Macron diz que discutir status internacional da Amazônia é 'questão que se impõe'

O presidente francês apresentou nesta segunda (26) plano de ajuda do G7 para incêndios na Amazônia

Paris e Brasília

No mesmo dia em que o presidente da França, Emmanuel Macron, levantou a possibilidade de que houvesse um estatuto internacional para proteger a Amazônia, o governo de Jair Bolsonaro (PSL) decidiu rejeitar uma ajuda de US$ 20 milhões (R$ 83 milhões) do G7, clube de países ricos, para o combate aos incêndios na floresta. 

Segundo o que o líder francês disse na manhã desta segunda (26), ao apresentar o plano de ajuda, a proteção da floresta seria “uma questão real que se imporia se um Estado soberano tomasse medidas concretas que claramente se opusessem ao interesse do planeta”.

O presidente francês Emmanuel Macron durante coletiva em Biarritz no âmbito do G7
O presidente francês Emmanuel Macron durante coletiva em Biarritz no âmbito do G7 - Ludovic Marin/AFP

Macron ressaltou, porém, que a discussão não cabia no âmbito da iniciativa ali anunciada, que prevê o envio de ajuda para o controle das chamas e, posteriormente, investimentos em reflorestamento.

Já na noite desta segunda, contudo, o governo brasileiro disse que a ajuda não seria aceita. Segundo interlocutores do governo Bolsonaro que acompanham a discussão do tema, a oferta de auxílio foi entendida muito mais como uma tentativa de Macron de capitalizar politicamente em cima do tema do que uma iniciativa dos líderes do G7.

Para Macron, o estatuto internacional “é um caminho que permanecerá aberto, nos próximos meses e anos, pois o desafio no plano climático é tal que ninguém pode dizer ‘não é problema meu’”. 

Ele teceu comparação: “A mesma coisa vale para aqueles que têm em seus territórios glaciares ou regiões com impacto sobre o mundo inteiro”.

Macron respondeu à declaração de Bolsonaro de que ele teria manifestado “mentalidade colonialista” ao se referir, nas redes sociais, à situação na Amazônia como crise internacional e emergência a ser discutida no G7 —fórum de que o Brasil não participa.

O brasileiro também disse que seu par francês estava instrumentalizando problema interno do país sul-americano e, depois, que ele potencializava o ódio contra o Brasil.

O chanceler Ernesto Araújo foi outro que reagiu às falas de Macron nesta segunda. Ele disse que o francês não conseguiu emplacar a ideia de uma “iniciativa para a Amazônia” no comunicado final da cúpula do G7 —o texto saiu enxuto e não menciona a floresta. 

“Espera-se da França —e de outros países que porventura apoiem suas ideias— que se engajem com seriedade nessas discussões no âmbito da UNFCCC [Convenção-Quadro das Nações Unidas Sobre Mudança do Clima], ao invés de lançar iniciativas redundantes, com montantes que ficam muito aquém dos seus compromissos internacionais, e com insinuações ambíguas quanto ao princípio da soberania nacional”, afirmou, em nota, o Itamaraty.

 

“Está muito evidente o esforço, por parte de algumas correntes políticas, de extrapolar questões ambientais reais, transformando-as numa ‘crise’ fabricada, como pretexto para introduzir mecanismos de controle externo da Amazônia”, disse Araújo.

O plano divulgado —com endosso de Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido— incluía a liberação dos recursos iniciais para ações de controle das queimadas. A etapa seguinte teria dotação orçamentária de US$ 30 milhões, segundo Macron, a serem destinados a ações de replantio de árvores e a projetos de apoio à agricultura sustentável.

O presidente dos EUA, Donald Trump, não participou da reunião em que foi desenhado o plano. Ao longo do fim de semana, multiplicaram-se relatos de que ele e seus assessores estariam contrariados com a ênfase dada pelo anfitrião ao tema. Os visitantes teriam preferido um foco em questões econômicas e de comércio (como a guerra tarifária entre Washington e Pequim), como tradicionalmente acontece nesses encontros.

Macron buscou minimizar a ausência de Trump, dizendo que ele tinha encontros bilaterais importantes. Afirmou que o colega apoia a iniciativa amazônica.

Ao fazer o anúncio, ao lado do presidente Sebastián Piñera, do Chile (que sediará a conferência anual da ONU sobre o clima), o anfitrião disse que o fogo na floresta afeta diretamente nove países, inclusive a França —a Guiana Francesa é uma unidade administrativa do país europeu— e que, por causa disso, nenhum governo pode querer responder sozinho à emergência, “ainda que seja preciso respeitar a soberania nacional”.

A reação do governo brasileiro diante da gravidade dos incêndios, que vieram a conhecimento do público na semana passada, provocou indignação internacional e uma onda de protestos.

Na noite de segunda, em entrevista a um dos telejornais de maior audiência da França, Macron afirmou que não se deve responsabilizar o presidente brasileiro pela situação na Amazônia “de jeito nenhum”.

Acrescentou, entretanto, que Bolsonaro pode ser criticado por, nas palavras do francês, “ter apoiado projetos econômicos contrários aos interesses da floresta” e não ter sido claro em relação ao compromisso do governo com o replantio de árvores.

“Mandamos mensagem clara [ao Brasil]: ‘Respeitamos sua soberania, mas esse assunto diz respeito ao planeta todo’. Podemos ajudá-los a reflorestar, encontrar meios para o seu desenvolvimento econômico que respeitem esse equilíbrio, mas não podemos deixá-los destruir tudo.”  

O presidente se esquivou de responder a uma pergunta sobre o quinhão de responsabilidade da França no desmatamento da Amazônia pelo fato de importar soja produzida na região em área devastada.

“Não temos responsabilidade, mas cumplicidade”, afirmou, evasivamente.

Situação está sob controle, diz ministro da Defesa

O ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, afirmou nesta segunda (26) que a situação de incêndios na Amazônia está sob controle. “Tem se alardeado que a situação está fora de controle. Não está. Já tivemos picos de queimadas em outros anos muitos maiores”, disse, após reunião com Jair Bolsonaro.

“Em princípio até a meteorologia ajudou.” No encontro, ministros apresentaram ao presidente as informações sobre os primeiros dias da operação de GLO (Garantia da Lei e da Ordem) de combate às queimadas. 

Lucas Neves, Ricardo Della Coletta e Talita Fernandes
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