Descrição de chapéu karl marx

Livro mostra revoluções do último milênio

Historiador busca combater ideia de que séculos passados foram carentes de transformações

Reinaldo José Lopes
São Carlos

É comum que as pessoas enxerguem a Idade Média, ou mesmo qualquer época anterior ao século 20, como uma pasmaceira perpétua, na qual quase nada mudava de um ano para outro. Tal visão é um erro, e dos grandes, diz o historiador britânico Ian Mortimer em seu novo livro, apropriadamente intitulado “Séculos de Transformações”.

Em meio a fios, em uma grande sala, duas pessoas trabalham. Os amontoados de fios conectados lembram os que eram usados em centrais telefônicas antigas
Eniac, o primeiro computador digital de grande escala - Wikimedia Commons

Pense nos papas, por exemplo. A tradição católica afirma que o apóstolo Pedro, mais importante seguidor de Jesus, foi o primeiro deles. Mas o fato é que a jurisdição efetiva do Vaticano sobre todos os cristãos da Europa Ocidental só se consolidou mais de mil anos depois da morte do discípulo de Cristo, quando o italiano Hildebrando de Sovana se tornou o papa Gregório 7º no ano de 1073.

Disciplinador e obstinado, Gregório bateu o pé para que todos os sacerdotes seguissem a regra do celibato (antes, padres casados abundavam em lugares como a Inglaterra) e fez com que até o imperador Henrique 4º, soberano do Sacro Império Romano-Germânico, fosse lhe pedir perdão de joelhos em meio a uma nevasca no castelo de Canossa, no norte da Itália. Esse pontífice basicamente definiu o que significaria ser papa pelos séculos seguintes.

E, se você nunca ouviu falar num sujeito chamado Pedro Abelardo (1079-1142), o que é bem provável, agradeça a ele por promover uma fundamental injeção de racionalidade e ceticismo nos debates filosóficos e religiosos da Idade Média, ideais que acabariam ajudando a ciência ocidental a florescer nos séculos seguintes.

DO 11 AO 20

Conhecido no Reino Unido por escrever uma espécie de “guia de sobrevivência para o viajante do tempo” que conta detalhes sobre o cotidiano medieval, Mortimer dedica sua análise aos últimos dez séculos de história do Ocidente, do século 11 ao 20. Cada capítulo lista as principais transformações de cada época e elege o vulto histórico que mais teria tido impacto sobre a vida de seus contemporâneos.

É óbvio que escolher os itens e pessoas mais relevantes inclui uma dose considerável de subjetividade. O autor conta que seus colegas historiadores ficaram chocados quando ele não incluiu Leonardo Da Vinci entre os maiores “influenciadores” dos séculos 15/16 nem Mozart no século 18.

O motivo para relegar esses figurões às notas de rodapé, entretanto, é simples: em vida, Da Vinci foi só um artista talentoso que desenhou aparelhos os quais nunca foram sequer testados numa oficina real, enquanto as óperas de Mozart não inspiraram revoluções ou novas tecnologias —ao contrário do que aconteceu com a filosofia de Abelardo.

Outra tarefa do livro é tentar eleger a época com transformações mais impactantes. Sem grandes surpresas, o século passado ganha, mas o século 19 não fica muito atrás, e há algumas surpresas —ao menos na Europa, a maior queda proporcional na taxa de homicídios aconteceu no século 16.  

SOMBRA DO FUTURO

Depois de seu passeio por mil anos de história, Mortimer não resistiu à tentação de brincar de futurólogo. Considerando o que já sabemos sobre as grandes transformações dos séculos passados, o que esperar das possíveis mutações do século 21?

Nesse ponto, o escritor britânico ecoa muitas das principais preocupações dos economistas e ambientalistas atuais. Para ele, o ponto central é que o século 20 foi atípico por ter sido uma época de energia abundante e barata e de relativa redução das desigualdades sociais mundo afora durante várias décadas.

Não devemos esperar que esses elementos continuem valendo —e, aliás, esses pontos positivos já começaram a ser revertidos, diz ele.

Quanto à desigualdade social, o historiador concorda com o grosso dos argumentos do economista francês Thomas Piketty, autor do best-seller “O Capital No Século 21”, segundo o qual as últimas décadas foram marcadas por uma tendência clara de aumento da concentração de renda nas mãos dos mais ricos mesmo nos países desenvolvidos.

Como vai ser quase impossível reverter essa tendência de forma pacífica, Mortimer prevê que voltaremos a viver em um mundo bem mais estratificado socialmente, similar ao da primeira metade do século 19, quando havia um abismo claro entre uma elite de grandes industriais e latifundiários e uma massa de pobres urbanos.

Esse, aliás, é um cenário até otimista, para o autor —caso não consigamos desenvolver uma sociedade global ambientalmente sustentável, capaz de se libertar do consumo irresponsável de combustíveis fósseis, poderíamos voltar até às guerras, fome e intolerância endêmicas do século 17.

Tomara que ele esteja errado.

