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Bololô

Como era antes de tudo? Do que a gente falava?

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Durante a semana sinto o acúmulo de embrulhos, mas é no domingo que me tranco no banheiro, corro pelo jardim do prédio na esperança de que saia pelo suor, me escondo embaixo do varal de roupas ainda pingando de frente pra janela com o vento mais forte, deito no escuro no chão do quarto da minha filha, procuro silêncios para tentar aquietar o bololô.

Cheguei a exibir a goela para o ralo da pia, e nada. O que quer sair, e por onde? Só consigo dizer verbos sem sujeito: sobe, desce, azeda, arrepia, congela, treme, apavora, esmaga.

Sei que é chato, mas preciso contar um sonho. Eu arrancava da garganta uma minhoca infinita e espessa, parecia feita de barro e chiclete. E puxava e puxava e puxava. Enquanto me ocupava, em vão, de desenrolar essa angústia muda, olhava para a minha amiga Patrícia, que se arrumava para ir a uma festa.

De repente, ela se jogou em seu sofá, falou “preguiça de sair” e veio me ajudar a puxar o troço da minha boca.

Como eu fui feliz na época em que conheci a Patrícia e ela morava perto de mim, na Pompeia, e a gente saía e não saía e dava festas e desistia de festas e encontrava pessoas e se desapaixonava delas e tudo era urgente e nada realmente importava tanto.

Voltando ao sonho, ela começou a colocar pedacinhos de bacon em uma sopa e falou: “Quer? Esse bacon não faz mal”. Percebi que o tobogã de minhoca estava chegando ao fim e cuspi um vestido azul escuro.

Ela achou que ficaria bom se eu o usasse com um tênis. Senti fome como se tivesse me curado, finalmente, de uma úlcera centenária.

Acordei com vontade de repetir aquelas palavras de um idioma pertencente a outro mundo, a outra era. “Preguiça de sair”, “esse bacon não faz mal”, “vestido com tênis”. E também: “Esqueci os chinelos”, “Vamos a um café?”, “Levo alguma coisa?”. Ou ainda: “Que beijo bom!”, “Conhece esse livro?”, “Vamos pra Buenos Aires?”.

Desde que perdemos as horas banais e as horas extraordinárias, desde que o meu enredo mais reles virou uma língua morta, eu me pergunto quantas palavras tinha o português. Há quanto tempo nos comunicamos com as mesmas três frases carregadas de inconformismo e tristeza, mesmo sabendo que elas não dizem mais nada?

Como era antes de tudo? Do que a gente falava? Como 40 anos foram parar assim isolados na minha faringe, caminhando desistentes em pigarros e refluxos?

Agora, quando o bololô senta a sua bunda de elefante no meu peito, quando me atropela muito rápido e não sei se sou o corpo doendo ou a poeira que ficou pra trás, quando ele faz seu trânsito barulhento de inquietações nas minhas costas, eu falo, sozinha e bem alto, qualquer coisa da vida de antes e de sempre.

Digo: “Será que vou de sapato vermelho?”, ou exclamo: “Prefiro tomar chuva a carregar esse trambolho!”. E peço: “Deixa a barba rala porque eu gosto de lamber”, e me declaro: “Não está na hora, mas eu te amo”. E, enquanto não der para salvar o domingo, ao menos eu me mantenho viva para quando der.

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