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24/12/2011 - 09h47

Dono da editora mais antiga do país cria selo com patrocínio

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FABIO VICTOR
ENVIADO ESPECIAL AO RIO

Duas salas no centro do Rio são o que resta da editora comercial mais antiga em atividade no Brasil.

Fundada em 1854 como Livraria Clássica, a Francisco Alves foi a primeira grande editora do país --sem contar a oficial Imprensa Nacional, de 1808-- e dominou o mercado de livros na primeira metade do século 20.

Hoje resume-se a uma marca. Faz um ano e meio que lançou seu último livro --"Palavras - Origens e Curiosidades", espécie de almanaque de etimologia.

Sinal dos tempos, o atual dono da FA, Carlos Leal, fundou outra empresa, a Barléu, de livros de arte, todos patrocinados por meio da Lei Rouanet, e deve a ela sua sobrevida como editor.

Mas mantém a velha empresa ativa e estampa sua icônica logomarca --um cata-vento formado de lombadas de livros-- nas capas da Barléu, como vestígio de um passado glorioso.

Rafael Andrade/Folhapress
Carlos Leal, atual dono da Francisco Alves, mais antiga editora em atividade no país
Carlos Leal, atual dono da Francisco Alves, mais antiga editora em atividade no país

A primeira sala, no 19º andar de um edifício na Cinelândia, é o escritório de Leal e onde trabalha a equipe que restou: quatro funcionários.

De seu gabinete, com vista estonteante da baía de Guanabara, o editor explicou que criou outra marca para poder inscrever projetos na Lei Rouanet, já que é exigida certidão negativa de débitos.

A FA não tinha. Leal diz que, ao comprar a empresa de seus irmãos, em 94, herdou dívidas de US$ 3 milhões.

As dificuldades o levaram a criar, em 2002, a Barléu. Em 2011, a editora --que tem como maior êxito de vendas um volume de Beatriz Milhazes, 10 mil exemplares a R$ 180 cada-- lançou livros de Emmanuel Nassar e Gabriele Basilico e um da coleção de arte de Gilberto Chateaubriand.

Não significa que a FA foi salva. Leal, que é colecionador de arte e fotografia, diz ter um passivo fiscal de R$ 1 milhão. Mas argumenta que receberá precatórios de uma ação contra o INSS, o que, acredita, resolverá os problemas da velha editora.

A segunda das salas comerciais, no 8º andar do mesmo prédio, abriga o depósito da FA, com os poucos títulos que restam em catálogo. Leal diz que são 120, numa casa que ao longo da história já editou mais de 4.000 títulos.

Por que, com tantas dificuldades, não encerrou as atividades? "Não vou entrar para a história da cultura brasileira como o camarada que fechou a Francisco Alves", justifica, antes de contar que planeja vender a editora ou buscar uma sociedade.

Fundada pelo português Nicolao Antonio Alves e depois assumida por seu sobrinho Francisco Alves de Oliveira, a FA era no início uma livraria-editora especializada em obras didáticas.

Passou a publicar também literatura. Editado em 1902 pela Laemmert, "Os Sertões", de Euclydes da Cunha, passou pouco depois para a FA, que adquiriu o catálogo da concorrente. O clássico está na 39ª edição. Carlos Leal planeja que a 40ª será o próximo lançamento da FA.

Quando o pai dele --o armador José Carlos Leal, dono da empresa de navegação Netumar-- comprou a empresa, em 74, injetou dinheiro e apostou em literatura.

A FA editou Clarice Lispector, Rubem Fonseca, Mario Vargas Llosa, Philip Roth.

Ao assumir o controle, 20 anos depois, Carlos Leal contratou como gerente editorial o poeta Waly Salomão. Publicou Antonio Callado, Camille Paglia, Darcy Ribeiro, Frei Betto, Henry Kissinger, João Gilberto Noll.

O editor --que vendeu as cinco livrarias que a empresa ainda tinha-- atribui a derrocada à transformação do setor editorial. "O mercado se globalizou, só há espaço para os grandes grupos. Uma editora pequena não consegue se manter sozinha."

O professor da UFF Anibal Bragança, fundador de um núcleo de pesquisa sobre livro e história editorial do país e coordenador de pesquisa da Biblioteca Nacional, analisa de outro modo.

"Não creio que a crise tem a ver com as mudanças do mercado. Acho que possivelmente tem a ver com problemas de gestão", afirma ele, que vai lançar pela Edusp "O Rei do Livro", com a história de livraria-editora consagrada por Francisco Alves.

 

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