PEDRO DINIZ
COLUNISTA DA FOLHA

Não foram as tendências, tampouco as grifes milionárias os assuntos do tapete vermelho deste Globo de Ouro.

A campanha "Time's Up" (ou "o tempo acabou"), engendrada por atrizes inconformadas com a lista quilométrica de mulheres assediadas pelo produtor Harvey Weinstein, escureceu a passarela do cinema com um infinito desfile de vestidos pretos.

Enlutadas, as atrizes, indicadas a prêmios ou só de passagem, aderiram ao movimento impulsionado nas redes sociais por Reese Whiterspoon e Kerry Washington.

Vendido nas entrevistas como ponto de virada na história da indústria, o projeto mostrou, sob a ótica do estilo, todas as formas de usar a cor sem cair no marasmo —mas, quanto ao propósito ativista, ele só expôs o mundo de fachada em que vive a constelação de Hollywood.

Agentes de relações públicas sabem que é "cool" ser engajado. Sendo assim, mesmo que seus clientes tenham ficado calados durante anos, condescendentes com o histórico de abusos de Weinstein, nada diferente do pretinho básico cairia bem.

Também não cairia bem escolher um vestido da grife que, até o ano passado, era uma das "preferidas" das atrizes nesse tipo de evento.

A Marchesa, da estilista e ex-mulher do produtor acusado, Georgina Chapman, não deu as caras no tapete vermelho. Mesmo com a separação do casal, nenhuma atriz estendeu uma mão à designer, que, aliás, sempre posou para a foto ao lado dessas mesmas celebridades.

Foi a vez, então, de grifes e estilistas desconhecidos terem seus segundos de fama. Como no vestido Kaufman Franco de Yvonne Strahovski, atriz da série "Handmaid's Tale", ou no Giambattista Valli da modelo Kendall Jenner.

O "ponto de virada" talvez tenham sido mesmo as dezenas de ideias possíveis para usar um vestido preto.

Do "bandage" anos 2000 de Mariah Carey ao deslumbrante Chloé da francesa Isabelle Hupert, as atrizes misturaram proporções, variaram nos decotes e escolheram bem transparências como há muito não se via na festa.

Millie Bobby Brown, a personagem Eleven de "Stranger Things", despiu o princesismo de outrora e virou nova fashionista em seu Calvin Klein curto; Dakota Johnson, de Gucci, foi uma das várias que jogaram com aplicações de elementos prateados; e Catherine-Zeta Jones foi uma das poucas que não se importaram em mostrar pele demais.

Os homens também aderiram ao preto total, como apoio à causa feminina. Mais uma vez, outro exemplo de como uma roupa pode, pelo menos na foto, mascarar o silêncio de tantos anos.

Crédito: Paul Drinkwater/Divulgação Seth Meyers, o apresentador do 75º Globo de Ouro
Seth Meyers, o apresentador do 75º Globo de Ouro
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.