Simulações apontam que petróleo veio do alto-mar, longe da costa do Nordeste

Óleo deve ter sido derramado a pelo menos 400 km, afirmam três pesquisadores

Simon Ducroquet
São Paulo

Dois pesquisadores especializados em dinâmica de correntes marítimas fizeram simulações de computador para chegar a resultados que indicam que a origem das manchas de óleo nas praias do Nordeste está no alto-mar, a pelo menos 400 km da costa.

Um deles é Ilson Silveira, professor de oceanografia física da USP que estuda circulação oceânica. O outro é o pesquisador Fernando Túlio Camilo Barreto, vinculado ao INPE, que como parte de estudo de doutorado desenvolveu um modelo de simulação que estima o deslocamento do óleo na água levando em consideração a composição química dos elementos, as correntes marítimas, o vento e as ondas. Barreto foi procurado pela Marinha para ajudar na localização da origem das manchas através de suas simulações.

Essas simulações levam em consideração a atuação de grandes correntes marítimas no oceano Atlântico. A principal delas é a Corrente Sul Equatorial, que circula no sentido leste-oeste, ou seja, a partir da costa da África em direção à costa do Nordeste. O gráfico abaixo mostra como essa corrente se une a uma grande corrente que circula rente à costa brasileira, chamada Corrente Norte do Brasil.

Ilson Silveira, da USP, estimou no simulador qual seria a trajetória de objetos à deriva no mar próximo à costa do Nordeste, ou seja, a menos de 50 km. O resultado indicou que eles chegariam à costa em pouco tempo, em locais muito próximos entre si, e se deslocando em direção ao Rio Grande do Norte, acompanhando a Corrente Norte, que é muito forte.

Ele testou então, com sua equipe, o que aconteceria se os objetos estivessem no alto-mar, a cerca de 1.250 km de distância. O resultado foi esta movimentação:

 

Simulação: Dante Napolitano e Iury Simões

O padrão de aparecimento sugerido pela simulação é semelhante ao que foi evidenciado nas praias do Nordeste a partir do começo de setembro, segundo registro do Ibama:

 

Silveira pondera que esse resultado é apenas uma simulação feita no âmbito acadêmico e não leva em consideração alguns fatores como a composição química do óleo e o efeito dos ventos.

Por outro lado, a simulação de Fernando Barreto chegou a resultados mais precisos, porque ela leva em consideração a composição química da água e do óleo. Além disso, por estar colaborando com a Marinha, ele teve acesso a dados mais precisos que simulam a movimentação das correntes. Segundo ele, ao simular a origem do vazamento a cerca de 400 km da costa, próximo à latitude de 9º ​ao sul do Equador, é possível observar um padrão de dispersão de óleo semelhante ao observado nas praias.

Barreto não pode, por enquanto, divulgar imagens da simulação, porque estão sob sigilo a pedido da Marinha. Ele também pondera que as simulações estão baseadas em dados de monitoramento das correntes que poderiam ser mais precisos, como os que estão disponíveis na Bacia de Campos, na região Sudeste, onde o interesse é maior pela grande presença de plataformas de petróleo. 

Mesmo assim, ele afirma que é pouco provável que as manchas tenham se originado próximos à costa do Nordeste, porque o vento é muito forte e o espalhamento seria muito mais contido do que o que foi observado até agora.

Carlos Teixeira, oceanógrafo e professor do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará, também diz que, baseado nas correntes marítimas da região, a hipótese mais provável é que o óleo tenha vindo de uma região entre 500 e 1000 km da costa dos estados de Pernambuco e Paraíba. 

Análises feitas tanto pela Petrobras quanto pela Universidade da Bahia já comprovaram que o petróleo não é brasileiro.

Veja aqui os locais afetados.

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Colaborou Nicola Pamplona, do Rio de Janeiro
 

 

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