Descrição de chapéu The New York Times

Via expressa carregava geleiras da Namíbia para o Brasil há milhões de anos

Pesquisa descobriu rota graças a drumlins, colinas formadas por sedimento arrastado pelo gelo

Robin George Andrews
Nova York | The New York Times

A Namíbia é famosa por seus desertos, entre o quais o mais velho do planeta, uma vasta área de dunas ondulantes de areia, calcinadas, ocasionalmente recobertas por uma neblina etérea. Mas cerca de 300 milhões de anos atrás, a Namíbia era uma terra gélida que ficava perto do polo sul, conectada ao que hoje constitui a América do Sul como parte do supercontinente Pangeia, que estava emergindo.

Lá, ela funcionava como uma via expressa para o gelo em rápido movimento, quando fragmentos de geleiras se separavam da colossal calota polar do sul da África e talhavam assinaturas nas rochas adjacentes ao se deslocar em ritmo acelerado para o que hoje é o Brasil.

Os dois países estão separados por cerca de 5,6 mil quilômetros de Oceano Atlântico agora. Mas uma equipe de pesquisadores reportou no mês passado, em artigo na revista acadêmica Plos One, que havia conseguido desenvolver um retrato desse fluxo de gelo entre as duas massas terrestres, em seu passado distante.

Drumlin, uma espécie de morro, na Namíbia; a formação tipicamente ocorre quando sedimento arrastado por geleiras cai e se acumula em uma pilha distendida
Drumlin na Namíbia; a formação tipicamente ocorre quando sedimento arrastado por geleiras cai e se acumula em uma pilha distendida - West Virginia University

A prova crucial surgiu na forma das colinas laceradas da Namíbia, formadas muito tempo atrás pela migração de geleiras e rios de gelo. O estudo contém descrições de algumas das mais antigas entre essas esculturas formadas pelo gelo, e representa a primeira ocasião em que são descritas no sul da África.

"Tentar identificar esses traços da antiguidade no registro geológico representa um imenso desafio", disse James Lea, professor de glaciologia na Universidade de Liverpool, que não participou do estudo.

Mas se as constatações foram confirmadas por trabalho de campo adicional, ele disse, "a preservação delas representa um pequeno milagre e oferece insights fascinantes sobre o comportamento da paisagem glacial da antiguidade, quase completamente desaparecida".

Cientistas já haviam previsto que todas as rochas carregadas por geleiras que vinham encontrando no Brasil aparentemente haviam sido transportadas por correntes de gelo originadas em algum lugar do sul da África, disse Graham Andrews, professor assistente de geologia na Universidade da Virgínia Ocidental e um dos autores do estudo. Ele e sua mulher Sarah Brown, também geóloga e coautora do trabalho, encontraram os indícios por acaso.

Durante pesquisas de campo nos desertos do norte da Namíbia, eles estavam observando rochas vulcânicas. No último dia da expedição, um grupo de colinas especialmente curvilíneas atraiu o olhar de Andrews.

Para ele, as formações pareciam "drumlins", castelos sedimentares que marcam a paisagem de sua Irlanda do Norte natal. Os "drumlins" tipicamente se formam quando sedimento arrastado por geleiras cai e se acumula em uma pilha distendida.

Os guias da expedição de Andrews na Namíbia não consideravam que as colinas pudessem ter origem glacial. De volta à universidade, ele propôs sua ideia "completamente maluca" a dois alunos de seu laboratório.

Andrew McGrady, um dos alunos, usou imagens obtidas por satélites para ajudar a classificar quase 100 dessas estranhas formações sedimentares. Algumas das formas mais alongadas foram definidas como "dorsos de baleia", e as maiores delas como "megadorsos de baleia". Seus contornos em geral se equiparam aos de outras formações de superfície esculpidas pelas geleiras em todo o planeta.

Os "drumlins", dorsos de baleia e megadorsos de baleia da Namíbia também mostravam entalhes gigantescos. Cicatrizes como essas se formariam apenas se o gelo estivesse passando por elas à velocidade de centenas de metros ao ano, o que faria desses blocos erosivos os carros de Fórmula 1 do mundo glacial. Em contraste, as geleiras circundantes teriam parecido quase estacionárias.

A Namíbia do passado distante era parecida com a porção montante de uma enorme plataforma de gelo. Shannon Maynard, outra estudante que trabalhou com Andrews, traduziu muitos estudos em português sobre os depósitos de gelo do passado da América do Sul. Os pesquisadores reportaram que partes do Brasil pareciam servir de destino para grande quantidade de material movido por geleiras. Isso indicava que o material que foi parar no Brasil se originou na Namíbia antiga.

Pesquisas sobre essas formações não oferecem só uma janela para o passado distante do planeta. Lauren Knight, geomorfologista glacial da Universidade de Portsmouth, explicou que essa corrente de gelo do passado distante poderia ser comparada a outras encontradas hoje em lugares como a Antártida e a Groenlândia. Mesmo 300 milhões de anos mais tarde, essas formações poderiam revelar como o gelo responderá no mundo moderno, cada vez mais aquecido.

As duas historias, passada e presente, giram em torno de perdas. "As vias expressas para o movimento do gelo são a maneira pela qual a calota polar morre, efetivamente", disse Andrews.

Tradução de Paulo Migliacci

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