Descrição de chapéu Financial Times

Desinvestimento em combustível fóssil tem impacto zero no clima, diz Bill Gates

Para o bilionário filantropo, seria melhor investir em tecnologias inovadoras de energia para mudar o mundo

Andrew Edgecliffe-Johnson Billy Nauman
Nova York | Financial Times

Os ativistas do clima estão desperdiçando seu tempo ao pressionar investidores para que vendam suas ações em companhias do ramo de combustíveis fósseis, de acordo com Bill Gates, o bilionário cofundador da Microsoft que é um dos mais proeminentes filantropos do planeta.

Aqueles que desejam mudar o mundo fariam melhor em colocar seu dinheiro e energia no desenvolvimento de tecnologias desordenadoras que desacelerem as emissões de carbono e ajudem as pessoas a se adaptar a um planeta mais quente, disse Gates ao Financial Times.

"O desinvestimento, até agora, provavelmente reduziu as emissões em zero tonelada. Não é como se as pessoas que produzem aço e gasolina ficassem privadas de capital", ele disse. "Não vejo um mecanismo de ação sob o qual o desinvestimento [impediria] as emissões [de] crescer a cada ano. Sou numérico demais".

Bill Gates no Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro de 2019
Bill Gates no Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro de 2019 - REUTERS

Fundos de pensão, a Igreja Anglicana e até mesmo um veiculo de investimento que administra a fortuna petroleira da família Rockefeller são parte do crescente grupo de investidores que abandonaram total ou parcialmente suas posições acionárias em empresas de combustível fóssil, nos últimos anos, conduzidos pela convicção de que as finanças podem ser uma ferramenta para combater a mudança no clima.

Mas Gates questionou a "teoria de mudança" do desinvestimento, argumentando que investidores que desejam usar seu dinheiro para promover progresso encontrariam resultados melhores bancando negócios inovadores como a Beyond Meat e a Impossible Foods, duas companhias que desenvolvem formas alternativas de proteína nas quais ele investiu.

"Quando houver bilhões de dólares apoiando a criação de empreendimentos inovadores de energia, bancando apenas companhias que, caso encontrem sucesso, reduzirão as emissões de gases causadores do efeito estufa em 0,5%, nesse caso poderei ver uma relação de causa e efeito", ele disse.

Os ativistas dizem que os argumentos contrários ao desinvestimento no setor de combustível fóssil ignoram um aspecto mais importante. A ideia não é privar as companhias de capital, mas remover sua licença social de operação, tornando mais fácil para os governos agir quanto a questões climáticas ao quebrar o domínio das companhias de combustível fóssil sobre os políticos, de acordo com a 350.org, uma organização ativista americana na área do clima, que obteve o compromisso de 1.100 mil investidores de que reduzirão ou eliminarão seus investimentos em combustível fóssil.

A teoria se baseia no movimento que promoveu o desinvestimento na África do Sul na década de 1980, de acordo com Richard Brooks, coordenador de campanhas de desinvestimento na 350.org. "Estudamos campanhas que criaram mudança real", ele disse. "A derrubada do sistema do apartheid estava ligada ao movimento de desinvestimento. Ele não foi o único fator, mas certamente contribuiu".

A Fundação Bill & Melinda Gates na terça-feira divulgou o relatório "Goalkeepers", que acompanha o progresso do planeta rumo ao cumprimento das Metas de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Na reunião da Assembleia Geral das Nações Unidas na semana que vem, os líderes mundiais prometerão atingir essas metas até 2030.

No entanto, Gates disse que "não estamos nem perto de melhorar com rapidez suficiente para atingir essas metas... É uma terrível injustiça que as pessoas que mais sofrem sejam os agricultores mais pobres do planeta. Eles nada fizeram para causar a mudança do clima, mas, porque dependem da chuva para ganhar a vida, estão na linha de frente do combate contra ela". 

Depois de falar ao Financial Times, a revista The New Yorker reportou que ele fez uma doação de US$ 2 milhões ao Media Lab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) a pedido do pedófilo condenado Jeffrey Epstein.

Gates recusou diversos pedidos de uma entrevista para esclarecimento. Um porta-voz disse que "Epstein foi apresentado a Bill Gates como uma pessoa interessada em ajudar a promover a filantropia. Ainda que Epstein tenha buscado contatos agressivamente, qualquer relato de uma parceria de negócios ou relacionamento pessoal entre os dois simplesmente não é verdade. E qualquer afirmação de que Epstein controlasse qualquer doação programática ou pessoal de Bill Gates é completamente falsa".

Tradução de Paulo Migliacci

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