OTAVIO FRIAS FILHO

RESUMO Livro '11.22.63' e série baseada nessa obra têm protagonista que, após descobrir um portal que o leva ao passado, tenta impedir o assassinato do presidente John Kennedy, nos EUA. Sem o ritmo alucinante de produções televisivas atuais, roteiro suscita questões sobre o irresistível e o contingente no curso da história.

Uma das marcas registradas nos livros de Stephen King é que o insólito se esconde em meio ao corriqueiro. As irrupções do sobrenatural se fazem mais aterradoras porque não se confinam aos cenários lúgubres esperados nas obras do gênero, mas eclodem em plena banalidade suburbana de alguma cidadezinha do Estado do Maine, província literária onde se passa grande parte de suas histórias.

É o que acontece com a meditação de King sobre o tempo, que se estende pelo livro "11.22.63", data do assassinato do presidente John Kennedy, esmagador romance (mais de 700 páginas) publicado em 2011 e convertido numa série de oito episódios lançada em fevereiro de 2016, tendo o próprio autor, além de J.J. Abrams, entre os produtores.

Da forma mais prosaica e sem que Stephen King se dê ao trabalho de oferecer explicações, Al Templeton, dono do Al's Diner (umas dessas lanchonetes americanas instaladas num vagão), descobre um portal do tempo no fundo da despensa de seu acanhado estabelecimento. Como se houvesse inúmeras dessas passagens espalhadas pelo universo, esta conduz a um ponto específico, diretamente às 11h58 do dia 9 de setembro de 1958.

De início, Al (Chris Cooper no seriado) limita-se a usar o portal para trazer do passado a carne moída que utiliza em seus hambúrgueres, o que lhe permite praticar preços parecidos aos dos anos 1950 e torna sua lanchonete suspeita aos olhos da clientela. Mas logo lhe ocorre objetivo mais ambicioso e nobre: impedir o assassinato de Kennedy. Obter dinheiro é fácil —o viajante leva consigo as listas com os resultados dos jogos daqueles anos e assim estoura a banca nas casas de apostas.

Ele consome algumas incursões ao passado na tentativa, sempre frustrada, de confirmar que Lee Harvey Oswald (interpretado por Daniel Webber) de fato matou o presidente e agiu sozinho, conforme concluiu inquérito sobre o caso.

Aprende que, não importa quanto tenha permanecido no passado, apenas dois minutos transcorrem no presente, em 2011. E também que, a cada retorno no tempo, tudo volta a ser como era antes das alterações, ainda que minúsculas, causadas por sua visita anterior. Com a desfaçatez de costume, que abusa da credulidade do leitor, King estabelece as premissas mais convenientes ao que pretende narrar.

Sem ter conseguido eliminar suas suspeitas sobre a autoria do assassinato, a fim de então matar Oswald antes da data fatídica, Al contrai uma doença incurável. Ocorre a ele persuadir um de seus fregueses, o professor de ensino médio Jake Epping (James Franco), confidenciando-lhe o segredo da "toca do coelho", como chama o portal, para que leve adiante a missão histórica que concebera.

Sem família, sem perspectivas, atolado numa escola medíocre de alunos desatentos, o professor está disponível para a aventura e aos poucos se deixa enfeitiçar pela magia dos anos 1950. Quando Al morre, Epping toma seu lugar. E o romance, tal como a série, deslancha.

Apesar de impor suas próprias e idiossincráticas premissas sobre viagens pelo tempo, a obra de Stephen King respeita as convenções do gênero, bem estabelecidas no cinema pelo menos desde a década de 80, quando fixadas por filmes como "O Exterminador do Futuro" (James Cameron, 1984), "De Volta Para o Futuro" (Robert Zemeckis, 1985) e "Peggy Sue - Seu Passado a Espera" (Francis Ford Coppola, 1986).

NOVIDADE

O tempo, nesse tipo de fantasia, é um tecido contínuo e circular que abriga um gradiente de infinitos desdobramentos potenciais, simultâneos e intercambiáveis. Em outras palavras, a intervenção de um viajante do tempo pode criar um atalho pelo qual outro "futuro", que não aquele já "acontecido", venha a acontecer.

Uma das contradições implícitas nesse esquema é o chamado "paradoxo do avô", que aventa o colapso lógico decorrente da situação criada por um viajante que voltasse para assassinar aquele seu antepassado. Mas deveríamos nos deixar perturbar por esse paradoxo mais do que nos incomoda que não exista em aritmética divisão de um número por zero, por exemplo, ou que o resultado não seja o próprio número, como a lógica talvez sugerisse?

Não se deve esperar, da série baseada no livro, um roteiro atordoante, cheio das reviravoltas no enredo, réplicas espertas e personagens de uma competência sobre-humana que compõem a sedução das atuais séries televisivas. Adepto da velha escola, Stephen King tem seus próprios métodos e ritmos, que podem parecer insossos para o espectador viciado nas tramas turbinadas pelo anabolizante daqueles expedientes.

Mas King introduziu com seu livro algo que, salvo melhor juízo, constitui absoluta novidade na gramática das viagens pelo tempo. É que o passado se mostra resistente às mudanças que se lhe tenta impingir, reagindo a elas de modo ativo. Al, o dono do "diner", e seu discípulo Jake logo constatam na própria pele que essas reações se fazem mais violentas conforme um deles se aproxima de alterar aspectos históricos relevantes, que afetam o futuro de milhões de pessoas.

