Hidrelétricas na Amazônia causam mortandade maciça de árvores adaptadas à vida submersa

Obras interrompem fluxo natural dos rios, aponta estudo com base na usina de Balbina

São Carlos (SP)

As árvores que se adaptaram à vida submersa durante os longos meses das cheias na Amazônia podem sofrer mortandade maciça quando hidrelétricas interrompem o fluxo natural dos rios, indica um novo estudo. Junto com outras pesquisas recentes, o trabalho mostra que não se pode negligenciar o impacto da construção de usinas sobre os ambientes da região, mesmo quando eles não são afetados diretamente por uma nova barragem.

“Quando eu estava na faculdade, ainda ouvia dizerem que as hidrelétricas são uma fonte de energia limpa, mas a situação não é tão simples assim”, diz Angélica Faria de Resende, pesquisadora de pós-doutorado da Embrapa Amazônia Oriental e uma das autoras do novo estudo.

“Os grandes rios amazônicos estão todos intimamente ligados aos pulsos de inundação, e está em tempo de repensar essa questão delicada considerando a quantidade de projetos de novas usinas que existem na região.”

Os dados que acabam de ser publicados por Resende e seus colegas do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, sediado em Manaus) na revista científica New Phytologist dizem respeito a matas afetadas pela Usina Hidrelétrica de Balbina, no rio Uatumã (AM).

Construída nos anos 1980, Balbina alterou, por exemplo, as subidas e descidas do rio nos chamados igapós de águas pretas, florestas inundáveis que podem ficar submersas até dez meses por ano.

Nesses locais, é comum encontrar grandes concentrações de macacarecuias ou cuieiras (Eschweilera tenuifolia), árvores que alcançam 20 metros de altura e diâmetro de dois metros. Ao longo de sua trajetória evolutiva, elas adquiriram uma série de adaptações “anfíbias”, como as sementes com camadas porosas e capacidade de repelir a água, o que lhes permite flutuar durante a cheia.

“Mas ninguém conhece ainda os detalhes fisiológicos que possibilitam essa sobrevivência tão longa debaixo d’água”, conta Resende. Frutos e sementes da planta servem de alimento a lagartas, aves e macacos, entre outros animais.

Os membros do grupo compararam as árvores da espécie na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, encontradas na região diretamente influenciada pela represa de Balbina, com as macacarecuias do Parque Nacional do Jaú, também no estado do Amazonas e em igapós de águas pretas, mas sem impactos ambientais como os da hidrelétrica.

A ideia era enxergar como a presença da barragem afetou a trajetória de vida das plantas ao longo das últimas décadas. Para montar esse quadro, a equipe contou com a ajuda do orientador de doutorado da pesquisadora, o alemão Jochen Schöngart, do Inpa, que é dendrocronologista (ou seja, especialista em usar o padrão de crescimento das árvores para estimar com bastante precisão a idade delas, de forma a correlacioná-la com os anos do nosso calendário).

Obtendo amostras do tronco das árvores, os pesquisadores conseguem identificar anéis de crescimento, formados por causa da sequência anual de cheias e secas, e contá-los para saber quantos anos tem cada planta.

Somando as amostras dos dois locais, os pesquisadores estudaram 93 árvores vivas, com diâmetros entre 10 cm e 1,75 m. As árvores mais antigas tinham pouco menos de 500 anos de idade (com exceção de uma, na reserva do Uatumã, que passou dos 800 anos). Em média, o crescimento anual, entre 2 mm e 2,3 mm em média, não diferiu muito entre os lugares.

Mas a situação posterior a 1983, quando a hidrelétrica começou a ser construída, mostra diferenças muito significativas entre as regiões. No Parque Nacional do Jaú, o período teve algumas fases de mortalidade esparsa das árvores, provavelmente associadas a extremos climáticos.

Por outro lado, na área sob a influência de Balbina, quase 90% da mortalidade da espécie se deu após o início das obras na barragem. E sete em cada dez árvores vivas apresentam sinais de supressão de seu crescimento nesse mesmo período.

Ainda não está totalmente claro o porquê de isso acontecer. O que é indiscutível, diz Resende, é que as árvores adaptadas à vida no igapó perderam a previsibilidade dos pulsos anuais das cheias. Além de vir água demais ou de menos, dependendo das necessidades da usina, não há padrão anual algum, o que complica muito a vida das plantas.

Em situações mais secas, por exemplo, acumula-se mais matéria vegetal ressequida, o que aumenta o risco de incêndios florestais que antes quase não ocorriam. Outra possibilidade é o embolismo: a árvore tenta puxar água do solo pelas raízes, mas ela não está disponível na quantidade necessária, levando ao colapso dos vasos que carregam o líquido no interior da planta.

Outros estudos feitos pelo grupo mostram que os efeitos da usina podem alterar a germinação de plantas mais jovens e toda a comunidade de espécies que antes era típica dos igapós. É muito provável que isso também acabe afetando os animais que dependem de tais árvores.

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