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Por que reduzir o consumo de carne é a coisa mais certa a fazer

Diminuição ajuda a preservar a própria saúde, o bem-estar animal, a Amazônia e o clima da Terra

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O desmatamento continua em alta na Amazônia brasileira. Cresceu 9,5% entre 2019 e 2020, chegando a 11.088 km2. São mais de 720 milhões de árvores abatidas em 12 meses.

É como se cada brasileiro derrubasse 3,5 árvores com as próprias mãos. Quase toda essa madeira e um número astronômico de raízes, folhas, flores e frutos vão virar fumaça ou apodrecer e, assim, ajudar a piorar o aquecimento global.

Por trás dessa destruição estão grileiros, madeireiros, pecuaristas e fazendeiros, e mais da metade do desmatamento é ilegal. A maior parte vira pasto para gado. Mais de 80% da carne bovina se destina ao mercado interno, não à exportação.

Simplificando muito, seu churrasco é o motor da devastação da Amazônia e dá contribuição importante para a crise climática planetária. Variam muito as projeções sobre quanta emissão de carbono resulta do desmate induzido pela pecuária somado à produção de metano no rúmen dos bovinos, mas nenhuma estimativa é pequena.

Fazenda fornecedora de gado a grandes frigoríficos, na Amazônia (Pará) - Christian Braga/Greenpeace

O escritor e ensaísta Jonathan Safran Foer, que participou sexta-feira (4) da Flip, aponta no livro “Nós Somos o Clima” dois extremos: 14,5% e 51% de contribuição da pecuária para a crise do clima. O primeiro número é da FAO (2006), órgão das Nações Unidas para agricultura, e o segundo, da ONG Worldwatch Institute (2009).

Foer defende que o segundo dado é mais correto. Não cabe entrar aqui no mérito da discussão metodológica, mas a discussão se mostra ainda mais relevante no Brasil, por causa do vínculo entre gado de corte e desmatamento.

O autor propõe que cada pessoa ajude a desacelerar o aquecimento global e a desastrosa mudança do clima abrindo mão de produtos animais nas duas primeiras refeições (daí o subtítulo do livro, “Salvar o Planeta Começa no Café da Manhã”). Isso reduziria em 2/3 as emissões produzidas pela dieta.

Tenho problemas com conselhos para a ação individual desde o bom-mocismo de Al Gore no filme “Uma Verdade Inconveniente”. Andar de bicicleta, trocar lâmpadas da casa, usar etanol em vez de gasolina —tudo isso faz sentido, mas equivaleria a economizar uma gota do oceano de petróleo queimado no mundo.

Diminuir o consumo de carne são outros 500. Se aderir ao vegetarianismo estiver fora do radar, a redução proposta por Foer parece boa solução de compromisso, mesmo porque a mudança da dieta faz sentido também por outras razões.

Éticas, antes de mais nada. A criação de animais, por melhor que seja, sempre envolve sofrimento, em maior ou menor grau. Quem já viu um caminhão cheio de bois e vacas sabe disso, nem precisa visitar abatedouros, galinheiros e pocilgas industriais.

Sobram, ainda, razões de saúde. Um relatório sobre impactos da mudança do clima publicado quarta-feira (2) pelo periódico médico britânico The Lancet estima que 990 mil pessoas morrem no mundo, todos os anos, por doenças associadas ao consumo excessivo de carne —e esse número aumentou 72% desde 1990.

No Brasil, o hábito carnívoro seria responsável por 38 mil mortes anuais. Pode parecer pouco, diante dos 175 mil óbitos acumulados na epidemia pela incompetência e pelo negacionismo criminoso do governo Jair Bolsonaro, mas cada morte evitável conta.

Mudanças de hábito são custosas, e o livro de Foer oferece um tratado inteiro sobre isso. No entanto, é o caso de parar para pensar: quais outras atitudes políticas individuais é possível tomar que tenham impacto real sobre a própria saúde, o bem-estar animal, a preservação da floresta amazônica e a mudança perigosa do clima?

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