Homem cuida há 60 anos de nascente de rio em seu quintal no norte do PR

Airton Donizete/Folhapress
O aposentado Luiz Fukomoto, que oferece água da nascente para os visitantes
O aposentado Luiz Fukomoto, que oferece água da nascente para os visitantes

AIRTON DONIZETE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM APUCARANA (PR)

Resumo: Luiz Fukomoto preserva filete de água que se transforma no rio Pirapó, que tem 164 km de extensão e chega a Maringá, cidade de 400 mil habitantes, uma das principais do norte do Paraná. Fukomoto se compara à história presente no livro "O Velho e o Mar", de Ernest Hemingway, em que o personagem principal luta para tirar um peixe do mar. "Aqui, minha luta é para preservar uma nascente de água."

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Meus pais vieram do Japão e, nos anos 40, se instalaram em Apucarana, no norte do Paraná. A maioria dos colonizadores da região pensava em plantar café, que era o "ouro verde" da época.

Meu pai, não. Ele queria cultivar uma boa horta, então procurou uma propriedade que tivesse água. Teve sorte. Gostou de um dos primeiros terrenos que viu. Era um banhado, cheio de nascentes.

Construiu nossa primeira casa, de madeira, com paredes de peroba-rosa.

A maior nascente daqui, que forma o rio Pirapó, é embaixo do porão dessa nossa antiga casa.

Uma das coisas que aprendi com meu pai é o respeito e o amor pela natureza.

Ele cuidava de todas as nascentes de água que tinham aqui, mas a cidade foi crescendo, e o asfalto chegou.

Das nascentes, só ficou aquela debaixo da nossa antiga casa de madeira.

Sempre zelei por ela, preservando as plantas aquáticas que nasciam ao redor e não deixando soterrar o filete de água.

Assim ela se manteve e lá se vão 60 anos. Só mais tarde soube que era a nascente do rio Pirapó, que passou a abastecer Maringá, a uns 60 e poucos quilômetros daqui.

Airton Donizete/Folhapress
Casa de madeira sobre onde está a nascente do rio Pirapó
Casa de madeira sobre onde está a nascente do rio Pirapó

NO MEU QUINTAL

Aquilo me deixou muito feliz, saber que cuidava de nascente que formava um rio que tem 164 km de extensão e abastece uma grande cidade.

Sei que, no seu trajeto, a qualidade da água do rio Pirapó não é tão boa, recebe poluição industrial, sofre com erosão e devastação da mata ciliar, mas aqui no meu quintal está tudo bem.

Costumo mostrar para os visitantes minúsculos peixinhos guarus, lá no fundo da nascente. Também os convido para beber a água.

Sempre tenho um copo aqui perto. Encho e digo: pode beber que a água é boa, garanto.

Hoje, estou velho, doente. O reumatismo não me deixa agachar, mas faço o que posso por essa nascente.

Sou viúvo, moro com uma filha, mas estou sempre de olho aí, cuidando para manter a água límpida e transparente.

Para dizer a verdade, se não fosse meu trabalho, tudo poderia ter acabado, entupido. Mas o pessoal não reconhece, não.

ENQUANTO TIVER FORÇA

Vou continuar cuidando da nascente até quando tiver forças. Estou com 85 anos e uma das coisas que vou deixar para meus três filhos e seis netos é a importância de lutar por um mundo melhor.

Enquanto tem gente destruindo a natureza, eu estou aqui fazendo meu pedacinho de boa ação.

Quer dizer, um pouquinho do nosso esforço chega à torneira dos maringaenses. Um dos visitantes até brincou que pareço o personagem de um livro. É o livro "O velho e o mar", de um escritor chamado [Ernest] Hemingway.

Só que lá na história do livro, o visitante me contou, um velho luta para tirar um peixe do mar. Aqui, minha luta é para preservar uma nascente de água.

Aí, esse senhor, que é lá de Maringá, disse que minha história poderia se chamar: "O velho e o rio". Agradeci. Afinal, é uma luta que vale a pena, não é?

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