Ex-refém das Farc diz que vários seqüestrados perderam a sanidade
da Folha Online
Vários militares e policiais reféns das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) estão sofrendo de demência pelas condições desumanas do cativeiro, declarou nesta sexta-feira o ex-congressista colombiano Orlando Beltrán, libertado pela guerrilha na quarta-feira (27) junto com outros três ex-parlamentares --Luis Eladio Pérez, Gloria Polanco de Lozada e Jorge Eduardo Gechem Turbay.
"Vi muitos casos de absoluta demência, há suboficiais que estão praticamente loucos, não conseguiram superar o horror que é ser seqüestrado", declarou Beltrán à rádio Caracol.
| Carlos Garcia Rawlins/Reuters |
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| Os ex-reféns das Farc Luis Eladio Perez e Orlando Beltrán falam à imprensa durante coletiva em Caracas na quinta-feira (28) |
O político, que havia sido seqüestrado há seis anos, acrescentou que os reféns enfrentam doenças devastadoras como leishmaniose e malária, além de permanecer presos dia e noite.
"A malária provoca febres altíssimas e calafrios que os fazem delirar, e com a leishmaniose o tecido da pele vai se deteriorando, vai caindo, aparecem chagas enormes", disse Beltrán.
"Acrescenta-se a isto o fato de se estar amarrado a uma árvore de dia e uma cama de noite, é uma situação horrível, é para deixar qualquer um louco", afirmou.
O ex-legislador disse que "o único momento agradável" que viveu nos últimos seis anos foi quando os helicópteros enviados pelo governo venezuelano chegaram.
"De resto, é um eterno sofrimento", afirmou.
"Campo de concentração"
Na quinta-feira (28), o ex-senador Luis Eladio Pérez disse que "as condições de reclusão são as de um campo de concentração", em um emocionado relato de seu cativeiro na selva, um dia depois de ter sido entregue pelas Farc ao governo da Venezuela e ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha .
Embora não tenha entrado em maiores detalhes, o ex-refém contou que, em uma de suas travessias durante o cativeiro, pernoitou em território equatoriano.
"Eu dormi no Equador. Com isso digo tudo. Usávamos botas equatorianas, desodorantes e remédios brasileiros, sabonetes venezuelanos", relatou Pérez.
Durante uma entrevista à rádio colombiana Caracol, Pérez disse que ele, assim como a política franco-colombiana Ingrid Betancourt, de quem se tornou confidente no cativeiro, foram maltratados por parte dos guerrilheiros.
Betancourt
"Eu era mal visto pela guerrilha porque sempre contestei as coisas. Não titubeei. Claro, Ingrid fazia o mesmo, com uma dignidade e valentia excepcionais", afirmou Pérez, após contar sobre uma frustrada tentativa de fuga que resultou no acorrentamento da franco-colombiana.
"A situação se tornou muito complicada e isso gerou uma situação de maus-tratos permanente. Há muita repressão (em relação a Betancourt), dizem que somos burgueses, que somos políticos, enfim, tudo isso gerou um clima bastante desagradável com os guerrilheiros, que sempre tentavam amargar nossa vida em todos os aspectos", afirmou.
No entanto, o ex-refém garantiu que os guerrilheiros não tentarão matar Betancourt, porque "ela representa um pote de ouro para os rebeldes".
"Achei que iam me matar. Cheguei a deixar com Ingrid uma mensagem para minha família, porque sempre entendi que ela não seria assassinada, porque indiscutivelmente para as Farc, Ingrid é o pote de ouro neste maldito processo", disse o ex-refém.
Ainda permanecem em mãos das Farc cerca de 40 políticos, policiais, militares e estrangeiros que a guerrilha pretende trocar por cerca de 500 rebeldes presos, assim como mais de 700 seqüestrados com fins de extorsão, segundo números oficiais.
Entre os cativos "passíveis de troca" figuram Betancourt e os americanos Thomas Howes, Keith Stansell e Marc Gonsalves.
Com France Presse e Efe
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