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Jornalista e roteirista, é autora do livro "Almanaque da TV". Escreve para a Rede Globo.

Descrição de chapéu

Tenho gratidão imensa por Elizeth Cardoso, a cantora preferida do meu pai

Sempre que ouço, me sinto novamente a bordo de um antigo Passat amarelo mostarda

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“E eu tô lá. E eu tô lá. Tô no meio da moçada, ninguém sabe que eu tô lá.” Sempre que ouço esse samba favorito, me sinto novamente a bordo de um antigo Passat amarelo mostarda. Sem tirar os olhos da estrada, meu pai aumentando o volume do toca-fitas. E a voz de Elizeth Cardoso cruzando a pista, atravessando o tempo.

“É a Divina. Sabia que esse é o apelido dela? Ouve só que beleza...” E assim íamos, a caminho de qualquer lugar. Numa espécie de educação musical sobre rodas. Quilômetros percorridos na companhia daquele timbre inconfundível. Clara Nunes, Maria Bethânia e Elis Regina também pegavam carona, mas havia um acordo tácito entre passageiros: quem sentava na frente era Elizeth.

Por algum motivo que até hoje me escapa, a casa da minha infância era silenciosa. Talvez por isso nossos saraus fossem sempre automotivos, tendo papai na curadoria das fitas cassete que abarrotavam o porta-luvas. Algumas sem caixa, outras mastigadas. As canções, porém, escritas numa caligrafia impecável. “Chega de Saudade”, “Manhã de Carnaval”, “Último Desejo”.

Elizeth seguia comigo mesmo depois que eu era deixada na escola, graças ao jingle de um famoso iogurte que todas as crianças cantavam no recreio. “Eu bebo Bliss e estou vivendo / tem gente que não bebe e está perdendo.” A ficha demorou, mas enfim caiu para os pais dos amiguinhos: era adaptação de “Eu Bebo Sim”, uma divertida e incorreta ode à manguaça, eternizada pela cantora.

Publicada neste domingo, 18 de julho de 2021 - Marcelo Martinez/Folhapress

Quando soube da indignação geral, papai resolveu agir de forma drástica. Gravou uma fita cassete extra, apenas com hits engraçados da Divina, entre eles “Tome Continha de Você” e “Vedete de Fogão”.
“É preciso ter senso de humor, filhinha”, ele dizia aumentando ainda mais o volume, agora no nosso Voyage azul.

Os anos correram. Vieram outros carros, outros sistemas de som. Das fitas passamos aos CDs, mas papai morreu sem ouvir Elizeth por bluetooth. Um mês depois, eu estava tão melancólica que cruzava a cidade em silêncio. Incapaz de ligar o rádio. Até que fui ao cemitério, resolver uma questão. E fiz a descoberta mais inacreditável de todas: a sepultura dele ficava ao lado da dela.

Naquele dia, outros motoristas me viram dar uma choradinha ao volante, mas eu cantarolava também, invadida por uma gratidão imensa. Papai tinha companhia em seu sarau. Elizeth também tava lá.

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