Cientistas brasileiros acham nova espécie de sagui amazônico, o Mico munduruku

Espécies da floresta Amazônica têm comportamento diferente das presentes na mata atlântica, menos tímidas

Reinaldo José Lopes
São Carlos

A cauda branca do sagui, avistada com a ajuda de um binóculo, foi o suficiente para que o biólogo Rodrigo Costa-Araújo suspeitasse estar diante de um primata desconhecido. É que outros saguis amazônicos, explica ele, em geral têm rabos pretos ou anelados. Dados genéticos confirmaram a suspeita: tratava-se de uma nova espécie, batizada de Mico munduruku

Costa-Araújo e seus colegas descobriram pequenos grupos do macaquinho no chamado interflúvio Tapajós-Jamanxim, área de mata entre esses rios que fica no sudoeste do Pará. Os cientistas ainda precisam obter estimativas mais precisas sobre a distribuição geográfica e a densidade populacional da espécie, mas tudo indica que ela já “nasce” ameaçada, por conta do avanço da fronteira agrícola e dos projetos de construção de hidrelétricas na região.

O batismo científico do M. munduruku saiu recentemente em artigo na revista científica de acesso PeerJ. Além de Costa-Araújo, que está ligado ao Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e à Ufam (Universidade Federal do Amazonas), assinam o estudo Izeni Pires Farias e Tomas Hrbek, também da Ufam, entre outros pesquisadores.

Desenho de macaco branco e dourado
Mico munduruku, macaquinho amazônico recém-descoberto no Brasil - Stephen Nash

Em grande medida, os saguis amazônicos ainda são enigmas primatológicos. Ao contrário de seus primos da mata atlântica, que frequentemente se adaptam a qualquer trechinho de floresta urbana e toleram mais ou menos bem a proximidade com seres humanos, os nativos da Amazônia são tímidos, difíceis de observar e pouco estudados, embora alguns até se aventurem em jardins e pomares de localidades próximas da mata.

Antes dos estudos realizados pelos pesquisadores que descreveram a nova espécie, não havia um registro sequer de saguis nessa região, uma área de 55 mil quilômetros quadrados de mata. Isso provavelmente se devia à dificuldade de observar os bichos. “Era um buraco enorme na distribuição do gênero”, diz Costa-Araújo.

Para conseguir achar primatas tão esquivos, é preciso andar pela mata com um amplificador que emite gravações de vocalizações de saguis. Isso faz os animais responderem a esses chamados, permitindo, assim, que os biólogos os localizem.

O método conduziu à observação dos misteriosos indivíduos de cauda branca. Alguns exemplares foram capturados e sacrificados, o que permitiu a análise detalhada de sua pelagem, de fato única, e à coleta de DNA dos macacos.

Os dados genéticos, comparados aos de outros saguis, foram usados para traçar uma espécie de árvore genealógica das espécies amazônicas, o que revelou que a linhagem do interflúvio é mesmo única e pode ser classificada como espécie separada. Embora tenham conseguido fotografar a nova espécie em seu habitat, os pesquisadores acabaram perdendo essas imagens por causa de problemas com a máquina fotográfica, causados pelas difíceis condições do trabalho de campo —daí a ilustração do artista Stephen Nash retratando o M. munduruku nesta página.

“Não sabemos se a diferença de coloração está ligada a coisas como a atração de parceiros no acasalamento. Talvez seja mais provável que ela tenha aparecido por deriva genética [um processo evolutivo aleatório, no qual indivíduos com certas características ficam isolados e se tornam uma nova população]”, diz Tomas Hrbek, que é de origem tcheca, mudou-se para os EUA aos 12 anos e hoje desenvolve suas pesquisas no Brasil.

O nome da espécie homenageia os indígenas mundurucus, cujo território coincide em grande parte com a distribuição do sagui e que têm protestado contra a pressão da agropecuária e das hidrelétricas sobre suas terras. “A escolha do nome foi proposital, já que tanto os mundurucus quanto esses primatas dependem da integridade da floresta para sua sobrevivência”, diz Costa-Araújo.

É praticamente certo que várias outras espécies de primatas ainda não tenham sido identificadas na Amazônia. Como lembra Hrbek, a maior parte das coletas de espécimes foram feitas nas regiões ao longo dos grandes rios, que são de acesso mais fácil. Além disso, essa amostragem nem sempre foi suficiente para levar em conta a variabilidade dentro de cada espécie, o que atrapalha na hora de definir as fronteiras entre espécies.

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