Descrição de chapéu Folha Verão

Infestação de saguis em Ilhabela cria incômodo a turista e risco ambiental

Aparições em restaurantes e pousadas têm sido cada vez mais frequentes no arquipélago paulista

Mariana Zylberkan
Ilhabela (SP)

A diversão tinha hora marcada em um restaurante na praia do Julião, em Ilhabela, no litoral norte de São Paulo. Conforme se aproximava a hora do almoço, aparecia o mesmo sagui entre as mesas, atraído pelos pedaços de comida oferecidos por clientes e funcionários.

Com o tempo, o que era um sagui solitário se transformou em um bando que aparecia na hora de maior movimento do restaurante. Aí a atração virou problema. “Pulavam nos pratos dos clientes, derrubavam os copos e ameaçavam morder. Os clientes reclamaram e tivemos que pedir ao parque estadual para capturá-los”, diz o barman Luan Lopes, 28, que ainda guarda no celular os registros das aparições.

Mais ao norte da ilha, os saguis não foram bem-vindos logo de primeira. A bióloga Silvana Davino nunca flagrou, mas desconfia que foram saguis os autores dos ataques que vitimaram dois papagaios-moleiros, espécie ameaçada de extinção, na área de soltura de fauna silvestre que ela mantém na ilha. 

“Os papagaios apareceram feridos da mesma forma: com um olho roxo e um rasgo no pescoço”, diz Silvana. Os ataques cessaram quando ela capturou um sagui e reforçou as telas dos viveiros.

Por ser exótico à fauna do litoral norte de São Paulo, e não nativo, o sagui tem se proliferado na região com maior rapidez nos últimos anos devido à abundância de alimentos disponíveis e a ausência de predadores naturais.

O resultado é uma série de problemas, que vão de incômodos na interação desses animais com os turistas e a ameaça a espécies de aves que têm os ninhos atacados.

Os animais foram introduzidos na fauna de Ilhabela, onde há maior concentração de ocorrências, por turistas que tratam esses bichos como animais de estimação e os levam para passear nas férias, ou escolhem o lugar para soltá-los, o que é considerado crime ambiental.

“Já contabilizamos de oito a dez bairros onde há relatos de avistamento de saguis. Estimamos que existam cerca de 250 em toda ilha”, diz Marco Aurélio Alves do Nascimento, auxiliar de pesquisa do parque estadual de Ilhabela.

Além de se proliferarem com mais rapidez, as duas espécies que foram introduzidas no arquipélago têm tido a chance de se reproduzirem entre si e dar origem a híbrido até então inexistente na natureza.

O sagui de tufo branco é originário da caatinga nordestina enquanto o sagui de tufo preto é nativo do cerrado. Nos dois casos, a vegetação rasteira e menos abundante quando comparada à mata atlântica propiciou a seleção de saguis mais agressivos.

Por isso, a aparição do híbrido tem sido uma preocupação. Recentemente, integrantes do parque estadual de Ilhabela tiveram confirmação da presença de saguis na praia de Castelhanos, no lado leste da ilha. A região nunca tinha registrado a presença do animal até então. “É um indicativo de que estão inseridos na mata e não apenas no meio urbano. Há a chance de aumentarem a predação de aves silvestres que correm risco de extinção”, diz o auxiliar de pesquisa Marco Aurélio.

A proliferação de saguis na mata atlântica é motivo de mais uma preocupação: a possibilidade de mutação ao se cruzarem com macacos pregos, esses sim nativos. “Não temos um monitoramento efetivo para saber o que está acontecendo”, diz Marco Aurélio.

De acordo com o prefeito de Ilhabela, Márcio Tenório (PMDB), a proliferação dos saguis está controlada no arquipélago. A afirmação, porém, é contestada por integrantes do parque estadual. ​O prefeito promete inauguração de um centro de monitoramento de animais silvestres.

Sem um plano de manejo dessas espécies, cabe aos funcionários do parque a função de capturar os saguis. Os resgates já envolveram saguis eletrocutados em fios de alta tensão, mas a maioria das capturas atende a pedidos de moradores. “Recebemos ligações da dona de um salão de beleza que perdeu clientes por causa dos saguis que apareciam na janela e da dona de uma pousada que não conseguia servir o café da manhã aos hóspedes”, diz Marco Aurélio. 

Quando capturados, os animais são levados aos Cetas (Centro de Triagem de Animais Silvestres), que recebem, tratam e os mantêm em monitoramento por não se tratar de uma espécie nativa. 

O biólogo André Rossi, da ONG Animalia, em São Sebastião, recebe os animais silvestres capturados pela Polícia Ambiental ou por agentes da secretaria estadual de Meio Ambiente em um largo perímetro que vai de Peruíbe, no litoral sul, a Ubatuba, no litoral norte, e inclui o Vale do Paraíba. Ele calcula que tenha recebido 15 saguis ao longo deste ano, o que representa 1,5% do total de animais silvestres que recebeu no período.

Gambás aparecem em condomínios na praia da Baleia

Os saruês, uma espécie de gambá, têm aparecido na ONG do biólogo com mais frequência. Ele conta ter recebido entre 30 ou 40 animais ao longo deste ano, alguns capturados em condomínios de luxo na praia da Baleia, em São Sebastião, no litoral norte.

“Saruê é um marsupial. Parece um rato, mas não é roedor. Ele tem ocupado o nicho do rato doméstico, que se alimenta das mesmas coisas, como restos de comida, e se abrigam em forros de casas”, diz o biólogo. 

Na praia da Baleia, onde o aluguel de uma casa de praia em condomínio luxuoso ultrapassa R$ 1.000 na alta temporada, condomínios têm emitido circulares a moradores alertando para a importância de manter o lixo bem condicionado para reduzir a aparição de saruês.

De acordo com o biólogo, a aparição dos saruês nos condomínios está relacionada à oferta de alimentos e ausência de predador. Além disso, o animal se reproduz com rapidez, cada fêmea é capaz de gerar até 11 filhotes. Por se tratar de um animal silvestre, o saruê é protegido pela lei ambiental que prevê punição a quem matar o animal. 

A Sabaleia (Sociedade Amigos do Bairro Praia da Baleia), que reúne representantes de condomínios na Baleia, foi procurada, mas disse não ter interesse em comentar o assunto. A Prefeitura de São Sebastião também foi procurada, mas não respondeu o pedido de entrevista.


O que fazer se avistar um animal silvestre

  • Em primeiro lugar,  não o alimente e acione a Polícia Ambiental ou a secretaria estadual de Meio Ambiente, órgãos habilitados a capturá-lo
  • Manter animais silvestres em casa sem autorização é crime ambiental, que prevê punição de seis meses a um ano de detenção e multa. É crime também transportar, comercializar, receber e matar esses animais
  • Saguis podem se tornar agressivos a partir dos dois anos de idade, quando atingem a maturidade sexual. É arriscado interagir com eles porque há o risco de mordidas e eles são transmissores de doença, como a raiva. O mesmo vale para os saruês 
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