido que governa o país.

O comitê legislativo de tecnologia da informação na noite de quinta-feira (20) convocou o Facebook para responder perguntas para o dia 2 de setembro sobre "prevenção do uso indevido de plataformas de mídia noticiosa social/online".

O Facebook está enfrentando críticas na Índia, seu maior mercado, com mais de 300 milhões de usuários, depois que uma reportagem publicada pelo The Wall Street Journal que a companhia havia se recusado a remover mensagens contendo retórica hostil postadas por membros do Partido Bharatiya Janata (BJP, na sigla em inglês), por medo de que fazê-lo prejudicasse seus negócios no país.

Ilustração com o logo do Facebook e bandeira indiana - Dado Ruvic/Reuters

O escrutínio pelo comitê legislativo indiano —presidido por um político de oposição— surgiu depois que grandes marcas, entre as quais Diageo, Starbucks e Levi's, suspenderam sua publicidade na empresa devido a preocupações sobre a publicação de conteúdo divisivo, na campanha presidencial americana de 2020.

O presidente-executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, trabalhou para resolver o "déficit de confiança" da empresa junto aos anunciantes, mas vem enfrentando dificuldades para moderar conteúdo efetivamente, tornar as campanhas políticas mais transparentes e reprimir a desinformação. Zuckerberg resistiu a publicar anúncios contendo verificação de fatos políticos, afirmando que nenhuma empresa deveria se posicionar como "árbitro da verdade".

Tanto no Brasil como na Índia, os líderes nacionalistas Narendra Modi e Jair Bolsonaro chegaram ao poder usando o Facebook e o WhatsApp para conduzir campanhas digitais sofisticadas que, na interpretação de seus críticos, dependeram de um fluxo descontrolado de boatos e notícias falsas.

Políticos oposicionistas estão liderando a campanha de reação ao Facebook na Índia, enquanto o BJP, governista, nega as acusações de tratamento preferencial. O Facebook afirmou não ter comentários sobre a convocação para depor ao Legislativo.

Rahul Gandhi, líder do Partido do Congresso, de oposição, tuitou que "o BJP e o RSS controlam o Facebook & WhatsApp na Índia. Difundem notícias falsas e o ódio por meio deles e os usam para influenciar o eleitorado".

Em resposta, o ministro da Eletrônica e Informação, Ravi Shankar, declarou que "perdedores que não conseguem influenciar o povo mesmo dentro de seu próprio partido continuam choramingando que o mundo inteiro é controlado pelo BJP".

O Facebook trabalhou para aprofundar sua presença na Índia, onde o WhatsApp tem mais de 400 milhões de usuários. A empresa foi um dos 13 investidores que colocaram mais de US$ 20 bilhões na Reliance Industries, de Mukesh Ambani, meses atrás, em um esforço para conquistar participação em uma das economias digitais de crescimento mais rápido no planeta.

Salman Waris, sócio do escritório de advocacia TechLegis Advocates and Solicitors, especialista em tecnologia, disse que a controvérsia na Índia "aumentava a pressão" sobre o Facebook.

"Essas acusações vêm sendo feitas repetidamente, na Índia e em outros países, e não podem mais ser varridas para baixo do tapete; as autoridades regulatórias estão sendo forçadas a agir", disse Waris.

Financial Times, tradução de Paulo Migliacci

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