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Análise: Respostas aos protestos na Argentina dizem muito sobre o populismo
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FEDERICO FINCHELSTEIN
ESPECIAL PARA A FOLHA
As sucessivas respostas oficiais aos protestos na Argentina dizem muito sobre uma forma de governo que na academia normalmente é descrito como populismo.
Trata-se de um misto de capitalismo de Estado, redistribuição limitada da receita e lideranças verticais que tendem a inutilizar, na prática, as formas institucionais de representação democrática.
O populismo governa como se existisse um vínculo direto -na realidade, ideológico e inventado- entre o líder e seu povo.
A isso se somam políticas maciças de comunicação eletrônica e televisiva. Pensamentos e digressões sacralizadores são equiparados visualmente com efígies e mitos do passado.
Por exemplo, a imagem icônica de Evita sempre aparece atrás do rosto da presidente Cristina Fernández de Kirchner, reafirmando um vínculo carismático com um passado mítico que supostamente representa todos os cidadãos.
O líder representa o povo e a nação, aqueles que se opõem a ele representam interesses estrangeiros ou lhes falta consciência de argentinos -ou seja, têm uma imagem distorcida de seu próprio país, como afirmou a presidente Cristina Kirchner um dia após os protestos.
Estas noções não são exclusivas do governo nacional -de modo geral, a oposição partidária também é afetada pelas fantasias da lógica amigo-inimigo do povo.
O prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, afirmou que o povo em seu conjunto se manifestou nos protestos de 8 de novembro.
Isso é realmente novo? A história do peronismo, e de modo mais geral do populismo latino-americano (do peronismo ao chavismo), possibilita pensar em continuidades, repetições e rupturas. Em 1945-46, Juan Perón, coronel de uma ditadura em queda livre, usou esses argumentos para ganhar eleições.
Ontem e hoje, o populismo não propõe a ditadura. Defende a democracia, mas a esvazia de conteúdos.
Minimiza as dimensões institucionais e estabelece uma identificação absoluta entre Estado, governo e crentes seguidores.
Há a expressão da soberania da vontade da maioria, mas o pluralismo escasseia.
Dentro desse quadro, ressurge a equiparação discursiva entre líder e deus, tão frequentemente utilizada por Perón para explicar sua liderança.
O ressurgimento da linguagem religiosa (Cristina Kirchner disse recentemente que é preciso temer a Deus e também a ela), tão típico do populismo clássico, não ajuda a estabelecer perspectivas reflexivas para se pensar a política moderna e secular.
Quando os cidadãos dissidentes são definidos "a priori" como argentinos com mentalidade de traidores, inibe-se a possibilidade de negociação, o intercâmbio de ideia e a deliberação democrática.
FREDERICO FINCHELSTEIN é professor de história na New School for Social Research e Lang College
Tradução de CLARA ALLAIN
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