Áreas urbanas do Mediterrâneo, dos EUA e do Brasil podem ficar 5°C mais quentes até 2100

Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia correm mais risco de sofrer com temperaturas elevadas à noite

São Carlos (SP)

Simulações computacionais cujo objetivo é estimar como ficará o clima das cidades do planeta até o fim deste século trazem notícias pouco animadoras para regiões como a bacia do Mediterrâneo, o interior norte-americano e, no Brasil, trechos do Centro-Oeste e da Amazônia. As áreas urbanas desses locais podem ficar 5 graus Celsius mais quentes até 2100 ou até mesmo superar essa marca.

Tais estimativas, que variam de acordo com diferentes cenários possíveis de emissões de gases-estufa (que retêm o calor perto da superfície da Terra), acabam de ser publicadas na revista científica Nature Climate Change. A equipe liderada pelo pesquisador chinês Lei Zhao, da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign (EUA), estima que, mesmo com uma trajetória de redução dessas emissões, a média do aquecimento urbano será equivalente a 1,9 grau Celsius no fim do século 21; sem cortes de gases-estufa, a média do aumento de temperatura será de 4,4 graus.

Zhao e seus colegas explicam que a maioria dos modelos de computador usados para prever o futuro do clima global acaba deixando de lado as especificidades dos ambientes das cidades. “Essencialmente, eles são projeções de um clima não urbano”, escrevem os cientistas. Para escapar dessa limitação, eles usaram como base o único modelo que leva em conta parâmetros específicos de fluxos de energia, temperatura da superfície e do ar que já foram testados em análises climáticas urbanas.

A metodologia adotada pela equipe começa em 2006 (o que permite usar os dados disponíveis sobre a situação climática do passado recente para “alimentar” os cálculos) e prossegue até 2100, fazendo projeções sobre diferentes épocas do ano e sobre a temperatura média, a máxima durante o dia e a máxima durante a noite.

Tanto no período noturno quanto no diurno, a situação prevista será particularmente tórrida na América do Norte, em boa parte da Europa, no Oriente Médio, na Ásia Central e no noroeste da China. Já o interior da América do Sul — com destaque para áreas que correspondem a estados como Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia — corre mais risco de sofrer com temperaturas elevadas à noite.

Incêndio ilegal da Amazônia, na região de Mato Grosso, em agosto de 2020 - AFP

A umidade relativa do ar também deve ficar mais baixa em quase todas as áreas urbanas da Terra conforme o século avança. E a sensação de calor, medida de acordo com duas metodologias diferentes, provavelmente será ainda maior do que a sugerida apenas pelo aumento direto de temperatura, afirmam os pesquisadores.

“A situação projetada para o Centro-Oeste e a Amazônia sem dúvida é preocupante. Ela provavelmente está ligada não apenas ao aumento da temperatura global como também ao efeito da continentalidade”, afirma o climatologista Alexandre Araújo Costa, professor da Universidade Estadual do Ceará, referindo-se ao fato de que, por conta da distância em relação ao oceano, áreas do interior dos continentes tendem a apresentar climas mais extremos.

“Agora, o que me pareceu mais pesado do que qualquer outra coisa foi esse cozido de Mediterrâneo que vemos nas projeções”, destaca ele. “Trata-se de uma região densamente povoada, e o verão europeu já é complicado em condições normais. Uma onda de calor num cenário como esse é um desastre. A tragédia de 2003 [onda de calor que matou 70 mil pessoas na Europa, em especial na França] vira uma coisa pequena.”​

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