Então, é como se os objetos enlouquecessem: lustres despencam do teto, incêndios irrompem do nada, carros desgovernados se atiram contra os protagonistas (vale registrar que dar vida diabólica a objetos inanimados é outra das preferências do escritor). A certa altura, Jake constata: "Alguma coisa está trabalhando, entende? Em algum lugar do universo (ou atrás dele), as engrenagens fabulosas de uma máquina imensa estão girando".

A ideia de um passado ativo, perigoso na sua renitência, gera mais uma frente de antagonismos e confere trepidação inédita ao andamento do enredo, garantindo algumas de suas melhores passagens.

ESPECULAÇÕES

Mais que a morte de Kennedy, a sobrevivência de outro personagem —no caso, um dos piores genocidas de todos os tempos— costuma dar ensejo às especulações da chamada história contrafactual, no estilo "o que teria acontecido se...".

O soldado Adolf Hitler foi ferido duas vezes na Primeira Guerra Mundial. Em 7 de outubro de 1916, na batalha do Somme, um estilhaço numa das pernas o deixou meses em convalescença. Em 13 de outubro de 1918, já promovido a cabo, foi atingido na batalha de Ypres por gás tóxico lançado pelos britânicos e ficou cego durante semanas. E se um dos incidentes tivesse matado o futuro tirano?

Acostumados a nosso mundo individual e visível, em que ações pessoais geram consequências perceptíveis, tendemos a considerar que, sem Hitler, todo o rumo da história teria sido outro. Ignoramos que, na produção de resultados históricos, é determinante não apenas uma combinação imprevisível de uma quantidade sem fim de variáveis, mas que grande parte —a parte decisiva— dessa determinação é forjada por forças impessoais e inarredáveis das quais permanecemos inconscientes. Vejamos duas tabelas elucidativas nesse sentido.

VARIAÇÃO ANUAL DO PIB

EUA
1928 1,1
1929 6,1
1930 -8,5
1931 -6,4
1932 -12,8
1933 -1,2
1934 10,7
1935 8,9
1936 12,9
1937 5,1
1938 -3,3
1939 7,9

ALEMANHA
1928 4,3
1929 -0,4
1930 -1,4
1931 -7,6
1932 -7,5
1933 6,2
1934 9,1
1935 7,5
1936 8,8
1937 6,0
1938 7,7
1939 9,4

Dados EUA: S. Williamson, baseados em Gordon/Balke
Dados Alemanha: baseados em Maddison

PERCENTUAL DO VOTO POPULAR OBTIDO PELO PARTIDO NAZISTA

Maio de 1924 6,5%
Maio de 1928 2,6%
Setembro de 1930 18,3%
Agosto de 1932 37,3% (índice mais alto em eleições livres)
Novembro de 1932 33,1%
Março de 1933 43,9% (eleição sob coação; Hitler no poder desde janeiro)

Duas constatações emergem desses dados. A primeira é que a crise de 1929 e a terrível recessão mundial que se seguiu foram o fator que catapultou as preferências pelo partido de Hitler, ainda que os nazistas nunca tenham ultrapassado pouco mais de um terço dos votos em eleições legítimas (e tenham chegado ao governo porque Stálin proibiu os comunistas alemães de se coligarem aos socialistas, de modo que o poder escorregou para a segunda opção, um gabinete encabeçado pelo líder nazista).

A outra constatação é que as circunstâncias beneficiaram Hitler com um cronograma perfeito. As grandes crises do capitalismo são periódicas, estendendo-se por cinco ou seis anos até dar lugar a novo período de crescimento econômico e bem-estar relativo. Assim como a recessão impulsionara seu partido de 1929 a 1933, a bonança (que era mundial) contribuiu para que mantivesse a popularidade e o poder até 1939, quando se lançou às guerras de conquista que prometera.

Se Hitler houvesse morrido na 1ª Guerra, sua ausência quase certamente teria sido preenchida por outro dos fanáticos de extrema direita que pululavam na Alemanha; no partido nazista havia ao menos dois rivais, Gregor Strasser e Ernst Rohm, ambos assassinados pelo chefe na "Noite dos Longos Punhais", em 1934. Ou seja, talvez o mundo não conhecesse a suástica e sim uma saudação como o "Heil, Hynkel" da paródia de Chaplin, "O Grande Ditador" (1940), mas não haveria, provavelmente, diferença de substância.

É como se houvesse duas ordens de eventos. Numa camada mais profunda, desenrolam-se as forças irresistíveis da evolução tecnológica, econômica e dos costumes, sempre movimentadas pela difusão do conhecimento. Numa camada mais superficial, fervem os significantes —nomes, programas, locais, títulos, datas e personagens históricas— que se definem ao sabor do acaso.

O valor transcendente de quinquilharias culturais como os livros de Stephen King, sem prejuízo de suas notáveis qualidades imaginativas, é que essas obras muitas vezes contêm percepções insuspeitadas e reveladoras, como a psicanálise sustenta que acontece com sonhos, atos falhos e anedotas.

OTAVIO FRIAS FILHO, 60, diretor de Redação da Folha, é autor de "Queda Livre" (Companhia das Letras) e "Cinco Peças e Uma Farsa" (Cosac Naify).

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