Descrição de chapéu Análise

Silvio Tendler ampliou discurso histórico do cinema brasileiro

Documentarista completa 50 anos de atividade e estreia nesta quinta (21) 'Dedo na Ferida'

O cineasta Silvio Tendler, em foto de 2013 - Zulmairir Rocha - 9.out.2013/UOL

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AMIR LABAKI

Silvio Tendler completa meio século de atividade como um dos mais marcantes e prolíficos documentaristas da história do cinema brasileiro.

Infelizmente, seu gesto fílmico inaugural, uma entrevista em 1968 com o líder da Revolta da Chibata, o "almirante negro" João Cândido (1880-1969), nem chegou a se tornar filme, pois seus negativos foram queimados em 1969 a partir do recrudescimento da repressão pela ditadura militar.

A obra de Tendler foi fundamental para a afirmação do documentário de longa-metragem no Brasil, duas décadas antes da consolidação do formato em novo patamar com a eclosão da revolução digital na década de 1990.

Após retornar em 1976 ao país, depois de passar por Chile e França, Tendler fez em oito anos três filmes de imenso impacto: "Os Anos JK - Uma Trajetória Política" (1980), "O Mundo Mágico dos Trapalhões" (1981) e "Jango" (1984).

Por um lado, o trio demonstrou a existência de um público para produções não ficcionais brasileiras --chegou a alcançar 1 milhão de espectadores em salas. Simbolicamente, Tendler antecipou aqui em quase uma década o papel de desbravador do mercado representado por Michael Moore nos EUA com "Roger & Me" em 1989.

Por outro, ainda em plena ditadura, seus documentários iniciais ampliaram corajosamente o discurso histórico do cinema brasileiro. "Os Anos JK" apresentavam um balanço positivo do mais bem-sucedido governo democrático do período 1945-1964, celebrando uma personagem maldita para os militares.

"Jango", por sua vez, a um só tempo recuperava para as novas gerações o processo de deposição do último presidente civil daquele ciclo democrático, João Goulart, e homenageava o líder trabalhista falecido no exílio.

Já "O Mundo Mágico dos Trapalhões" ousava retratar em filme o mais popular quarteto humorístico da história de nossa TV e de nosso cinema, numa época de rígidas hierarquias culturais.

Formado assumidamente tendo por mentores um triunvirato de documentaristas socialistas formado por Chris Marker, Joris Ivens e Santiago Alvarez, Tendler desenvolveu uma variada filmografia, estruturada de maneira geral a partir de narrações em off, depoimentos inéditos e materiais de arquivo. São mais de 70 títulos, entre longas, médias e curtas-metragens, além de produções para a televisão.

Grosso modo, sua produção se divide entre retratos históricos e ensaios militantes.

Os primeiros buscam sempre uma visão orgânica entre o personagem e sua circunstância histórica: políticos como Carlos Marighella e Tancredo Neves, poetas como Castro Alves (com inédita pegada ficcional) e Ferreira Gullar, cientistas sociais como Josué de Castro e Milton Santos, cineastas como Glauber Rocha e, em pré-produção, o cubano Santiago Alvarez.

A vereda do ensaísmo crítico impôs-se sobretudo a partir de meados da década passada, tendo por vetor temático a denúncia do capitalismo globalizado: as duas partes do ecológico "O Veneno Está na Mesa" (2011 e 2014), "Privatizações: A Distopia do Capital" (2014), "Dedo na Ferida", lançado nesta quinta (21) em São Paulo, sobre a radicalização mundial das desigualdades sob o império contemporâneo do capital financeiro.

Cinquenta anos passados, Tendler anuncia agora, aos 68 anos, uma guinada autobiográfica, com a produção de "Nas Asas da PanAm".

Nenhum surpresa: esta já se anunciava em duas obras mais filosóficas de sua filmografia recente, "Utopia e Barbárie" (2009) e o ainda inédito "Alma Imoral", uma jornada global pelo existencialismo judaico guiada pelo rabino Nilton Bonder. É chegada a hora de o homem da câmera voltá-la para si mesmo.

Amir Labaki
Cineasta, crítico de cinema e fundador do festival É Tudo Verdade

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