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21/08/2010 - 17h27

Moradores de rua invadem os edifícios São Vito e Mercúrio

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NATÁLIA ZONTA
DE SÃO PAULO

Um grupo de moradores de rua perambula entre muito lixo. O vaivém da avenida do Estado não intimida, e eles seguem a rotina nos abandonados edifícios São Vito, Mercúrio e Francisco Herrerias, único com destino certo: a demolição. Os outros dois espigões, símbolos da deterioração do centro, são motivo de briga judicial entre prefeitura e defensoria pública. Enquanto isso, os esqueletos completam a imagem degradada da área.

Fernando Donasci/Folhapress
Edifício São Vito, visto através do edifício Mercúrio, na região central da capital paulista
Edifício São Vito, visto através do Mercúrio, na região central de São Paulo; os dois foram tomados por moradores de rua

Um cercado protege o quarteirão em ruínas, mas não impede a entrada dos moradores de rua. O acesso mais fácil é o do edifício Francisco Herrerias, que só não está no chão porque não há mais espaço para entulho na área. Com o São Vito e o Mercúrio, os três são os únicos prédios no quadrilátero formado pelas avenidas do Estado e Mercúrio e pelas ruas Carlos Garcia e Luís de Camões. Até junho, havia outros 22 imóveis na região.

As portas lacradas por concreto só freiam os menos ousados. Alguns escalam as construções, outros entram por frestas. "À noite tem maluco que sobe até o segundo andar do São Vito", diz uma das novas habitantes que não quis se identificar.

Em todo o espaço interditado, o cheiro de podre é quase insuportável e não há luz. Há duas semanas, um trio que circulava pelos prédios afirmou que as batidas policiais não os assustavam. "De vez em quando a GCM [Guarda Civil Metropolitana] aparece. Tiram todo mundo, mas depois a gente volta", conta um dos sem-teto.

A história de abandono dos espigões do centro é antiga. O último desdobramento dessa história foi em julho, quando a Defensoria Pública do Estado, o Instituto Pólis, o Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos e a Associação de Moradores Viva São Vito conseguiram uma liminar que barrou a demolição.

O principal argumento da defensoria pública é que os dois edifícios estão em Zeis (zonas especiais de interesse social), segundo o plano diretor da cidade. "A área tem de ser usada para moradia social. No caso do São Vito, há um decreto de 2003 que reforça isso", afirma o defensor Carlos Loureiro, que está à frente da ação.

A prefeitura, que vai recorrer, quer transformar a área em um parque. Para o presidente da Cohab, Ricardo Pereira Leite, os autores da ação são "presunçosos". "É ingênuo crer que pelo fato de o local ser em Zeis ali vão brotar prédios. Além da lei, que pode criar incentivo, é preciso tijolo, cimento, mão de obra, coisas que não são tão simples." Segundo ele, a demolição foi votada pelo Conselho de Habitação, do qual fazem parte movimentos por moradia. Em contrapartida, o governo pediu a desapropriação de 53 imóveis no centro e promete reformá-los e vendê-los à população carente.

Projetos

A prefeitura ainda não divulgou o projeto para a área. Em janeiro, foi encomendado à Fundação para a Pesquisa Ambiental, ligada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, um novo plano urbanístico. Uma possibilidade é que ali seja instalado um equipamento público que articule o Mercado Municipal, a Casa das Retortas, o futuro Museu da História de São Paulo e o Espaço Catavento. O rio Tamanduateí também seria reincorporado à paisagem e o viaduto Diário Popular, demolido. O projeto preliminar deve ficar pronto em outubro.

Na gaveta da atual administração também estão os croquis do arquiteto Roberto Loeb. Em 2003, ele apresentou a nova cara do São Vito e deu esperanças a quem estava de saída. "A ideia era reduzir o número de apartamentos", diz. O prédio tinha 624 unidades em 27 andares, com 28 m2 a 30 m2. Com a reforma, haveria opções de 35 m2 a 60 m2. Segundo ele, na época, a reforma custaria R$ 16 milhões. A fachada seria refeita pelo pintor Eduardo Sued.

Na ocasião, também foi feito um estudo para medir o impacto da demolição dos dois prédios. "O resultado seria uma montanha de entulho com altura equivalente à de um prédio de oito andares." A prefeitura afirma que pretende derrubar os prédios manualmente, com marretas. Os resíduos, assim como os das demolições já feitas ali, seriam usados na construção de um dique no Jardim Romano, na zona leste, e na pavimentação de ruas da periferia.

Ver os espigões ainda de pé mexe com os sonhos de alguns ex-moradores. Athaíde Cassiano de Paula, 47, viveu no São Vito por dez anos. Já conseguiu comprar outro apartamento na Vila Buarque, no centro, mas não esquece a antiga quitinete. "Não entendo por que acham os edifícios feios." Para ele, os apartamentos venderiam como água. "Compraria o meu na hora."

Linha do tempo

2003
A então prefeita Marta Suplicy (PT) anuncia o projeto de reforma do São Vito.

2004
Cerca de 3.000 moradores do São Vito deixam o prédio com a promessa de que ele seria reformado.

2006
O prefeito Gilberto Kassab diz que quer derrubar os edifícios e revitalizar o Parque D. Pedro 2º.

2008
O Mercúrio começa a ser desapropriado e é aberta a licitação para a demolição dos prédios. Uma demolidora consegue liminar que suspende a concorrência por irregularidades.

Primeiro semestre de 2010
A prefeitura abandona a licitação e a empresa Fremix, já contratada para outros serviços em SP, é acionada para derrubar os imóveis do entorno e os prédios

Junho de 2010
São demolidas 22 construções no quadrilátero formado pelas avenidas do Estado e Mercúrio e pelas ruas Carlos Garcia e Luís de Camões.

Julho de 2010
A defensoria pública consegue uma liminar que impede 
a demolição dos edifícios. A prefeitura afirma que vai recorrer.

 

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