Séculos de Transformações

  • Preço R$ 69,48 (476 págs.)
  • Autor Ian Mortimer
  • Editora Difel

MUSEU DE GRANDES NOVIDADES

Principais transformações do mundo ocidental nos últimos dez séculos

Séc. 11

Transformações

Pintura do século 11 mostra comportamento durante o feudalismo.
Pintura sobre o feudalismo - Wikimedia Commons
→ Igreja Católica se consolida na Europa
→ Diminuição das guerras feudais [2]
→ Fim da escravidão no Ocidente cristão
→ Avanços da engenharia levam a grandes catedrais
 
Figura com maior impacto
 
Ilustração do papa Gregório 7º
O papa Gregório 7º - Wikimedia Commons
 
Papa Gregório 7°
Transformou o papado na voz mais importante da cristandade e elevou o interesse pelo aprendizado e pelo debate
 

Séc. 12

Transformações

Vitral do santo Bernardo de Claraval. Na imagem, o homem segura um livro e um bastão
Vitral do santo Bernardo de Claraval - Wikimedia Commons

 → População europeia explode
→ Avanço da rede de mosteiros
→ Renascimento intelectual
→ Estado de direito

Figura com maior impacto

Estátua de Pedro Abelardo
Pedro Abelardo - Wikimedia Commons

Pedro Abelardo
Sua racionalidade era algo inusitado na época. As consequências de sua teologia seriam sentidas apenas no século seguinte

Séc. 13

Transformações

Escultura de Pitágoras
Escultura de Pitágoras - Wikimedia Commons

→ Expansão do comércio
→ Educação formal
→ Ordens de frades pregadores
→ Viagens se intensificam

Figura com maior impacto

Ilustração do Papa Inocêncio 3°
Papa Inocêncio 3° - Wikimedia Commons

Papa Inocêncio 3°
Sua determinação em fazer com que toda grande igreja ensinasse a ler e a escrever acelerou a disseminação da alfabetização

Séc. 14

Transformações ​

Ilustração de enterro das vítimas da peste negra
O enterro das vítimas da peste negra - Wikimedia Commons

→ Peste Negra
→ Guerras de projéteis e origens do canhão
→ Nacionalismo
→ Línguas europeias posteriores ao latim

Figura com maior impacto

Ilustração sobre Eduardo 3°, rei da Inglaterra
Eduardo 3°, rei da Inglaterra - Wikimedia Commons

 

Eduardo 3°, rei da Inglaterra
Fomentou o uso da língua inglesa como vernáculo e desencadeou a Guerra dos Cem Anos

Séc. 15

Transformações ​

Estátua Davi, de Michelangelo (AP Photo/, File)
Estátua Davi, de Michelangelo (AP Photo/, File) - Fabrizio Giovannozzi/Associated Press

→ A Era dos Descobrimentos
→ Medição do tempo
→ Individualismo
→ Realismo e naturalismo da Renascença

Figura com maior impacto

Suposto pintura retratando de Cristovão Colombo
Suposto retrato de Cristovão Colombo - Wikimedia Commons

 

Cristóvão Colombo
Sua descoberta de Colombo acabou se mostrando a maior reviravolta da Europa desde a Peste Negra

Séc. 16

Transformações 

Desenho de prensa de livros
Prensa de livros - Wikimedia Commons

→ Livros impressos e alfabetização
→ Reforma Protestante
→ Armas de fogo
→ Diminuição da violência individual

Figura com maior impacto 

Pintura de retrato de Martinho Lutero
Martinho Lutero - Wikimedia Commons

Martinho Lutero
Não apenas iniciou a Reforma: ele a moldou com seus sermões, hinos, traduções, escritos e correspondências 

Séc. 17

Transformações  

Desenho e estudo de veias
William Harvey (1578-1657). Imagens de veias de Harvey - Wikimedia Commons

→ Revolução Científica
→ Colonização ultramarina
→ Contrato social
→ Ascensão da classe média

Figura com maior impacto 

Desenho de retrato de Galileu Galilei
Galileu Galilei - Wikimedia Commons

Galileu Galilei
Popularizou o método de investigação científica e foi o pioneiro na fabricação de instrumentos e no estudo da física elementar

Séc. 18

Transformações   

Tear, máquina de produção de tecidos
Tear, máquina de produção de tecidos - Wikimedia Commons

 

→ Liberalismo
→ Teoria econômica
→ Sistemas de transporte e comunicação
→ Revolução Industrial

Figura com maior impacto

Retrato do filósofo e escritor Jean-Jacques Rousseau
Retrato do filósofo e escritor Jean-Jacques Rousseau - Château de Versailles/The Art Archive

Jean-Jacques Rousseau
Suas ideias inspiraram os clamores em favor da tolerância, da liberdade e da igualdade que levaram à Revolução Francesa

Séc. 19

Transformações    

Retrato de Dorothy Catherine Draper. É o mais antigo e bem definido retrato de uma pessoa
Retrato de Dorothy Catherine Draper. É o mais antigo e bem definido retrato de uma pessoa - Wikimedia Commons

 → Urbanização
→ Saúde pública
→ Fotografia
→ Reformas sociais

Figura com maior impacto

Karl Marx
Karl Marx - John Mayall/Wikimedia Commons

Karl Marx
Ajudou a criar um movimento de massa para a emancipação da classe operária que dominou a política no fim do século

Séc. 20

Transformações     

Em meio a fios, em uma grande sala, duas pessoas trabalham. Os amontoados de fios conectados lembram os que eram usados em centrais telefônicas antigas
Eniac, o primeiro computador digital de grande escala - Wikimedia Commons

→ Transportes
→ Expectativa de vida
→ Guerras
→ Aparelhos eletrônicos [1]

Figura com maior impacto

Adolf Hitler
Adolf Hitler - Associated Press

Adolf Hitler
Foi o responsável pela eclosão da Segunda Guerra Mundial. Concebeu e pôs em prática o Holocausto

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