Galvão, ex-diretor do Inpe, afirma que sistema privado de monitoramento é jogar dinheiro fora

O engenheiro diz que Salles não disponibilizou dados que mostrariam erros do Instituto

São Paulo

Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), diz que o sistema de monitoramento privado de desmate pretendido pelo ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) não tem serventia e só vai gerar mais gasto de recursos.

Galvão participou, nesta sexta (16), de uma palestra na USP intitulada Autonomia e Liberdade Científica.

Ricardo Galvão: a Ciência não é de esquerda nem de direita
Ricardo Galvão: a Ciência não é de esquerda nem de direita - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Segundo o ex-diretor do Inpe, Salles se irritou com o cientista após a participação de ambos no programa Painel, da GloboNews.

"Eu falei: 'Ministro, não se mede a distância Rio-SP com uma régua de 10 cm", disse Galvão. "A copa de uma árvore da Amazônia tem diâmetro de 15 m, 20 m. Para que eu preciso de uma resolução de 2 m para um alerta de desmatamento? Eu preciso de uma resolução de 2 m se eu quiser pagar muito mais para um sistema com maior resolução e maior quantidade de dados."

O ex-diretor relembrou a redução da destruição alcançada em gestões anteriores, com auxílio do Inpe --o desmate caiu cerca de 3,7 vezes, de mais de 27 mil km² (2004) para 7.536 km² (2018).

Houve tentativas de explicar os dados do Inpe para Salles, mas o ministro, segundo Galvão, não entendeu.

Galvão também disse que os cientistas do Inpe não tiveram acesso aos dados que supostamente mostrariam erros nas informações de desmate. Galvão afirmou que os dados foram requisitados, mas que Salles não os disponibilizou.

"Temos certeza que o Prodes vai mostrar um aumento imenso do desmatamento", afirmou Galvão.

O ex-diretor do Inpe também afirmou que ao fim do debate com Salles estava um "tanto triste e angustiado". "Eu tinha ouvido o ministro de estado do governo brasileiro dizer que todas as instituições científicas do Brasil estavam aparelhadas pelo extremismo de esquerda. Eu fiquei triste por ter ouvido dele [Salles]. Coragem, inclusive, de falar em público isso", disse Galvão. 

O pesquisador relembrou de outros momentos da história em que os dados do Inpe foram contestados, como durante o governo Lula. Segundo ele, felizmente, à época, a ministra era Marina Silva (Rede), que após uma reunião com o presidente e o então diretor do Inpe, conseguiu encerrar a questão.  

"As autoridades sempre se incomodam quando os dados dizem aquilo que eles não gostariam de ouvir", afirmou o ex-diretor do Inpe. "Devemos sempre lutar contra os assaltos à ciência, independente da nossa ideologia partidária ou política. Sempre que a ciência for atacada temos que nos levantar e nos colocar contra."

Após citar o embate com Salles, Galvão questionou: "Será que estamos de volta às trevas?".

Em seguida, o próprio Galvão respondeu. "Não, porque a comunidade acadêmica e científica, e o povo brasileiro não se calarão", afirmou, com a voz embargada, o ex-diretor do Inpe.

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