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Turnê em que Roger Waters protestou contra Bolsonaro vira filme

O ex-Pink Floyd se surpreendeu ao ser vaiado por parte da plateia, após ter mostrado no telão a inscrição #EleNão

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Rio de Janeiro

Roger Waters: Us + Them

Avaliação: Ótimo
  • Preço: a partir de R$ 11,90 nas plataformas digitais
  • Direção: Sean Evans e Roger Waters

No dia 9 de outubro de 2018, Roger Waters, ex-Pink Floyd, se surpreendeu ao ser vaiado por parte da plateia no Allianz Parque, em São Paulo. Logo depois do primeiro turno da eleição presidencial brasileira, ele mostrou no telão a inscrição “#EleNão” e alguns na pista chegaram a xingar o artista de forma violenta.

É mais ou menos este show que agora vira o recém-lançado filme “Us + Them”, com direção do músico e de Sean Evans. No filme, gravado na Europa, há uma estrutura de telões que desce até a cabeça dos espectadores na metade final do show, o que não aconteceu no Brasil.

O show começa com “Breathe”, de “Dark Side of the Moon”, de 1973, que será apresentado quase integralmente. Após “One of These Days, um relógio surge no telão, óbvia senha para “Time”. A música é um grito à juventude e também crítica ao movimento hippie, alertando o ouvinte para se mexer antes que a vida acabe, como em “ninguém avisou quando correr/ você perdeu o tiro de partida".

No palco, Waters mostra que é ele quem faz o tique-taque com seu baixo, uma curiosa surpresa. Ele assume o vocal e a plateia aparece extasiada, cantando junto. Na sequência, vêm “Breathe (Reprise)” e “The Great Gig in the Sky”, todas entrelaçadas, como no primeiro lado do disco.

Em “Welcome to the Machine”, do álbum “Wish You Here”, de 1975, Waters troca seu baixo por uma guitarra e acusa a máquina da sociedade de esmagar nossos sonhos, conceito largamente presente em diversas músicas do Pink Floyd.

Depois de três boas canções de seu último trabalho solo, “Is This the Life We Really Want?”, o tocante dedilhado de “Wish You Were Here” retoma o foco para o Pink Floyd. A plateia canta todas as sílabas, mas não se ouve. A opção dos diretores foi a de privilegiar os instrumentos e microfones dos músicos, e nenhum ruído vaza do público. Isso torna o som mais profissional, mas certamente um pouco mais frio para o que se espera de um show ao vivo.

Um helicóptero “sobrevoa” o estádio. É só um facho de luz e o barulho da aeronave, mas qualquer fã já sabe o que vem. É o prólogo de “The Happiest Days of Our Lives”, que por sua vez é o prólogo para “Another Brick in the Wall, Part 2”, do disco “The Wall”, de 1979.

As crianças cantando e o impressionante clipe em que elas caminham na escola até serem moídas como salsichas aqui são substituídas por meninos e meninas atuais, escolhidas com a ajuda de programas sociais nas cidades onde os shows acontecem. No palco, algumas aparecem como os prisioneiros de Guantánamo, com sacos pretos nas cabeças. Muitas outras sobem no palco para uma coreografia de resistência.

Uma plataforma desce no meio do estádio e a estação Battersea, capa do álbum “Animals”, de 1977, parece surgir das entranhas da terra. Um porco voador, como na época do lançamento do disco há mais de 40 anos, singra pelos ares.

A banda ataca com “Dogs” e, em seguida, “Pigs”, o animal que representa a classe política na fábula do Pink Floyd. “Porcos dominam o mundo", diz a placa que Waters levanta. Em seguida, “fodam-se os porcos!", enquanto todos tomam champanhe no palco.

A música começa com o presidente americano Donald Trump estampado no telão, no exato momento em que Waters canta o primeiro “porco” da letra. O músico mostra os dedos do meio de forma raivosa.

A fortuna de Trump faz a ponte para o lado B de “The Dark Side of the Moon”, no que será a apoteose do show, começando com o hit “Money”. A seguinte é a bela “Us and Them”, que dá nome ao filme. “Brain Damage” e “Eclipse” se encadeiam, como no disco. Uma pirâmide de luz colorida explode em três dimensões na tela.

Ao fim, Waters faz ainda um breve discurso para a plateia. No final dos créditos, há um vídeo com crianças brasileiras nos bastidores do show carioca de 2018. “Eu só queria ver um pouco mais de amor”, elas cantam. E aí, sim, fim.​

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